Por que elas não denunciam?

opinião

Amanda Cantú

Amanda Cantú

Jornalista

Colunista do caderno Você

Por que elas não denunciam?

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A história deste texto começa na terça-feira, quando tivemos acesso aos vídeos do julgamento do caso Mari Ferrer. A primeira versão dele passou aquela tarde se moldando na minha cabeça, enquanto o que corria em minhas veias era a mistura mais pura de tristeza, raiva e revolta.

Ao longo da semana, ele mudou, conforme pude refletir sobre a história, depois de muito falar e ouvir sobre ela. A tristeza, a revolta e a raiva, no entanto, continuam aqui.

Continuam porque Mari Ferrer é apenas uma, no meio de uma imensidão de mulheres massacradas pela misoginia todos os dias.

Sim, o termo “estupro culposo” não existe. Foi usado por um veículo para tentar explicar o inexplicável. Porém, a justiça seletiva existe. Ela é um retrato da sociedade em que vivemos, onde a voz de alguns é mais importante do que a de outros, que quase não conseguimos ouvir.

Eu já fui a pessoa que se questionava por que uma mulher não denuncia uma agressão. Se você já tentou ter uma conversa sobre violência contra a mulher, com certeza já se perguntou ou ouviu alguém perguntar o mesmo.

A resposta é Mari Ferrer.

Não li a sentença do caso, nem tenho informações suficientes para falar sobre provas. Mas tenho olhos e ouvidos que presenciaram uma mulher ser humilhada diante de um processo onde a vítima é ela. Vi uma mulher implorar por respeito e receber em troca expressões de tédio e desdém.

Durante cenas grotescas, carregadas de misoginia, Mari é oprimida, não apenas pelo advogado do acusado, mas pelo juiz, que permite uma sessão de tortura psicológica contra a jovem.

Na cena, cinco pessoas: quatro homens, uma única mulher. Nunca vou conseguir achar isso normal.

Sabe o que considero mais triste e preocupante diante desta história? Existem milhões de Mari Ferrer e você cruza com elas todos os dias na rua. Além disso, a Mari é uma jovem branca. Se mesmo em uma posição de privilégio, ela recebeu este tratamento, o que resta às mulheres cujas vozes são ainda mais silenciadas?

Toda vez que você se perguntar sobre por que uma mulher não denuncia, lembre-se de Mari Ferrer. Lembre-se que, mesmo ocupando espaços de privilégio, uma mulher ainda é massacrada e tratada como culpada pela violência que sofreu. Não só no tribunal, mas também no olhar de julgamento ao denunciar. Ao ouvir perguntarem sobre suas roupas ou “o que fez para provocar”. Na dificuldade de acesso aos exames e ao aborto, garantido por lei em casos de estupro. No estigma de carregar a imagem da “mulher que foi estuprada”.

Se você, como eu, também passou a semana se perguntando se há esperança para nós, quero que se lembre que, apesar de difícil, o caminho para a mudança sempre será a resistência. A luta é cansativa e dolorosa, mas não podemos desistir.

Se você, querido leitor, é um homem, saiba que seu papel aqui é não apenas ouvir, mas também respeitar e considerar o que uma mulher fala. E, principalmente, não se omitir. Postar hashtag não adianta nada se você encoberta amigo machista, misógino e abusador ou reproduz este tipo de comportamento. Não seja um babaca.

Se você for mulher: resista.

Por todas as Mari Ferrer.

Por todas nós.

Lute, mesmo cansada.

Estamos juntas.