Durante décadas, o Brasil foi reconhecido internacionalmente como uma referência em vacinação. A ampla adesão da população aos programas de imunização contribuiu para controlar e até eliminar doenças que, no passado, provocavam milhares de mortes.
Nos últimos anos, porém, especialistas têm observado uma redução na confiança da população nas vacinas e uma queda nas coberturas vacinais. Segundo dados da Unicef, antes da pandemia de Covid-19, cerca de 99% dos brasileiros consideravam as vacinas seguras. Hoje, esse percentual é menor. Levantamento realizado no âmbito do Pacto Nacional pela Consciência Vacinal mostra que 72% dos participantes afirmam confiar nos imunizantes.
Para o infectologista Diego Rodrigo Costa (CRM-RS 43381 | RQE 37503), a disseminação de informações falsas tem contribuído para esse cenário. Segundo ele, a população deve priorizar fontes confiáveis e baseadas em evidências científicas.
“Diante da grande quantidade de informações falsas que circulam hoje, é fundamental recorrer a instituições de saúde pública consolidadas, como o Ministério da Saúde, sociedades médicas e organismos internacionais. A vacinação continua sendo uma das medidas de saúde pública mais eficazes já desenvolvidas”, afirma.
Imunidade coletiva
As vacinas estimulam o sistema imunológico a desenvolver proteção contra vírus e bactérias sem causar a doença. Dessa forma, o organismo cria uma memória imunológica capaz de responder rapidamente em caso de contato futuro com o agente infeccioso.
Além da proteção individual, a vacinação em larga escala gera a chamada imunidade coletiva. Quando um número suficiente de pessoas está protegido, a circulação do agente causador da doença diminui, reduzindo também o risco para quem não pode ser vacinado ou apresenta menor capacidade de desenvolver resposta imunológica.
Retorno de doenças
O Calendário Nacional de Vacinação oferece hoje 21 vacinas ao longo da vida. Entre as doenças preveníveis estão poliomielite, sarampo, rubéola, tétano, hepatite B, coqueluche e infecções causadas pelo vírus sincicial respiratório em recém-nascidos.
O que chama atenção é que o próprio sucesso das campanhas de vacinação pode contribuir para uma falsa sensação de segurança. “A ausência de determinadas doenças reduz a percepção de risco da população. Por isso é fundamental manter a vigilância”, ressalta o médico.
O alerta ganha força diante do aumento global de doenças imunopreveníveis. O sarampo, por exemplo, voltou a avançar em diversos países. Em 2024, 138 países registraram casos da doença e 61 enfrentaram surtos considerados grandes. A meningite também preocupa. Na África, somente nos três primeiros meses de 2025, mais de 5,5 mil casos suspeitos e cerca de 300 mortes foram registrados em 22 países.
Vacina da dengue
O Ministério da Saúde anunciou na segunda-feira, 8, que vai suspender a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan e que estava sendo aplicada em profissionais de saúde.
Segundo o Ministério da Saúde, a medida foi adotada após a notificação de 42 eventos adversos graves, incluindo duas mortes suspeitas que seguem sob investigação. A decisão faz parte de um sistema responsável por monitorar continuamente a segurança de medicamentos e vacinas após sua aprovação e utilização em larga escala.
Costa destaca que a suspensão não significa perda de eficácia do imunizante. “Trata-se de uma medida preventiva. Alguns eventos não observados nos estudos clínicos iniciais precisam ser investigados para esclarecer se existe relação causal com a vacinação. Até o momento, a suspensão é temporária e segue os protocolos de segurança adotados pelas autoridades sanitárias”, explica.
O infectologista lembra ainda que o Brasil dispõe atualmente de duas vacinas contra a dengue. A Qdenga, produzida por um laboratório japonês e aplicada em duas doses, segue sendo distribuída normalmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para o público contemplado pela campanha.
