O que fazemos quando ninguém está olhando?

Opinião

Karine Pinheiro

Karine Pinheiro

Jornalista

O que fazemos quando ninguém está olhando?

Estamos esquecendo como fazer coisas sem plateia. Não é uma acusação. É mais uma constatação incômoda. Pegamos o celular para fotografar o café antes de beber, registramos a corrida antes de terminar, compartilhamos o livro antes de chegar à última página. Até o descanso pode ganhar uma legenda.

Mas que fazemos quando ninguém está olhando? Durante muito tempo, fazer alguma coisa por prazer bastava. A gente desenhava porque gostava de desenhar. Cozinhava porque queria comer alguma coisa diferente. Aprendia a tocar um instrumento porque determinada música parecia bonita. Cuidava de uma planta sem precisar mostrar que ela tinha nascido uma folha nova.

Hoje, existe uma vontade quase automática de transformar experiências em registro. Não basta viver, é preciso guardar, compartilhar e mostrar. E, em algum momento, até aquilo que deveria ser apenas nosso começa a obedecer à lógica da exposição. Na contramão, pesquisa recente do Pinterest sobre os hobbies que ganham força em 2026 mostra um movimento contrário.

Entre as tendências aparecem atividades manuais e analógicas, como flores prensadas, desenho, costura, jardinagem, café feito em casa, objetos produzidos à mão. Pode parecer apenas uma lista de tendências. Para mim, parece mais do que isso. Talvez exista uma espécie de cansaço coletivo, de olhar para uma tela. De receber informação o tempo inteiro. De responder mensagens. De comparar o que fazemos com aquilo que os outros fazem.

Foto: Jhon Willian Tedeschi

Mudanças de hábito

A solução pode estar em coisas que não têm botão de curtir. Um hobby tem algo de subversivo porque não precisa servir para nada. Podemos passar uma tarde inteira tentando aprender um ponto de crochê e continuar ruins nisso ou pintar uma parede e perceber depois que a cor não ficou como imaginávamos. Não há métrica para isso.

O hobby permite uma experiência cada vez mais rara, de fazer algo sem precisar performar. Não precisamos ser bons, produtivos ou interessantes. Não precisamos transformar o passatempo em profissão, conteúdo ou projeto. Podemos simplesmente gostar. São pequenas experiências que nos lembram que algumas coisas não acontecem na velocidade de um toque na tela.

Talvez estejamos procurando exatamente isso. Não necessariamente uma vida sem tecnologia, mas alguns pedaços de vida que ela não consiga organizar por nós. Um espaço em que o celular fique longe e que ninguém saiba o que estamos fazendo.

Fora das telas

A pesquisa do Pinterest chama atenção porque mostra um movimento que está acontecendo ao nosso redor: a procura por atividades fora das telas. Mas gosto de pensar que não precisamos transformar isso em mais uma tendência. Podemos recuperar um hobby sem anunciar que começamos. Ler algumas páginas. Plantar alguma coisa.

Só fazer alguma coisa apenas porque aquilo nos faz bem. Sem público e sem desempenho. Sem precisar contar para ninguém. Depois de tanto tempo tentando mostrar como vivemos, a próxima forma de liberdade seja simplesmente viver algumas coisas sem que ninguém veja.

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