“Não nasci empreendedora. Aprendi a empreender”

NEGÓCIOS EM PAUTA

“Não nasci empreendedora. Aprendi a empreender”

Há 18 anos, Daniela Bertolucci fundou a Berto, empresa de importação e exportação que projeta faturar R$ 140 milhões em 2022

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Atualizado segunda-feira,
22 de Agosto de 2022 às 11:08

“Não nasci empreendedora. Aprendi a empreender”
Crédito: Divulgação
Lajeado
Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Natural de Porto Alegre, Daniela Bertolucci escolheu Lajeado para viver e empreender. Ela é Diretora da Berto Exportação, Importação e Distribuição empresa fundada em 2004, que hoje faz negócios com 45 países e alcançou faturamento de R$ 80 milhões em 2021.

Fundada em uma peça de 9 metros quadrados, a empresa completa 18 anos com 58 colaboradores, uma filial em Itajaí, Santa Catarina, e projeção de faturar R$ 140 milhões em 2022.

ENTREVISTA 

– Qual a origem da tua vocação para empreender?

Daniela Bertolucci – Nasci em Porto Alegre em março de 1975, a caçula de três irmãos com grande diferença de idade e todos moram fora do estado. Sou de origem e tenho cidadania italiana. Sempre tive vontade de desbravar o mundo e comecei a estudar inglês muito cedo, com 9 anos.

Fiz o terceiro ano do segundo grau nos Estados Unidos e a facilidade de falar outras línguas me motivou muito para trabalhar no mercado externo. Eu falo inglês, espanhol, português, entendo Italiano e fiz aulas de mandarin. Depois de concluir o terceiro ano, voltei para o Brasil com o objetivo de fazer direito internacional e estudar para ser diplomata. Mas naquele mesmo tempo passei na faculdade em comércio exterior. Nesse meio tempo, comecei a trabalhar.

Equipe da Berto durante a Apas Show, maior feira de alimentos e bebidas das Américas, em SP. Crédito: Divulgação

– Como foi o início da vida profissional?

Daniela – Eu tive que me sustentar e acabei indo morar sozinha. Minha família era de classe média, meu pai falava: “até a faculdade eu garanto, depois é com vocês.” Comecei a trabalhar em multinacionais. Fiquei uma semana em uma multinacional da área de logístico onde descobri que a parte operacional não era pra mim.

Então, surgiu a oportunidade de trabalhar na Iochpe-Maxion, que trabalhava com motores, colheitadeiras e tratores. Entrei na época em que ocorria a divisão da empresa e acabei migrando da divisão de motores para montagem de tratores e colheitadeiras, na AGCO.

Morava em Porto Alegre, estudava em São Leopoldo e trabalhava em Canoas. Ia de ônibus, saia 6h30min de casa e chegava meia-noite, todos os dias. Trabalhava no setor de exportação de peças. Fiquei especialista em negociar contratos para o Iraque devido ao meu nível de inglês.

– Que idade você tinha na época?

Daniela – Era muito jovem, tinha 20 anos. A cada três meses, ia à Nova Iorque com contrato em mãos e tinha que defender a aprovação da empresa em um programa da ONU chamado Oil for Food (Óleo por comida). Eram contratos regulados pela Anfavea, agência que representa as fabricantes de carros e veículos automotores.

Veio a guerra e ficou muito difícil negociar esses contratos. Comecei a me sentir pouco desafiada e nesse meio tempo a Dell Computadores veio para o Brasil e eu decidi que iria trabalhar na Dell. Nesse meio tempo, percebi que a carreira para o Itamarati exigiria dedicação exclusiva ao estudo. Entre tentar a carreira executiva e a pública, decidi pela executiva.

– De que forma você ingressou na Dell?

Daniela – Eu mandei meu currículo. Muitas pessoas da AGCO migraram para a Dell e meu currículo foi aprovado. Fiz um treinamento nos Estados Unidos e fiquei responsável pela área de export compliance. Com o tempo, busquei novos desafios na própria empresa e fiquei responsável pela parte de compras, para desenvolver servidores high end. Trabalhei muito com a Ásia, em horários malucos.

Trabalhar em multinacional me trouxe uma bagagem muito grande sobre como trabalhar. Tive excelentes colegas, vários projetos para os quais me dediquei e sou extremamente grata a essa escola de multinacional. A Berto carrega conceitos de multinacionais que “brilham”, tanto para os clientes do exterior quanto nos nacionais. Sou extremamente grata a essas empresas na qual passei.

– Por que a decisão de morar em Lajeado?

Daniela – Casei, meu marido é o Marcelo Klein, da Fasa e ele morava em Lajeado. Só nos víamos nos fins de semana e tive que tomar uma decisão importante. O amor sempre vence: pedi demissão na Dell. No momento em que chamei meus gestores para comunicar minha decisão, eles me disseram que eu assumiria a gerência de comércio exterior, para cuidar de toda a parte de exportação para o Mercosul e África do Sul. Eu disse não.

Foi traumático na época. Várias noites eu acordava pensando nessa decisão que tomei. Mas acredito em intuição. Minha força de vontade de planejar e executar é muito grande. Primeiro, passei pouco tempo em uma empresa de comércio exterior, com salário cinco vezes menor do que a Dell. Quando saí, decidi montar a Berto. Não nasci empreendedora. Aprendi a empreender no decorrer da vida.

– Como foi o começo da empresa?

Daniela – A Berto nasceu em um quarto de 9 metros quadrados em uma casa, com um telefone, uma mesa velha e um computador. Eu havia queimado minhas economias quando saí de Porto Alegre. Todo mundo me chamou de louca. Quase não tinha dinheiro para a conta de telefone, mas não tive medo. Algumas vezes acordei pensando em desistir, mas decidi ficar. Faz quase 20 anos que moro em Lajeado e gosto muito dessa cidade.

Não tive dificuldade profissional e havia uma demanda das empresas que queriam exportar seus produtos para o exterior. Empresas como a Soberano, de Ijuí, M. Dias Branco, Docile, Florestal, cheguei a negociar com as balas Valérius e trabalhei com as bebidas Chiamulera. A empresa cresceu muito, principalmente a partir de 2006. Nesse ano, convidei o Márcio Gonçalves para ser meu sócio, porque percebi que a Berto poderia ser muito grande, mas eu não conseguiria sozinha. Hoje na empresa não existe presidente ou CEO, decidimos tudo junto.

– Quando a empresa deu o maior salto de crescimento?

Daniela – Identificamos a necessidade de nos tornarmos uma comercial importadora e exportadora, não somente representar as empresas daqui no exterior. Para isso precisaríamos comprar a vista e vender, mas não tínhamos crédito. Tivemos uma reunião com o Banco do Brasil para pedir uma carta de crédito e foi negado.

Havia uma alternativa remota, que era pedir para o cliente no exterior adiantar o valor em dólares, para uma empresa que ele nunca viu na vida. Estava comprando pela primeira vez conosco e não nos conhecia pessoalmente. Explicamos a situação para o cliente e ele depositou. As coisas começaram a rodar.

– Por que a decisão de inaugurar uma filial em Itajaí?

Daniela – Começamos a operar em Itajaí em 2010, em uma operação terceirizada. A filial foi constituída em 2015. Santa Catarina tem cinco portos e uma grande facilidade para o trânsito de mercadorias, inclusive rodoviária. Em Rio Grande havia muito problema para os navios atracarem em função do tempo. Nossa operação está oito quilômetros de distância do porto, então fica muito fácil tanto para importação como exportação.

Em Santa Catarina também há mais mão de obra especializada nas operações portuárias. Nosso armazém em Itajaí tem 2,7 mil metros quadrados e sete docas, inserido em um complexo logístico de mais de 150 mil metros quadrados. Ele abriga toda a parte de estoque de exportação e importação e tem uma área de temperatura controlada com mais de 160 metros quadrados.

Daniela dirige a Berto ao lado do sócio Márcio Gonçalves

– Como foi conduzir a empresa em meio à pandemia?

Daniela – Foi um tumulto e acho que nos saímos tudo bem. Ficamos apavorados, claro, e tivemos que segurar alguns embarques no exterior, mas não cancelamos nenhum pedido. Fizemos a análise de que nossos canais de venda não pararam, porque são de alimentação, como supermercados, empórios, lojas de conveniência e de doces.

Teve ruptura de estoque, mas todos tiveram. Crescemos muito no segundo semestre de 2020. O que mais pegou foi a questão cambial, porque o dólar subiu muito rápido. Nesse sentido, tivemos a vantagem de trabalhar com exportação e importação. Hoje 50% das nossas atividades estão em importação e distribuição e 50% na exportação. A questão logística impactou, porque os fretes dispararam. Pagávamos US$ 2 mil por contêiner, incluindo seguro e no pico da pandemia foi a US$ 16 mil. É uma cadeia que ainda está frágil.

– Qual a projeção para o futuro da Berto?

Daniela – Estamos investindo forte em sistemas, tanto na parte administrativa, financeira, gerenciamento de armazéns, estoques, comércio exterior e força de vendas. Estamos fortalecendo parcerias importantes com fornecedores. No ano passado formamos um conselho consultivo com pessoas externas a Berto. Nos reunimos uma vez por mês para tratar a estratégia.

Nosso objetivo é fortalecer laços com marcas importantes para importação e distribuição e ampliar o portfólio de produtos e marcas da exportação. Hoje fazemos negócios com mais de 45 países e nossa visão de futuro é abrir filiais no exterior.

Equipe de vendas durante convenção no Centro de Distribuição da empresa, em Itajaí


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