A cadeia produtiva da Cannabis ganha espaço nas discussões sobre inovação, bioeconomia e diversificação agrícola no país. Com potencial para abastecer diferentes segmentos da indústria, da saúde e do agronegócio, a cultura será tema de um debate promovido pela Embrapa no dia 2 de julho, reunindo pesquisadores, representantes do setor privado e agentes públicos para avaliar os desafios e as oportunidades da atividade no país. O encontro ocorrerá de forma virtual e terá como foco o papel da pesquisa pública na consolidação de uma cadeia produtiva.
Segundo a Embrapa, a Cannabis possui uma das mais amplas possibilidades de aproveitamento entre as culturas agrícolas. Além da utilização medicinal e farmacêutica, a planta pode fornecer fibras para a indústria têxtil, matéria-prima para biomateriais, componentes para cosméticos, alimentos derivados das sementes, óleos e produtos voltados à construção civil. Em diversos países, o cânhamo industrial já é utilizado na fabricação de tecidos, papel, embalagens biodegradáveis, compósitos industriais e até materiais para edificações sustentáveis.
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Regulamentação ainda é desafio
Apesar dos avanços recentes na legislação brasileira, especialistas apontam que o marco regulatório ainda está concentrado principalmente nas aplicações medicinais e farmacêuticas da planta. O segmento do cânhamo industrial, que utiliza variedades com baixos teores de substâncias psicoativas, ainda depende de regulamentações complementares para viabilizar uma cadeia produtiva estruturada.
Para a Embrapa, esse é um dos principais desafios a serem enfrentados nos próximos anos. A instituição avalia que a definição de regras claras para produção, processamento, transporte e comercialização será fundamental para atrair investimentos e estimular pesquisas voltadas às diferentes aplicações da cultura.
Entre os temas previstos para o debate estão a identificação dos principais gargalos do setor, as oportunidades de mercado, as demandas prioritárias de pesquisa e os caminhos para a construção de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento da atividade.
Alternativa para diversificação produtiva
Pesquisadores também destacam o potencial da Cannabis para integrar sistemas produtivos já existentes no campo. A cultura é vista como uma alternativa de diversificação para propriedades rurais e pode ser inserida em regiões agrícolas consolidadas, ampliando as possibilidades de geração de renda.
De acordo com a Embrapa, a planta apresenta potencial de integração com atividades como produção de algodão, soja, pecuária bovina e sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Além disso, especialistas apontam benefícios relacionados ao aproveitamento de biomassa e à busca por matérias-primas renováveis para diferentes setores da economia.
A expectativa é que a cultura possa contribuir para estratégias de desenvolvimento regional, especialmente em áreas do Cerrado, Semiárido e regiões de transição agropecuária.
Pesquisa ganha impulso
O debate ocorre em um momento de avanço das pesquisas relacionadas à Cannabis no Brasil. Em 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou a Embrapa a desenvolver estudos sobre o cultivo da planta. A partir dessa autorização, a empresa passou a estruturar projetos voltados à introdução, caracterização e adaptação de materiais genéticos às condições climáticas brasileiras.
A instituição também trabalha em cooperação com centros de pesquisa nacionais e internacionais para avaliar o desempenho agronômico de diferentes variedades e identificar materiais com potencial produtivo para distintas regiões do país.
Entre as prioridades estão estudos relacionados ao melhoramento genético, adaptação das cultivares ao ambiente tropical, desenvolvimento de sistemas de produção e avaliação de aplicações industriais.
Mercado em expansão
O interesse pela Cannabis tem crescido em diversas partes do mundo. O avanço das regulamentações e o aumento da demanda por produtos sustentáveis e de maior valor agregado impulsionam investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
No caso brasileiro, especialistas acreditam que a combinação entre condições climáticas favoráveis, capacidade de produção agrícola e estrutura de pesquisa pode colocar o país em posição competitiva no mercado latino-americano.
Além das oportunidades ligadas à saúde, a cadeia produtiva pode abrir espaço para novos negócios nos segmentos de fibras, alimentos, cosméticos, biotecnologia e bioeconomia. Outro tema que vem ganhando relevância é a harmonização das normas entre os países do Mercosul, considerada estratégica para facilitar o comércio e ampliar a integração regional.