Edvino Claas caminha até a Casa de Cultura de Marques de Souza, recém-inaugurada, e cumprimenta a todos pelo caminho. O amigo advogado, bem-humorado brinca: “Edvino, aqui o senhor manda”.
Claas sorri e mantém o passo, lembrando da dificuldade de emancipar o município na década de 1990. Havia uma disputa com a localidade de Bela Vista do Fão, que também queria a autonomia e hoje segue como distrito do próprio município de Marques. Foi Claas quem liderou a emancipação: agilizava a documentação viajando à Capital antes dos concorrentes, e assim Marques venceu a disputa.
A separação de Lajeado, o município-mãe, levou a Marques a autonomia para gerir seus próprios recursos e investir diretamente nas necessidades locais. Claas esteve sempre junto.
Hoje, aos 94 anos, ele guarda os artigos da época. São duas ou três pilhas. Ao lado das revistas do Grêmio e outros impressos, o aposentado retira publicações emblemáticas do armário. Histórias empilhadas já amareladas pelo tempo.
Ele também tem sua história e a relata em voz entusiasmada.
Claas foi morar em Marques de Souza em 1955 para atuar como professor, mas viu o salário definhar todo fim de mês e trocou de carreira, indo oferecer máquinas de lavar. Viajando pelo Sul, percebeu que tinha talento para as vendas, até a fábrica fechar e ele virar caminhoneiro, levando trigo a São Paulo.
Um médico lhe disse que seria necessário se cuidar mais. Caminhar. Então trocou o caminhão pelo táxi e permaneceu no ofício por 42 anos. Como taxista, acelerou a emancipação de Marques. Entre um caroneiro e outro, ele adiantava os trâmites do processo em cada ida à Capital.
O caminhão se foi, o táxi também, mas as caminhadas orientadas pelo médico há 30 anos ainda continuam. Elas ajudam a manter a saúde e clarear a mente, que Claas usa para fazer cálculos e gerir o patrimônio da Sociedade Escolar do município. Há 12 anos ele preside a entidade, que hoje conta com múltiplos prédios. “A sociedade foi fundada em 1923”, explica ele.
Hoje, opera em um ofício diferente: “trabalhar pela comunidade”. Emancipador, administrador de sociedade, Claas tem disposição para ocupar o tempo com ações sociais. “Se eu não tenho nada para fazer durante o dia, eu fico triste. As atividades me fazem bem”.
Uma vez motorista, sempre motorista
O volante ainda faz parte da rotina. Dirige até Santa Cruz, faz visitas às comunidades e realiza tarefas básicas no notebook. A mente ágil não o deixa pausar. “Uma comunidade acaba quando não há mais voluntariado”, salienta.
Claas sempre foi muito assertivo nas ações pelas quais se responsabilizou. Era praxe no município ouvir comentários do tipo: “Vamos deixar o Claas resolver, ele faz”.
E foi assim que angariou a estima da sociedade local. Em 2009, recebeu o título de Cidadão Marques-souzense. O título reconhece a sua importância histórica para a cidade. “Eu me sinto respeitado aqui”.
A memória nas capas de jornais
Claas caminha para dentro do portão de casa. Mora sozinho, no Centro da cidade. Como companhia, as lembranças dos jornais antigos. Há capas que chamam atenção, como a do jornal do Grêmio, campeão absoluto. Noutra, a morte de Tancredo Neves avisava que o Brasil estava de luto. As fotografias de família ficam em cima do balcão.
A trajetória de Claas também estará nas notícias dos jornais da biblioteca da Casa de Cultura de Marques, recém-inaugurada. Assim como as capas emblemáticas do Grêmio e de Tancredo, ele também fez história.
Trajetória de Edvino Claas
- Foi morar em Marques de Souza em 1955
- Principal emancipacionista do município, em 1995
- Recebeu o título de Cidadão Marques-souzense, em 2009
- Há 12 anos preside a Sociedade Escolar
- Inúmeras profissões: professor, vendedor, caminhoneiro e taxista


