Machado de Assis teria um perfil nas redes?

Opinião

Karine Pinheiro

Karine Pinheiro

Jornalista

Machado de Assis teria um perfil nas redes?

Machado de Assis teria um perfil nas redes sociais? A pergunta parece deslocada. Afinal, o escritor morreu em 1908, muito antes de existirem smartphones, algoritmos ou qualquer possibilidade de transformar a rotina em publicação.

Machado, em suas obras, observava aquilo que menos muda no ser humano: a vaidade, a aparência, a necessidade de reconhecimento e a preocupação com o olhar dos outros. Se estivesse entre nós, talvez ele não se surpreendesse tanto com as redes. Mudaram as ferramentas, a velocidade e o alcance. No entanto, a vontade de ser visto continua.

Antes de existir Instagram, as pessoas já construíam versões de si mesmas. A roupa comunicava posição. A reputação podia abrir ou fechar portas. Havia sempre uma preocupação com aquilo que os outros pensariam. E em seus personagens, a aparência raramente aparece apenas como um detalhe.

Ela está ligada ao desejo de reconhecimento, ao medo do julgamento e à necessidade de ocupar determinado lugar diante da sociedade. Os personagens observam e são observados. Julgam e são julgados. Contam histórias sobre si mesmos e tentam controlar a maneira como serão lembrados. Não é difícil encontrar alguma familiaridade com o presente.

Nas redes sociais, cada pessoa pode construir uma pequena vitrine. Escolhe fotografia, enquadramento, legenda, momento que merece aparecer e o que permanece fora da tela. Também há liberdade para apagar, editar e esconder. O perfil se transforma em uma espécie de narrativa pessoal.

Toda narrativa tem escolhas

Talvez seja aí que Machado de Assis pudesse encontrar uma de suas maiores curiosidades. Não nas fotografias, mas naquilo que existe por trás delas. O que faz alguém escolher determinada imagem para mostrar? Por que algumas experiências precisam ser compartilhadas?

Em Dom Casmurro, Bentinho conta a própria história. O leitor acompanha a narrativa e os acontecimentos pela perspectiva do personagem e precisa lidar com uma dúvida que atravessa o livro: até que ponto podemos confiar em quem conta a história? Nas redes, somos um pouco narradores de nós mesmos.

Escolhemos o que contar. Apresentamos ângulos. Construímos uma sequência de imagens que, juntas, formam uma interpretação sobre quem somos. Isso não significa que toda publicação seja falsa. A questão é outra, nenhuma fotografia mostra uma vida inteira. Nenhum comentário consegue traduzir completamente uma experiência.

Ainda assim, julgamos

Uma imagem basta para formar uma impressão. Talvez Machado encontrasse aí um dos aspectos mais interessantes da vida contemporânea. A sociedade que ele observava também era movida pela reputação. A diferença é que, naquela época, o julgamento circulava em círculos sociais mais restritos. Hoje, pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos.

A tecnologia ampliou o palco, mas não necessariamente mudou os personagens. Continuamos querendo aprovação. Continuamos tentando parecer interessantes, inteligentes, bem-sucedidos, felizes ou corretos. Talvez a principal diferença seja que agora podemos acompanhar o julgamento em tempo real.

O reconhecimento ganhou métricas. Machado talvez se divertisse com essa contradição. Um escritor interessado nas pequenas vaidades humanas encontraria um laboratório inesgotável nas redes sociais. Poderia observar quem precisa ser admirado, quem não suporta ser contrariado, quem muda de opinião diante do público, quem transforma uma opinião em identidade e quem passa mais tempo construindo uma imagem do que tentando compreender a própria realidade.

Machado de Assis provavelmente teria muito a dizer sobre isso. Afinal, se existe algo que ele ensinou é que, por trás da aparência, existe uma história que merece ser investigada. E, nas redes sociais, a pergunta mais importante é quem estamos tentando convencer que somos.

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