Compre o que é nosso!

Opinião

Rodrigo Martini

Rodrigo Martini

Jornalista

Coluna aborda os bastidores da política regional e discussão de temas polêmicos

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Foi assim na pandemia, e precisa ser assim após a catastrófica enchente que matou 36 pessoas e deixou ao menos 31 desaparecidos só no Vale do Taquari. É primordial alimentar a economia estadual para estancar a sangria e salvar o que restou. E a forma mais eficaz é consumir produtos locais e prestigiar os serviços dos profissionais gaúchos. Neste sentido, o Grupo A Hora iniciou a campanha Vale Vivo para provocar novos investimentos e potencializar o empreendedorismo regional por parte de quem não sofreu – ou sofreu menos – com a cheia.

Um movimento importante, e que pode ser expandido a todo o Rio Grande do Sul. Aliás, é possível romper as barreiras do estado. E vejam só. Há bons exemplos em Santa Catarina, onde alguns supermercados (na foto, um estabelecimento em Garopaba) já fomentam o apoio ao aguerrido povo gaúcho.

“Lugar bonito é lugar perigoso”, mesmo!

A frase acima foi título do artigo publicado no dia 20 de fevereiro. Mas a descomplicada frase não é de minha autoria. Ela pertence a um dos mais renomados especialistas em desastres naturais e cuja palestra realizada dias antes daquela publicação, em Muçum, chamou a atenção de poucas pessoas. “Lugar bonito é lugar perigoso”, avisava o japonês Masato Kobiyama, nascido em Kitakata, no Estado de Fukushima, e “brasileiro” desde 1991. Professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Ufrgs, ele também faz parte da coordenação da Comissão Técnica de Desastres da Associação Brasileira de Recursos Hídricos. E ele foi direto. Além das inundações, avisou, precisamos estar muito atentos aos deslizamentos de terra, especialmente com a urbanização junto às encostas. Eu só não imaginava que a realidade bateria tão cedo – e tão forte – em nossa porta…

Como serão as eleições?

Conversei com diversos agentes políticos e muitos compactuam com uma dúvida: afinal, como serão as eleições municipais de outubro? Diante da vitrine colossal disponibilizada aos atuais gestores – e por consequência aos eventuais candidatos à sucessão –, e das cifras milionárias que serão entregues para os prefeitos manusearem, alguns líderes partidários sugerem a suspensão do pleito. Outros sustentam a necessidade de protelar em poucos meses o aguardado dia da votação – e eu concordo –, e assim devolver um mínimo de isonomia e equilíbrio entre situacionistas e opositores.

E há quem não veja empecilho em manter o dia seis de outubro como o dia “D” para a escolha dos futuros prefeitos e vereadores. Da mesma forma, e diante da possibilidade de milhares de eleitores ainda restarem desalojados, os marqueteiros reavaliam as estratégias. Fato é: tudo vai mudar a partir da trágica enchente. Inclusive as coligações, é claro. Aliás, um lembrete: na quarta-feira passada as empresas ou entidades cadastradas no TSE para prestar serviço de financiamento coletivo de campanhas foram autorizadas a arrecadar recursos. A prática também é conhecida como crowdfunding ou “vaquinha virtual”. Mas será que há clima para tal? E para usar o Fundo Eleitoral?

O colapso e as rotinas

Os engarrafamentos precisam servir de combustível para uma mudança cultural. Enquanto não retomarmos as conexões entre cidades será necessário mudar rotinas. Uma das ações é rever utilização dos veículos. Em um momento de colapso logístico, é aconselhável o compartilhamento do transporte. Ou seja, buscar ou oferecer carona. Outra sugestão é a mudança de horários em determinadas indústrias, empresas e, também, na Universidade do Vale do Taquari (Univates). Não é plausível esperar que todos se desloquem em um mesmo momento para “bater o cartão”.

Informação, alerta e cotas

Não é momento de apontar culpados e aclarar os erros e movimentos negligentes por parte de quem deveria garantir um mínimo de segurança à população em âmbito estadual e federal. Haverá tempo e momentos mais oportunos para desenhar os graves lapsos. Mas, e diante da proximidade assustadora entre os eventos de setembro de 2023 e abril/maio de 2024, é preciso correr para garantir modelos eficazes de monitoramento dos afluentes e do Rio Taquari. Não podemos aceitar tanto amadorismo e imprecisão. Sem falar na mediocridade dos alertas e na pachorra do socorro.

TIRO CURTO

  • Não foram poucas as matérias cobrando pavimentação na ERS-129 entre Roca Sales e Colinas. Pois bem. Após a tragédia, a rodovia estadual passou a ser a principal ligação rodoviária entre as regiões alta e baixa do Vale do Taquari. E a omissão do passado compromete a solução do presente.
  • A Empresa Pública de Logística Estrela, a E-Log, cuja missão era devolver movimentação ao porto e ao Aeródromo Regional localizados em Estrela, perdeu o sentido com a destruição de ambas as estruturas. E o chefe do Executivo já sinaliza com a provável extinção.
  • O Ministério Público investiga eventuais aumentos abusivos de preços em meio ao pior desastre natural da nossa história, especialmente de itens básicos e necessários à sobrevivência e dignidade das pessoas mais impactadas pela trágica enchente da semana passada.
  • O governo de Estrela oferece cerca de quatro mil metros quadrados de área seca (ou não inundável) dentro do antigo prédio da Cervejaria Polar para novos – ou velhos – empreendimentos.
  •  Já o governo federal prometeu R$ 50 bilhões entre repasses e empréstimos aos gaúchos. Ainda é pouco. Mas é um avanço. Além disso, anuncia a suspensão do pagamento da dívida do RS com a União pelo período de 36 meses. Também é pouco. Mas é outro avanço.
  • “Vale Vivo”, “Juntos pela ponte”, “Reconstruir Cruzeiro do Sul”, “Uma casa por dia” e outros tantos movimentos populares serão de suma importância para restabelecer a ordem e a pujança do Vale do Taquari. Parabéns e todos os voluntários que pensam e agem neste momento de dor.
  • Arquitetos ligados ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) do Rio Grande do Sul assinam um manifesto com sugestões para a reurbanização das cidades mais atingidas pelas enchentes de 2023 e 2024. Entre as providências, destaque à criação de um Plano Diretor Regional.
  • Em tempo, e por ora, a 31ª Expovale está confirmada para novembro, no Parque do Imigrante.

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