O luto, as responsabilidades e os planos desfeitos

Opinião

Filipe Faleiro

Filipe Faleiro

Jornalista

O luto, as responsabilidades e os planos desfeitos

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Atualizado quinta-feira,
09 de Maio de 2024 às 12:07

Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

O desastre sobre o Rio Grande do Sul, em especial sobre o Vale do Taquari, traz a dura constatação do despreparo da sociedade frente a eventos adversos. Começa com a ineficiência dos modelos de previsibilidade, monitoramento, alerta e socorro, passa pela dificuldade de comunicação com pessoas em áreas de risco, descrença da população quanto ao risco iminente e pela ausência de equipamentos (botes e helicóptero) nos momentos derradeiros.

Essa conjunção de fatores resulta, até agora, em 34 mortos confirmados, pelo menos 49 desaparecidos, mais de dez mil desabrigados, pelo menos 20 mil imóveis atingidos. Todos os dados ainda subestimados, pois nem mesmo quem está na linha de frente no atendimento às famílias sabe ao certo o tamanho da calamidade.

Há quem diga, inclusive, que não é hora de buscar responsabilização, apontar para as falhas e cobrar respostas. Talvez estejam certos. É preciso compreender o momento de luto da comunidade. Junto com isso, da necessidade de garantir o básico às vítimas, daqueles que perderam o que tinham.

Foto: Arquivo A Hora

As histórias das famílias, de cada pai, mãe, avô, avó, por vezes se aproximam. Ainda que com peculiaridades, o sofrimento é o mesmo. Quem sobreviveu agradece a Deus pela vida, pela chance de recomeçar.

Nas ruas atingidas, ouvi de muitos atingidos o drama, a aflição e um fio de esperança. De que não serão esquecidos e terão ajuda prometida pelas autoridades.

Uma senhora, com o celular na mão e lágrimas nos olhos, me mostrou como era a casa dela: – Olha como era bonita. Aqui tinha o meu jardim e íamos fechar a garagem e construir mais um quarto para meu neto. Agora não tem mais casa.

Assim como ela, centenas, talvez milhares de pessoas, tiveram sonhos e planos desfeitos.

Um novo patamar

Todas as cidades precisarão ser repensadas. Ficou claro que não há como negociar com a natureza. Construções de moradias em locais próximos ao rio devem ser proibidas. Outro ponto também nas encostas de morros.

O paradigma sobre obras de infraestrutura, em especial construção de pontes, também terá de ser recalculado. A engenharia considera dados das enchentes históricas. O patamar era 1941. Neste ano, agora, todas passagens sobre os rios terão de considerar maio de 2024.

Adaptação climática

Chega de politizar conceitos como mudanças climáticas e aquecimento global. Todo o abalo ambiental ao longo da última década são provas de como a ação humana interfere na vida do planeta.

Velhos hábitos de produção, consumo, uso dos recursos naturais e lucro acima da sustentabilidade vão levar todos ao abismo. O relógio não para. Só existe um planeta conhecido para abrigar a vida. Ou cuidamos dele, ou condenamos a todos os seres.

É preciso se valer da ciência. A comunidade científica alerta faz muito tempo do momento derradeiro. Não existe espaço para discussão ideológica. Os sinais estão na nossa cara, negá-los não os farão desaparecer.

Tipos de acidentes geológicos

Deslizamentos
Movimento de massa descendente em encostas desencadeado pela infiltração de água no solo. Quanto mais íngreme, maior a probabilidade.

Rachaduras
Causado por vários fatores. Como a retração do solo, com a perda de umidade pode se contrair e desenvolver rachaduras. Esse movimento tem relação com o tipo de minerais presentes, que podem se expandir quando úmidos e contrair quando secos.

Afundamentos
Ocorre com a extração de água subterrânea, em que a remoção excessiva de água do subsolo pode levar ao colapso do solo, resultando em afundamentos.

Rastejos
O rastejo é um movimento lento e contínuo de solo em encostas.

Áreas monitoradas
Relatório feito pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) entre 2013 a 2023. Tabuladas entre risco alto e muito alto para movimentos de massas. O critério adotado é de áreas habitadas, onde os efeitos podem atingir imóveis e moradores.

Água e terra

Os deslizamentos são fenômenos comuns no Vale do Taquari. A diferença é que não se via. Hoje, os celulares captaram diversos episódios que impressionam ao longo da semana de pesadelo. Casas varridas pela mistura de terra e rocha em vídeo chegaram na Central de Jornalismo.

Estudo do Serviço Geológico do Brasil, feito entre 2013 a 2023, afirma que mais de 3,3 mil pessoas moram em áreas de risco de soterramento. Quase 900 imóveis construídos em encostas.

Com a chuva acima da média, ocorrem mudanças na compactação do solo. De modo resumido, os movimentos de massa são efeitos de quando o solo é raso sobre as rochas, com grandes declives.

Encantado, Muçum e Roca Sales estão entre as mais atingidas. Em Estrela, áreas de margem do Rio Taquari apresentam erosão acelerada.

• Cruzeiro do Sul

Três pontos com riscos diversos. Erosão, afundamento de solo (solapamento), rachadura no chão (rastejo) e deslizamentos de terra e pedras.

Rua Rubens Feldens
Risco: Solapamento
Atinge: 7 imóveis
Risco para 28 pessoas

Vila Itália
Escorregamento de solo e de pedras
Atinge: 30 casas
Risco para 120 pessoas

No centro, próximo a Casa do Morro
Risco: Rastejo
Atinge: 20 casas
Alerta para 80 pessoas

• Encantado

Quatro pontos. Riscos de deslizamento, queda de rochas e erosão

Bairro São José, rua David Ceregatti
Deslizamentos
Atinge: 7 imóveis
Alerta para 28 pessoas

Bairro Jacarezinho
Risco muito alto
Deslizamento e queda de rochas
Atinge: 16 imóveis
Alerta para 64 pessoas

Bairro Lajeadinho (dois locais)
Estrada da Santinha
Deslizamentos, queda de rochas
Atinge: 8 imóveis
Risco para 32 pessoas

Na mesma localidade, em área próxima
Erosão e deslizamentos
Atinge: 12 imóveis
Risco para 48 pessoas

• Estrela

Seis áreas com alertas
Maiores riscos são de erosão e restejo (afundamento)

Bairro São José/Rua Maria Schwartz
Restejo
Atinge: 15 imóveis
Risco para 60 pessoas

Boa União/ Rua João Lino Braun
Erosão fluvial
Atinge: 14 imóveis
Risco para 56 pessoas

Centro/Marechal Hermes
Erosão da margem
Atinge: 150 imóveis
Risco para 600 pessoas

Bairro Cristo Rei
Erosão
Atinge: 50 casas
Risco para 100 pessoas

Linha Figueira
Erosão
Atinge: 20 casas
Risco para 80 pessoas

Distrito de Costão
Erosão
Atinge: 8 imóveis
Risco para 32 pessoas

• Lajeado

As áreas ficam em três bairros
Riscos de erosão, solapamento, escorregamento do solo e deslizamentos.

Santo Antônio
Escorregamento do solo
Atinge: 20 residências
Risco para 80 pessoas

Morro 25
Erosão e solapamento nas margens
Atinge: 11 imóveis
Risco para 44 pessoas

Conservas
Escorregamento do solo
Atinge: 70 casas
Risco para 280 pessoas

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