A experiência das enchentes de 2023/24 mudou a forma como a população enxerga as mudanças climáticas nos vales do Taquari e do Rio Pardo. É o que concluí pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).
Conforme o estudo, 90% dos entrevistados percebem relação entre os eventos extremos e a crise climática causada pelo aquecimento global. Dentro desse grupo, 54,9% apontam vínculo forte e 35,3% consideram a relação parcial. Apenas 9,8% não associam as enchentes às mudanças climáticas.
“Detectamos forte inquietação frente às mudanças climáticas. A vivência de catástrofes aumenta a atenção das pessoas sobre o problema”, destaca a pesquisa.
O levantamento, intitulado Percepção pública sobre enchentes e mudanças climáticas nos vales do Rio Pardo e Taquari, foi feito entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026, com 389 pessoas em 11 municípios atingidos pelas cheias.
A pesquisa integra um projeto sobre percepção pública, governos municipais e desastres climáticos, coordenado pelos professores Marco André Cadona e João Pedro Schmidt, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do RS (Fapergs).
Entendimento social
Embora a maioria reconheça a gravidade do tema, há distorções sobre as causas das mudanças climáticas. Apenas 26,9% dos entrevistados adotam a explicação científica, baseada na ação humana no ambiente.
A maior parte, 56%, mistura causas naturais e humanas. Outros 14,8% atribuem o problema a fatores naturais ou divinos.
Para os pesquisadores, essa leitura prejudica o enfrentamento do problema. “A associação com causas naturais e divinas dificulta a compreensão do vínculo direto entre enchentes e mudanças do clima evidenciado pela ciência”, destaca o relatório.
Novos episódios
Quase metade dos entrevistados (48%) teve prejuízos materiais e 17% registraram óbitos de familiares. O cenário futuro também preocupa, pois oito em cada dez pessoas acreditam que enchentes como as de 2024 voltarão a acontecer nos próximos anos ou décadas.
A confiança de que a crise vai passar é baixa. Apenas 21% acreditam em retorno à normalidade na temperatura do planeta.
Mudança individual, não coletiva
Sete em cada dez entrevistados afirmam que mudaram a forma de pensar após as enchentes. No entanto, isso não se traduz em mobilização social.
“As mudanças aparecem no nível individual. Não há indicativos de ações coletivas ou pressão por políticas públicas”, aponta a pesquisa.
O dado revela um dos principais desafios identificados pela pesquisa: transformar preocupação em ação estruturada.
Entre as principais consequências das enchentes, os entrevistados apontam doenças mentais e assoreamento dos rios. Na prática, o estudo indica que o trauma não ficou restrito à destruição física de casas, empresas, estradas e pontes, também atingiu a percepção sobre segurança, previsibilidade e qualidade de vida.
A avaliação da resposta institucional também ajuda a entender esse ambiente. Voluntários e igrejas receberam as melhores avaliações entre os atores sociais. As prefeituras tiveram desempenho superior ao atribuído aos governos federal e estadual. Empresários também aparecem com avaliação considerada positiva no recorte geral.
Os principais auxílios mencionados pela população foram o Auxílio Reconstrução de R$ 5,1 mil, pago pelo governo federal, o saque do FGTS de até R$ 6.220 e as doações de alimentos, roupas e produtos de limpeza.
Detalhes
Políticas públicas
Mais de 90% dos entrevistados defendem:
- sistemas de alerta e monitoramento;
- drenagem de rios;
- replantio de matas ciliares;
- fortalecimento da Defesa Civil;
- investimento em pesquisa e tecnologia.
Conclusão
Para os pesquisadores, isso indica espaço político para avançar. “Há apoio consistente a políticas de adaptação e mitigação. O desafio é transformar esse apoio em ação efetiva”, aponta o estudo.
Como foi feita a pesquisa
- Levantamento da Unisc ouviu 389 pessoas em 11 municípios dos vales do Taquari e do Rio Pardo.
- A coleta foi presencial, com questionário de 28 perguntas aplicado entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026.
- O estudo é coordenado pelos professores Marco André Cadona e João Pedro Schmidt, com financiamento da Fapergs.
Resultados
A pesquisa identifica quatro perfis de percepção climática:
15% negacionistas
56% preocupados, mas com dúvidas
17% informados, porém passivos
12% mobilizados
Percepção climática
- 90% veem relação entre enchentes e mudanças climáticas
- 54,9% apontam relação forte
Impacto das enchentes
- 48% tiveram perdas materiais
- 17% perdas familiares
Expectativa
- 80% acreditam em novas enchentes
- 21% confiam na normalização
Comportamento
- 70% mudaram hábitos individuais
- Sem mobilização coletiva relevante
