As marcas deixadas pelas enchentes ainda permanecem na memória dos moradores. Agora, Estrela transforma parte dos aprendizados de 2023 e 2024 em planejamento. Depois de meses de trabalho entre técnicos, órgãos públicos e comunidades, o município apresentou, na noite desta quarta-feira, 15, a atualização do Plano Municipal de Contingência, documento que organiza desde o monitoramento das ameaças até a evacuação, o acolhimento e o restabelecimento dos serviços após uma emergência.
A audiência pública ocorreu na sede da Defesa Civil, no Bairro Imigrantes, e abriu espaço para que moradores conhecessem o conteúdo e apresentassem contribuições antes da consolidação da nova versão. Também participaram representantes das secretarias municipais, forças de segurança, serviços de saúde, instituições parceiras e da Organização Internacional para as Migrações (OIM), agência da ONU para as Migrações.
Com 61 páginas, o plano estabelece procedimentos para inundações, enxurradas, alagamentos, granizo, chuvas intensas, vendavais e estiagem. Também reúne áreas de risco, estruturas de monitoramento, estágios operacionais, responsabilidades institucionais, locais estratégicos, equipamentos de saúde e segurança, pontos de encontro, rotas de fuga e espaços destinados ao abrigamento.
Coordenador da Defesa Civil de Estrela, o tenente Rivelino Jacques Peixe explica que a revisão incorpora as experiências dos eventos que atingiram o município e amplia a organização da resposta. “É importante atualizar o plano considerando tudo o que aconteceu em 2023 e 2024. Apresentamos à comunidade aquilo que foi construído ao longo desse processo para que todos conheçam como o município está organizado diante de uma emergência”, afirma.
Mais do que indicar o que deve ser feito, o material define quem assume cada função. Prefeitura, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Brigada Militar, Polícia Civil, Samu, Hospital Estrela, Conselho Tutelar, Corsan, secretarias e entidades de apoio integram a estrutura prevista. A intenção é reduzir dúvidas, estabelecer fluxos de comunicação e permitir uma mobilização coordenada quando cada minuto fizer diferença. “O plano organiza responsabilidades, estabelece os procedimentos e permite que todos saibam como agir quando uma situação acontece”, destaca Jacques.

Coordenador da Defesa Civil, o tenente Rivelino Jacques Peixe apresentou os novos protocolos e reforçou o caráter permanente das revisões. (Crédito: Daniély Schwambach)
Comunidade participa da construção
A apresentação pública representa uma das últimas etapas de um processo que envolveu reuniões técnicas, oficinas, consultas, capacitações e exercícios práticos. Durante a audiência, os participantes conheceram os mapas das regiões vulneráveis, os caminhos definidos para evacuação e os pontos seguros indicados para cada comunidade.
Jacques ressalta que a análise técnica precisa considerar a experiência de quem vive no território. “Quem mora nas comunidades conhece os acessos, identifica dificuldades e consegue apontar necessidades que nem sempre aparecem apenas nos levantamentos técnicos. Essa participação contribui para aperfeiçoar o plano.”
O documento identifica 38 setores de risco, relacionados principalmente a inundações e erosão fluvial. A ocupação histórica das áreas próximas ao Rio Taquari e aos arroios Estrela e Boa Vista, somada à dependência de acessos suscetíveis a interrupções, amplia a exposição da população e dos serviços essenciais.
Entre as regiões consideradas no planejamento estão os bairros Auxiliadora, Alto da Bronze, Centro, Cristo Rei, Chacrinha, Imigrantes, Boa União, Oriental, das Indústrias, Moinhos e São José. O interior também aparece com trechos da RS-129 em direção a Linha Arroio do Ouro e Linha Figueira, além de Costão.

Comunidade também teve acesso ao documento impresso. (Crédito: Daniély Schwambach)
Mapa transforma planejamento em ação
Um dos materiais apresentados foi o mapa operacional com pontos de encontro e rotas de fuga. O conteúdo transforma os protocolos escritos em trajetos que podem ser reconhecidos e utilizados pela população.
Os caminhos foram definidos conforme as características de cada localidade, as cotas de inundação, os acessos disponíveis e os espaços seguros. Na comunidade de Delfina, por exemplo, a rota direciona moradores das vias próximas até a RS-129 e, depois, ao Ponto de Encontro 08. O trajeto indicado possui 1,5 quilômetro e tempo estimado de 18 minutos.
Para Jacques, a definição antecipada reduz o tempo necessário para orientar as famílias durante uma ocorrência. “Quando todos conhecem os caminhos, os pontos de encontro e os locais seguros, conseguimos organizar melhor a evacuação e o atendimento à população.”
Essas informações também servirão de referência para capacitações, novos simulados e ações comunitárias. A proposta é que o mapa não fique restrito às equipes técnicas, mas chegue aos moradores das áreas contempladas.

Mapa operacional apresentado na audiência identifica áreas vulneráveis, rotas de fuga, pontos de encontro e locais seguros definidos conforme as características de cada comunidade. (Crédito: Daniély Schwambach)
Simulado antecipou protocolos
Parte da metodologia já havia sido testada em 3 de junho, durante um simulado de evacuação no Bairro das Indústrias. Moradores, trabalhadores e estudantes percorreram uma rota previamente definida até os pontos de encontro e espaços de acolhimento estabelecidos para a atividade. Promovido pela OIM e pela Prefeitura, o exercício permitiu observar o tempo de deslocamento, os acessos utilizados e a forma como a população compreendia as orientações. As experiências obtidas serviram para revisar procedimentos e aperfeiçoar o material apresentado na audiência.
Conforme Jacques, o treinamento permite que a comunidade conheça previamente o caminho, em vez de receber todas as orientações no momento de maior tensão. “Quanto mais as pessoas conhecerem os procedimentos e souberem como agir, maior será a capacidade de resposta diante de uma situação de risco.”
O Plano de Contingência também determina a promoção de exercícios conjuntos ao menos uma vez por ano. Depois de cada simulado, os órgãos participantes devem produzir um relatório com dificuldades, sugestões e pontos que precisam ser reformulados.

Moradores, trabalhadores e estudantes do Bairro das Indústrias participaram, em junho, de exercício prático para testar evacuação, trajetos e pontos seguros. (Crédito: Jonata Kich)
Placas chegam às áreas definidas
Junto à explanação do plano, Estrela recebeu placas que identificarão rotas de fuga, pontos de encontro e locais de abrigamento. A sinalização utiliza referências visuais baseadas em padrões internacionais e busca facilitar a compreensão em momentos de estresse, pouca visibilidade ou necessidade de deslocamento rápido. Conforme o coordenador, os mapas foram construídos junto às comunidades e agora passam a contar com uma identificação física. “Essas placas são uma das novidades incorporadas ao trabalho. A comunidade terá conhecimento de onde ficam as rotas, os pontos de encontro e os espaços de abrigo. Já utilizamos essa metodologia no simulado do Bairro das Indústrias e agora recebemos a sinalização para os locais definidos”, conta.
A implantação integra o Tchê Prepara, projeto da OIM voltado ao fortalecimento da preparação e da resposta a emergências no Vale do Taquari. Coordenadora de projetos da organização, Adriane Ferreira explica que a entrega não representa uma ação isolada. “As placas fazem parte do Tchê Prepara. São sinalizações de orientação para pontos de encontro, rotas de fuga e espaços de abrigamento, construídas dentro das boas práticas e dos padrões utilizados internacionalmente para situações de emergência”, afirma.
Além de Estrela, Arroio do Meio, Colinas e Roca Sales participam da iniciativa. Cada cidade recebeu apoio de acordo com as próprias características. Algumas também foram contempladas com pluviômetros e réguas de medição, enquanto Estrela já possuía parte desses instrumentos. “Os equipamentos são definidos conforme as necessidades e as ameaças de cada território. Em alguns municípios, os pluviômetros têm papel importante diante do risco de deslizamentos. Estrela apresenta outra realidade e já contava com estruturas de monitoramento”, explica Adriane.

Nova sinalização será instalada para orientar moradores até rotas de fuga, pontos de encontro e espaços de abrigo previstos no planejamento municipal.(Crédito: Daniély Schwambach)
Trabalho começou antes da audiência
O projeto foi lançado em março, em Lajeado, com participação de representantes das Defesas Civis, municípios, Estado e Ministério Público. Financiado pelo RegeneraRS, formado pelo Instituto Vakinha, o Tchê Prepara busca fortalecer a articulação entre diferentes setores e sistematizar informações para protocolos de resposta.
Em Estrela, a atuação incluiu encontros com gestores, capacitação dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil, simulado, consulta pública, revisão técnica e audiência. “A gente trabalha com os gestores públicos, com as comunidades, promove capacitações dos Nupdecs e exercícios simulados. Depois vieram a consulta e a audiência pública, até chegarmos à consolidação do Plano de Contingência”, explica Adriane.
O acompanhamento seguirá até o fim de agosto. Para encerrar o projeto, os municípios devem participar de um encontro voltado à troca de experiências e boas práticas desenvolvidas durante o processo.

Coordenadora de projetos da OIM, Adriane Ferreira detalhou as etapas do Tchê Prepara e a adoção de soluções específicas para os riscos de cada município. (Crédito: Daniély Schwambach)
Proteção vai além das enchentes
Embora as cheias recentes tenham impulsionado a revisão, o documento não se limita ao risco hidrológico. Estrela também está exposta a enxurradas, alagamentos, tempestades severas, vendavais, granizo e períodos de estiagem.
Adriane explica que a gestão de riscos parte da combinação entre três fatores: ameaça, vulnerabilidade e exposição. “A ameaça pode ser uma inundação, um deslizamento, um vendaval, granizo ou outro evento. Cada Defesa Civil precisa identificar aquilo que existe no território e entender quem e o que está exposto. Essa análise permite organizar uma preparação adequada.”
O plano dedica atenção especial às pessoas que podem enfrentar maior dificuldade durante uma evacuação, como idosos, moradores com deficiência ou mobilidade reduzida, famílias em vulnerabilidade socioeconômica, população em situação de rua e migrantes.
Entre as medidas previstas estão cadastros atualizados, transporte assistido, comunicação acessível, abrigos adaptados e integração entre Defesa Civil, Saúde, Educação e Assistência Social.
Estrela possui cerca de 4,7 mil moradores com 65 anos ou mais, grupo que pode precisar de transporte, acompanhamento, medicação contínua e espaços acessíveis durante uma remoção preventiva. O plano também reconhece que migrantes podem enfrentar barreiras linguísticas ou desconhecer as regiões sujeitas a inundações, o que exige mensagens simples e diferentes canais de comunicação.

Estrutura monitora rio, arroios e clima
O sistema municipal combina dados locais com plataformas estaduais e federais. Estrela possui três estações de medição do nível do Rio Taquari, duas instaladas em arroios que cortam a cidade e uma estação meteorológica.
As informações são complementadas por dados do Serviço Geológico do Brasil, Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, Instituto Nacional de Meteorologia e outros órgãos.
O plano estabelece como pressuposto que o acompanhamento consiga indicar a possibilidade de inundações graduais com sete horas de antecedência. Também considera que a mobilização dos órgãos municipais envolvidos deve ocorrer em até três horas, independentemente do dia ou horário.
Os alertas foram divididos em seis estágios. A normalidade aparece em verde. Depois vêm alerta moderado, alto, muito alto e extremo, representados por amarelo, laranja, vermelho e roxo. A fase de restabelecimento recebe a cor cinza. Cada nível orienta ações específicas, desde o reforço da vigilância até a evacuação e a mobilização imediata da estrutura municipal.
Documento precisa permanecer vivo
Apesar da audiência marcar a consolidação de uma nova versão, o plano não será encerrado ou guardado após a aprovação. Novas obras, mudanças de endereço, alterações nos serviços, experiências em simulados ou ocorrências reais podem exigir revisões. “O município muda, as comunidades mudam e os riscos também. Por isso, o plano precisa permanecer vivo, com atualizações sempre que forem necessárias”, afirma Jacques.
Mais do que orientar servidores, a atualização busca consolidar uma cultura de prevenção. A expectativa é que moradores conheçam previamente os alertas, identifiquem os locais seguros e compreendam que a resposta começa antes da chegada das equipes.
Depois de dois anos marcados por eventos extremos, Estrela transforma perdas e aprendizados em planejamento permanente. Os mapas, treinamentos e placas que passarão a integrar a paisagem não indicam apenas o caminho até um abrigo. Representam um esforço coletivo para que o município esteja organizado quando cada decisão puder proteger vidas.
PLANO EM NÚMEROS
- 61 páginas compõem a versão apresentada à comunidade.
- 38 setores de risco foram identificados no levantamento municipal.
- Três estações acompanham o nível do Rio Taquari.
- Duas estações monitoram arroios do município.
- Uma estação meteorológica integra a estrutura local.
- Sete horas representam a antecedência considerada para alertas de inundações graduais.
- Três horas correspondem ao tempo máximo previsto para mobilizar os órgãos municipais.
- Um simulado por ano, no mínimo, deverá testar e revisar os procedimentos.
AMEAÇAS PREVISTAS
O plano estabelece protocolos para:
- inundações;
- enxurradas;
- alagamentos;
- chuvas intensas;
- vendavais;
- granizo;
- estiagem.
ESTÁGIOS OPERACIONAIS
- Verde — Normalidade
- Ausência de risco iminente.
- Amarelo — Alerta moderado
- Condições exigem atenção e acompanhamento.
- Laranja — Alerta alto
- Existe possibilidade de impactos.
- Vermelho — Alerta muito alto
- Risco iminente e necessidade de ação preventiva.
- Roxo — Alerta extremo
- Resposta imediata e possibilidade de evacuação.
- Cinza — Restabelecimento
- Reorganização dos serviços e recuperação das áreas atingidas.
QUEM ATUA
O planejamento distribui funções entre:
- Defesa Civil;
- Prefeitura e secretarias;
- Corpo de Bombeiros;
- Brigada Militar;
- Polícia Civil;
- Polícia Rodoviária Estadual;
- Samu;
- Hospital Estrela;
- Conselho Tutelar;
- Corsan;
- serviços de infraestrutura;
- entidades comunitárias;
- voluntários;
- Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil.
O QUE SÃO OS NUPDECS
- Os Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil reúnem moradores capacitados para apoiar ações preventivas, divulgar orientações e auxiliar a comunidade durante situações de risco.
- A atuação aproxima a Defesa Civil dos bairros e permite que as primeiras informações circulem antes mesmo da chegada das equipes oficiais.
CRONOLOGIA DO TRABALHO
- Março : Lançamento do Tchê Prepara no Vale do Taquari.
- Primeiro semestre: Reuniões técnicas, oficinas, capacitações e trabalho com os Nupdecs.
- 3 de junho: Simulado comunitário de evacuação no Bairro das Indústrias.
- Junho e julho: Consulta pública e revisão das propostas.
- 15 de julho: Audiência pública e apresentação da atualização.
- Até o fim de agosto: Suporte aos municípios e encontro regional de encerramento.
INFOGRÁFICO
COMO FUNCIONA A RESPOSTA?
1. Monitoramento
Equipes acompanham previsões, chuvas e níveis dos rios e arroios.
2. Alerta
Órgãos públicos e população recebem as informações.
3. Mobilização
Defesa Civil, secretarias, forças de segurança e serviços essenciais são acionados.
4. Evacuação
Moradores seguem pelas rotas definidas até os pontos de encontro.
5. Abrigamento
Famílias são encaminhadas aos espaços previamente preparados.
6. Atendimento
Saúde, assistência social, segurança e voluntários prestam suporte.
7. Restabelecimento
Após a redução do risco, começam a limpeza, a reorganização e a recuperação dos serviços.
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(Crédito: Daniély Schwambach)

(Crédito: Daniély Schwambach)
