Precisamos falar sobre o Kevin*

opinião

Sérgio Ricardo Sant'Anna

Sérgio Ricardo Sant'Anna

Professor da Faculdade La Salle

Assuntos e temas do cotidiano

Precisamos falar sobre o Kevin*

Por

CRON Previne - Lateral vertical - Final vertical

O Kevin neste caso é uma metáfora para falarmos de política. *O título refere-se ao livro escrito em 2007 e transformado em filme pelas mãos da diretora escocesa Lynne Ramsay. De forma autêntica a história descreve o drama de uma mãe que se vê diante da atrocidade cometida pelo filho, num caso fictício de massacre. Frente ao fato, a mãe busca compreender o que levou o jovem a cometer o crime, constatando sinais que apontavam desde a infância sua personalidade distorcida, além do sentimento de culpa que passa a nutrir por não ter agido de forma mais veemente na formação do caráter do rapaz.

O filme em si é uma obra de arte, mas seu maior mérito está em nos pontuar a respeito da necessidade de tratarmos dos assuntos que nos afligem, mesmo que em princípio nos vejamos incapacitados de interferir ou mesmo apagar os malfeitos deixados pelo caminho. A história humana é coroada de heróis e anti-heróis, sem muitas vezes sabermos de verdade quem é o bandido, quem é o mocinho. A derrubada de estátuas mundo afora reacende o debate sobre a narrativa vigente em determinada época, que promove a magos e reis personalidades desprovidas de moral e valores capazes de perpetuar os sentimentos de humanidade e respeito ao outro.

A ausência de um Superego que venha tolher a maldade social, que desaprove desejos e atitudes sem nenhuma retidão ou autocrítica, sem arrependimentos e repleta de autoelogios nutre a personalidade de Kevin, a ponto de sua mãe simplesmente fazer de conta que ele não existe. O histórico de desmandos e frustrações, de desacertos e incoerência nos afasta do personagem, nos voltamos às coisas da vida, dos nossos afazeres, dos nossos dramas e assim deixamos em outras mãos a decisão sobre o que é bom ou ruim. Quando Pilatos “lava as mãos” está simplesmente transferindo para os fariseus toda a responsabilidade sobre o julgamento de Jesus. Assim nos livramos da culpa.

Vivemos a era do isolamento físico, do distanciamento social, do uso necessário de máscaras para nos proteger e proteger principalmente o outro. Mas também vivemos, acreditem, a era do carteiraço, de gente que ainda acredita que uma diplomação vale mais que a verdade – ou 85 mil mortes não são dados suficientemente significativos para se constatar a complexidade de uma pandemia em nosso país? E por que o Kevin é importante? Porque se não intercedermos na sua criação, outras perdas virão. Trazer a discussão à mesa sobre quem nos representará nos debates sobre as leis do nosso município, quem definirá os impostos necessários à reorganização dos cofres públicos na retomada da economia e quem estará à frente do executivo para as tomadas de decisão é uma escolha da qual você não pode abrir mão de participar.

Nunca uma eleição municipal foi tão importante para cada um de nós. Nas mãos dos próximos eleitos estará a responsabilidade de nos reconduzir a um estado de equilíbrio econômico e social. Presente e futuro estão em jogo. E não basta simplesmente posicionar-se entre os que atacam ou entre os que defendem Kevin. A polarização é burra e míope, pois enxerga apenas o palmo à frente. Observe o espelho e veja em você mesmo o reflexo do seu voto. Pedras não resolvem.