As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul deixaram uma lição que não pode ser esquecida. Eventos climáticos extremos não afetam apenas estradas, pontes, galpões, lavouras ou cadeias de suprimentos. Eles afetam pessoas. E quando as pessoas são impactadas, o trabalho, a produtividade, a continuidade dos negócios e a própria capacidade de resposta das organizações também são colocados à prova.
Neste mês, dois movimentos significativos fortaleceram essa reflexão. De um lado, o Governo do Estado lançou o programa Prepara RS, voltado à preparação dos municípios para eventos climáticos extremos. De outro, o IBGC e a Chapter Zero Brasil divulgaram o caderno Princípios Orientadores para a Governança Climática e da Natureza: Aplicação no Contexto Brasileiro, alinhado ao framework global do Fórum Econômico Mundial. O documento reforça que riscos climáticos e ambientais devem ser incorporados à estratégia, à supervisão do conselho, à gestão de riscos e à alocação de capital.
O avanço é relevante. Mas ainda existe uma lacuna importante no debate empresarial: a preparação das pessoas. A literatura de governança mostra que conselhos mais preparados formulam perguntas mais relevantes e antecipam com maior eficácia os riscos emergentes. Mais do que discutir infraestrutura, seguros ou planos de contingência, os conselhos e a alta administração precisam questionar como a organização protegerá seus colaboradores diante de enchentes, ondas de calor, estiagens prolongadas e interrupções de mobilidade.
A teoria dos stakeholders, desenvolvida por R. Edward Freeman, ensina que empresas criam valor sustentável quando consideram os interesses de todos os grupos impactados por suas decisões, incluindo empregados, comunidades e fornecedores. Na prática, isso significa que governança climática não pode ser tratada apenas como uma agenda ambiental. Trata-se também de uma agenda de pessoas.
Empresas resilientes precisam mapear riscos climáticos sobre sua força de trabalho, estabelecer protocolos de proteção, revisar políticas de trabalho remoto, desenvolver planos de comunicação de emergência, capacitar lideranças para gestão de crises e apoiar colaboradores e suas famílias em momentos críticos.
O próprio caderno do IBGC destaca que o conselho é o guardião da resiliência e do valor de longo prazo da organização. Essa responsabilidade não se limita aos ativos físicos. Inclui preservar o capital humano que sustenta a operação. A governança corporativa do século XXI exige que os conselhos ampliem sua visão. Preparar prédios é importante. Preparar processos é necessário. Mas preparar pessoas é indispensável.
A próxima crise climática não perguntará se a empresa possui uma política ESG. Ela testará, na prática, se sua governança foi capaz de proteger pessoas, manter operações e preservar valor para a sociedade. Essa talvez seja a mais importante responsabilidade fiduciária dos líderes empresariais de nosso tempo.