O que há pouco tempo parecia distante dos pequenos e médios negócios agora faz parte da rotina de empresas do Vale do Taquari. A inteligência artificial deixou de ser apenas tema de grandes centros tecnológicos e passou a impulsionar produtividade, eficiência e novos modelos de negócio em diferentes setores da economia regional. De softwares industriais a sistemas de gestão em clínicas de saúde e operações de energia elétrica, a IA já atua como ferramenta estratégica no dia a dia das organizações.
Na Beta Tecnologia, de Lajeado, a inteligência artificial passou a ser incorporada tanto nos processos internos quanto no próprio produto da empresa, o sistema de gestão ZADA. Segundo o CEO Gilberto Dessbesell Jr, o setor de desenvolvimento foi o primeiro a sentir os ganhos.
“Hoje geramos códigos de forma muito mais eficiente com IA. Tarefas que antes eram longas e repetitivas são feitas rapidamente. Um bom analista consegue produzir com alta qualidade e depois apenas revisar”, explica.
Além da programação, a tecnologia também passou a apoiar áreas como marketing e comercial, com criação de roteiros, conteúdos e materiais de divulgação. O uso, no entanto, é cauteloso. “A IA ainda erra. A gente cria contextos, treina agentes e revisa tudo. Ela é apoio, não substituição do pensamento humano”, ressalta Dessbesell.
No próprio Zada, a empresa já lançou funcionalidades baseadas em IA, como criação automática de fórmulas, leitura de documentos fiscais em PDF e construção de dashboards por comandos de texto. “A ideia é facilitar processos que antes exigiam muito tempo operacional, sempre com segurança e validação”, afirma.
IA aplicada à saúde e gestão de clínicas
Outro exemplo de crescimento acelerado impulsionado pela tecnologia vem da Clínica Experts, empresa que desenvolve sistemas de gestão para clínicas médicas, odontológicas e de estética. Em pouco mais de três anos, a plataforma saltou de cerca de 900 para quase 8 mil clínicas atendidas em todo o país.
O CEO Tiago Mario explica que a virada ocorreu com a integração da inteligência artificial aos serviços. “Começamos com chatbots para atendimento de pacientes, depois transcrição automática de consultas, organização de prontuários, geração de prescrições e agora avançamos para uso conversacional do sistema”, conta.
Hoje, a IA da empresa, chamada Anna, acompanha atendimentos, organiza informações e gera documentos clínicos em tempo real. Em desenvolvimento, estão ferramentas que conciliam pagamentos de convênios, reduzem perdas por glosas e oferecem apoio inteligente ao diagnóstico.
“A IA consegue cruzar histórico do paciente, padrões de atendimento e protocolos médicos para sugerir exames e alertas. O médico continua decidindo, mas com muito mais informação organizada”, explica Tiago.
O CTO Christian Bayer acrescenta que modelos específicos para a área da saúde estão sendo incorporados. “Existem inteligências treinadas especialmente para contextos médicos. Isso amplia muito a segurança e a qualidade das análises”, afirma.
Eficiência em larga escala na energia
Na Certel, cooperativa que atua no setor elétrico do Vale do Taquari, a inteligência artificial já impacta praticamente todos os setores. Segundo o vice-presidente Daniel Luis Sechi, a estratégia foi criar “agentes virtuais” que absorvem o conhecimento técnico dos colaboradores.
“Aquilo que estava na cabeça das pessoas está sendo treinado em agentes de IA. Mesmo que alguém saia da empresa, o conhecimento permanece”, explica.
Na prática, a tecnologia já automatiza lançamentos fiscais, faz triagem de currículos, analisa contratos jurídicos, responde dúvidas técnicas sobre legislação do setor elétrico e reforça a segurança digital contra fraudes.
“Processos que levavam dez minutos hoje são feitos em menos de um. Em algumas áreas ganhamos centenas de horas de produtividade por colaborador ao ano”, afirma Sechi.
O próximo passo envolve redes inteligentes, uso de dados em tempo real e até drones automatizados para identificar falhas em linhas de transmissão. “A IA vai permitir respostas quase imediatas a quedas de energia e manutenção preventiva muito mais eficiente”, projeta.
Vale conectado à nova economia
Os exemplos da Beta Tecnologia, Clínica Experts e Certel mostram que o Vale do Taquari já se insere no movimento global de transformação digital. Empresas locais não apenas adotam ferramentas prontas, mas desenvolvem soluções próprias, adaptadas à realidade regional e aos desafios de cada setor.
A inteligência artificial, que há pouco tempo parecia restrita a grandes corporações, agora se consolida como motor de inovação também no interior do estado, impulsionando competitividade, abrindo novos mercados e redesenhando a forma como negócios operam no dia a dia.
Se antes a tecnologia era vista como apoio pontual, hoje ela se torna parte estrutural das estratégias de crescimento. No Vale, a revolução da IA já começou, e deve acelerar ainda mais nos próximos anos, atingido até mesmo as empresas com maior faturamento da região.
Crescimento acelerado, mas ainda em adaptação
Apesar dos avanços regionais, o cenário brasileiro ainda mostra empresas em estágio inicial de adoção. Levantamentos recentes indicam que cerca de 72% das organizações estão entre fases experimentais ou iniciais no uso de IA. Mesmo assim, quase metade dos profissionais já utiliza ferramentas de forma informal no trabalho, prática conhecida como Shadow AI.
Marketing, atendimento ao cliente, vendas e tecnologia lideram a adoção oficial, enquanto áreas como RH, jurídico e logística ainda exploram pouco o potencial da automação inteligente. O medo de substituição de empregos aparece como uma das principais barreiras culturais. Para lideranças que já vivem a transformação na prática, o impacto tende a ser diferente.
“A IA não elimina o humano, ela potencializa. Quem souber operar essa tecnologia vai se tornar cada vez mais valioso no mercado”, avalia Tiago Mario. Daniel Sechi reforça, “Ela tira o peso operacional e deixa as pessoas no estratégico. O ganho é de qualidade, agilidade e tomada de decisão”.
Principais aplicações de IA
Beta Tecnologia
(software industrial/ERP – Zada)
- Geração automática de códigos de programação, acelerando o desenvolvimento de novas funcionalidades;
- Leitura inteligente de documentos em PDF, como notas de serviço, pedidos e contratos;
- Lançamentos automáticos de dados no sistema, reduzindo tarefas manuais;
- Criação de dashboards e análises de vendas por comando de texto;
- Interpretação e construção de fórmulas complexas dentro do ERP.
Certel
Investimento de R$ 3 milhões
- Triagem de currículos. Base com mais de 3 mil candidatos;
- Redução de 95% do tempo para emissão de notas no varejo;
- Agentes virtuais retém conhecimento para padronizar respostas;
- Análise e monitoramento de informações.
Clínica Experts
- Chatbot generativo, transcrição de consultas, geração de documentos (atestados e prescrições);
- Todos os atendimentos internos passam por triagem de IA;
- Ampliou capacidade de atender clínicas: de 900 em 2022 para quase 8 mil;
- Tecnologia própria e expansão para outros mercados.
No agro
A inteligência artificial já começa a impactar diretamente os resultados do agronegócio. Levantamento da 29ª edição do CEO Survey da PwC mostra que 33% das empresas do setor registraram aumento de receita após adotar a tecnologia. A pesquisa ouviu mais de 4,4 mil presidentes de companhias em 95 países, incluindo o Brasil.
Apesar dos avanços, os efeitos ainda são graduais, 58% dos executivos afirmaram ter percebido pouco ou nenhum impacto financeiro imediato com o uso da IA, indicando que os ganhos tendem a se consolidar no médio e longo prazo.



