Um mês para celebrar e se orgulhar da negritude

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Um mês para celebrar e se orgulhar da negritude

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Atualizado segunda-feira,
16 de Novembro de 2020 às 15:46

Um mês para celebrar e se orgulhar da negritude

O Mês da Consciência Negra será marcado por intervenções artísticas e trocas de conhecimento em Lajeado. O Grupo de Cultura Afro Black, em parceria com o Centro de Cultura Afro-Brasileira de Lajeado e o Grupo de Capoeira Oxóssi, promove a terceira edição do Kizomba, com o objetivo de celebrar e se orgulhar da negritude.

O evento iniciou na sexta-feira, 13, e segue até o dia 28, com apresentações artísticas e culturais, rodas de conversa e uma exposição, que ocorrem de forma semipresencial.

Conforme a integrante do Afro Black, Camila Silva Marques, 35, o evento, assim como os grupos que o organizam, tem importância fundamental para valorizar a cultura afro, que ainda sofre com o preconceito.

“Precisamos mostrar para as pessoas de pele negra que ser negro é uma coisa boa e ensinar as pessoas de pele branca, para que o preconceito termine”.

O grupo Afro Black surgiu a partir da necessidade de luta e de acolhimento, explica Camila. “O grupo busca abraçar todas as minorias, para que estas pessoas tenham um lugar onde possam ser elas mesmas”.

Os sete integrantes promovem intervenções que incluem dança, música, moda, poesias e artesanato, além da troca de conhecimento sobre negritude, como palestras e rodas de conversa. As ações podem ser acompanhadas no perfil do Instagram @afrobalcks_.

O Kizomba tem apoio da administração municipal; IFSUL – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense – Lajeado; NEABI – Núcleo de estudos afro-brasileiros e indígenas; grupo de pagode Santa Malícia e Univates.

 

A Hora – Qual a importância de preservar a cultura afro na região? De que forma fazer isso para além do Mês da Consciência Negra?

Gilson Dos Anjos – Acredito que conhecer, preservar e proteger a cultura de qualquer grupo social seja ação essencial de respeito pela diversidade que constituí a população de um país.

A não preservação da cultura afro no Vale do Taquari é um erro, pois como dizia o saudoso professor Dinizar Fermiano Becker, povo que não conhece sua história não se constituí merecedor de investimentos do chamado capital volátil, ou seja, investimentos na economia da região.

Por outro ponto de vista, devemos reconhecer as pessoas negras como portadoras de direitos, especialmente os que lhe garantam dignidade humana. E não há dignidade se não aceitam minha cultura.

 

Pode nos explicar o que é racismo estrutural e nos dar exemplos de como ele se manifesta no dia a dia?

Racismo estrutural é aquele que está alicerçado no imaginário colonial que enxerga o Brasil como uma colônia e seu povo como mercadoria a serviço de uma minoria branca.

O mais curioso neste racismo é que muitas pessoas não percebem que estão dando tiro no próprio pé ao agirem como rebanho, em um brete e sem a capacidade de refletir e encontrar outros caminhos e outros comportamentos.

Por exemplo, historicamente negros estão destinados aos serviços subalternos, sem condições de acesso à educação e postos de trabalho nas esferas administrativas, mesmo quando superam as barreiras educacionais. Vemos como natural que a maioria absoluta da população carcerária de nosso país seja composta por pessoas negras.

 

O que tu considera necessário para rompermos com este traço da nossa sociedade?

Pautar para além deste mês de novembro, as questões relacionadas as questões étnicos raciais. Constituir políticas públicas e cumprir integralmente a lei federal nº 10.639/03 que torna obrigatório a inclusão nos currículos escolares da educação básica a história e cultura da África e dos afro-brasileiros

Tu acredita que atitudes como preservar a cultura afro, incentivar o despertar das pessoas negras para a sua identidade negra, promover a representatividade em espaços de visibilidade e poder, podem ajudar criar uma sociedade menos racista?

Acredito, desde que estas ações estejam agregadas de mudanças no modo de pensar das pessoas, pois, na verdade, todos somos vítimas deste imaginário que nos impede de ter uma vida em comum com respeito mútuo e com alteridade, ou seja, ter a capacidade de se colocar no lugar do outro.

 

Qual o papel da pessoa branca neste cenário? De que forma podemos usar o privilégio branco para começar a construir uma sociedade mais igualitária?

Há dois grupos de pessoas brancas, as que ocupam os espaços de poder, têm a obrigação de investir com equidade os recursos públicos. Observamos que muitos gestores investem quando demandados pela sociedade civil organizada, valores insignificantes só para dizer que investiram, entretanto, outras organizações culturais não enfrentam as mesmas situações de penúria.

Outro grupo, formada por pessoas brancas mestiças precisam se reconhecer como brasileiros e como viajantes do mesmo barco, respeitando e enxergando as pessoas como Martin Luther King pregou religiosamente nos anos 60, qual seja, julgar as pessoas por sua personalidade e não pela cor da sua pele.