Conversando com o mestre Jô

Opinião

Marcos Frank

Marcos Frank

Médico neurocirurgião

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Conversando com o mestre Jô

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Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Há poucos dias Jô Soares nos deixou. Fica a obra de um brasileiro genial. Escritor, humorista, ator, além de um incrível talento para a arte da entrevista. Com 84 anos ao partir, Jô nos deixa algumas pérolas com as quais dialogaremos.

Como foi essa mudança de dimensão, Jô?

Obrigado por perguntar. “São poucos os que se importam, os outros são só curiosos.” Como todos sabemos, “não existe esse negócio de terceira idade, só existem duas opções: vivo ou morto”! “Eu sofri a dor que é o pesadelo de todo pai, a inversão da ordem natural das coisas: perda de um filho.” Agora vou me juntar a ele.

Você tinha medo da morte?

“Sou um hipocondríaco de doenças exóticas. Beribéri – eu nem sei o que é, mas tenho pavor de pegar isso.” Por outro lado, “O medo da morte é um sentimento inútil: você vai morrer mesmo, não adianta ficar com medo. Eu tenho medo de não ser produtivo.”

Qual o seu conselho para quem está envelhecendo?

Pois então, “diante desse imenso ponto de interrogação que é o futuro de todos nós, reformulei minhas crenças: estou me dando o direito de não pensar tanto, de me cobrar menos ainda, e deixar para compreender depois. Desisti de atracar o barco e resolvi aproveitar a paisagem.”

Você foi casado três vezes e ainda namorou a atriz Claudia Raia. Como sabemos quando um relacionamento está chegando ao fim?

“A melhor maneira de ser feliz com alguém é aprender a ser feliz sozinho. Daí a companhia será questão de escolha e não de necessidade.” Agora, quando saber se o casamento está ruim? Quando você está engolindo sapo ao invés de comer a perereca.”

De Zé da Galera pedindo um ponta a Telê Santana ao defensor dos fracos e oprimidos Capitão Gay, foram muitos os personagens eternizados na memória do brasileiro. Como era o seu processo criativo?

“Os meus personagens são muito mais baseados no lado psicológico e no social do que na caricatura pura e simples. Eu nunca fiz um personagem necessariamente gordo. Eles são gordos porque eu sou gordo.” “O meu humor tem sempre um fundo político, sempre tem uma observação do cotidiano do Brasil.” Além disso, “não existe palavra feia. O feio está na cabeça de quem pensa que é feio. Foi uma lição para toda a vida, uma dessas iluminações que clareiam o caminho: o humorista precisa ter toda a liberdade possível e impossível, não pode sofrer preconceitos e restrições na sua maneira de pensar. O palavrão, a censura, o chocante estão na cabeça das pessoas.”

Como um humorista deve se relacionar com o poder?

“O poder em si já é uma coisa ridícula. O sujeito assume a Presidência e colocam nele uma faixa que parece suspensório torto.” “O humor tem de ser anárquico. Humorista não pode se engajar. Tem de ser oposição até da oposição.” Agora, “tem duas coisas de que eu não posso abrir mão. Primeiro, de ouvir as pessoas. Segundo, da minha irreverência.” Finalmente, “nunca faça graça de graça. Você é humorista, não político”.

Pode deixar um conselho aos que ficam?

“Eu diria que rir de si mesmo é um mandamento da vida, não só da comédia.

 


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