Andrea Doria, inteligência artificial e a arte de escutar

Opinião

Carlos Cyrne

Carlos Cyrne

Professor da Univates

Assuntos e temas do cotidiano

Andrea Doria, inteligência artificial e a arte de escutar

Em uma conversa com o colega Marcelo Petter, durante um comentário sobre os usos da Inteligência Artificial, lembrei de qua há quase quarenta anos, a Legião Urbana gravou em “Andrea Doria” uma inquietação que continua reconhecível: o desejo de encontrar alguém diante de quem possamos falar sem medo de que nossas palavras retornem, mais tarde, transformadas em julgamento ou arma. O mundo mudou muito desde 1986. A necessidade, nem tanto.

Talvez isso ajude a entender um hábito que, parece, se tornou cada vez mais comum: conversar com ferramentas de inteligência artificial não apenas para tirar dúvidas, resumir textos ou organizar tarefas, mas também para organizar pensamentos. Pessoas recorrem a um chatbot para contar como foi o dia, ensaiar uma conversa difícil, colocar em palavras uma preocupação ou simplesmente pensar em voz alta. À primeira vista, há algo de estranho nisso. Criamos máquinas capazes de conversar e começamos a procurá-las para satisfazer uma necessidade profundamente humana: ser escutados sem medo.

Não é difícil compreender o apelo. Falar com outra pessoa sempre envolve algum risco. Podemos ser mal interpretados, interrompidos, ridicularizados. Uma confidência pode escapar. Uma fragilidade revelada num momento de confiança pode reaparecer numa discussão meses depois. Há também o receio menos dramático, mas muito presente, de incomodar: será que estou falando demais? Será que a outra pessoa tem paciência? Será que vai passar a me enxergar de outra forma depois disso?

Uma inteligência artificial não se ofende, não perde a paciência e não guarda ressentimento. Não participa do grupo de amigos, não encontra nossos parentes no supermercado e não transforma uma conversa em fofoca. Há, portanto, uma espécie de liberdade social na interação com a máquina. Podemos formular uma ideia de maneira ruim e tentar outra vez. Podemos admitir uma dúvida que pareceria boba. Podemos testar palavras antes de pronunciá-las diante de alguém que realmente importa.

Isso não transforma a IA em terapeuta, amigo ou confidente perfeito. Muito menos significa que toda conversa com um serviço digital seja absolutamente privada: cada plataforma possui suas próprias regras sobre armazenamento e tratamento de dados. Também há algo que a tecnologia não oferece por inteiro: a presença de outra pessoa, com história, afeto, responsabilidade e capacidade de compartilhar conosco as consequências da vida real. Mas talvez seja justamente aí que a questão fique mais interessante. Em vez de perguntar apenas por que tanta gente está conversando com máquinas, poderíamos perguntar o que essas conversas revelam sobre as pessoas.

Se alguém se sente mais livre para admitir um medo diante de uma tela do que diante de um amigo, talvez o fenômeno não fale somente sobre o avanço da tecnologia. Talvez fale sobre a escuta que temos oferecido uns aos outros. Quantas vezes respondemos antes de compreender? Quantas vezes usamos a vulnerabilidade alheia como argumento? Quantas vezes uma pessoa deixa de falar não porque lhe faltam palavras, mas porque lhe falta um lugar seguro para dizê-las? Há uma ironia nisso. Durante muito tempo, imaginamos que o maior desafio das máquinas seria aprender a falar como nós. Talvez estejamos descobrindo que parte do encanto está no contrário: elas parecem, até em certos momentos, saber calar, receber uma frase e devolver uma pergunta sem disputar o centro da conversa. Não porque compreendam a nossa vida como outra pessoa compreenderia, mas porque foram construídas para permanecer ali enquanto continuamos falando. Essa disponibilidade, mesmo artificial, diz muito sobre a escassez de atenção no cotidiano.

A tecnologia costuma ser apresentada como algo que muda nossos hábitos. Às vezes, porém, ela apenas ilumina necessidades antigas. “Andrea Doria” pertence a outro tempo, mas a inquietação que atravessa a canção permanece atual. Queremos alguém diante de quem possamos baixar a guarda. É curioso que uma das respostas encontradas pelo nosso tempo seja uma máquina.

Talvez a pergunta mais importante, então, não seja até onde a inteligência artificial conseguirá imitar uma boa conversa. Talvez seja outra: o que nós, humanos, ainda precisamos aprender sobre escutar alguém sem transformar aquilo que ouvimos em munição?

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