Sem idade para viver aventuras

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Sem idade para viver aventuras

Em busca de novas experiências, Cristiano Horn, 74, resolveu arriscar em um esporte com muita adrenalina. Convenceu a esposa, superou o nervosismo e estreou no voo livre. Ao chegar, percebeu que não era o único 60+ no Morro do Paraglider, em Roca Sales. Comportamento dos idosos são uma amostra das mudanças sociais

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Atualizado quinta-feira,
01 de Janeiro de 2024 às 11:10

Sem idade para viver aventuras
Morro do paraglider, em Roca Sales, está há mais de 430 metros acima do nível do mar. Um dos destinos mais procurados pelos praticantes. Idosos enfrentam os medos e mostram que não existe idade para se aventurar. (FOTOS: FILIPE FALEIRO)
Vale do Taquari

“Foi inesquecível. Quando estava lá em cima, senti algo inexplicável. Na hora da decolagem, tive receio e um pouco de medo. Mas isso jamais faria eu desistir. Se eu tiver oportunidade, vou de novo”.

As palavras do aposentado Cristiano Horn, 74, morador de Lajeado, ainda estavam carregadas de emoção logo após o pouso em área próxima ao Rio Taquari, em Roca Sales. Ele decolou por volta das 15h, do sábado, dia 13 de janeiro. Foram cerca de 30 minutos de voo.

A estreia no voo livro precisou de três tentativas para decolar. As duas primeiras deram errado e o instrutor, Ricardo Majolo, da escola Latitude 29, precisou desistir antes de pular os mais de 430 metros do chamado Morro do Paraglider.

Cristiano Horn, 74, recebe orientações do instrutor Ricardo Majolo antes da decolagem para o voo duplo

No voo duplo, é preciso coordenação nos movimentos. Ficar de lado, esperar o vento encher a asa e correr até o precipício. “Toda primeira experiência é em dupla. É um momento para se divertir. Foi isso que o Cristiano e eu fizemos. Com o máximo de segurança, um voo panorâmico, para sentir o que é o esporte”, detalha Majolo.

Viver novidades, ter coragem de experimentar, conhecer lugares e pessoas. Esses são traços característicos de Cristiano Horn. Natural de Estrela, o ex-servidor público tem um currículo de feitos após a aposentadoria.

Se desafiou para aprender novos idiomas. Viajou pela Europa. Sempre que pode, reúne os amigos para caravanas de pescaria pelo RS. “Em primeiro lugar, não tem essa de idade para fazer coisas novas”, ensina e acrescenta: “claro que temos que conhecer que nossa velocidade não é mais a mesma, temos de respeitar a nossa condição física. Mas ainda há muito para se viver.”

O contato com o parapente (ou paraglider) surgiu pelo filho, diz Cristiano Horn. “Ele começou a voar, fez curso em Arroio do Meio. No início, minha esposa e eu ficamos com bastante receio. Tínhamos medo que algo acontecesse com ele. Mas, com o tempo, acompanhando a prática dele, vendo os vídeos, conversando com praticantes, tive vontade de experimentar.”

Geração de “super velhinhos”

A cena do “vovô” e da “vovó” em casa, sentados na varanda, tomando chimarrão ou regando as plantas começa a mudar.

“Temos um público cada vez maior de pessoas mais experientes e com muita coisa para viver. Eles criaram os filhos, trabalharam, economizaram, fizeram o que tinham de fazer. Agora querem aproveitar”, destaca o médico cardiologista, precursor da neurolinguística no RS, Nelson Spritzer.

Esse comportamento dos 60+, voltado à qualidade de vida e novidades, é tema de palestras do doutor Spritzer. “Chamo eles de os ‘super velhinhos’. Querem experiências, viagens, conhecer pessoas. Até mesmo fazer um esporte radical, como é o caso desses voadores”. De acordo com ele, essa nova vida é possível graças ao aumento da longevidade.

Como característica, são pessoas com mais leituras, com conhecimento e mais controle emocional, diz Spritzer, na comparação com gerações mais novas. “Essa visão de mundo aparece também no cuidado da saúde. Muitos fazem academia, mantém uma alimentação regrada, com o corpo e a mente sã.”

“Ancião” dos ares

Lauri Wendt, 71, começou a praticar o esporte quando se aposentou

Naquele sábado de sol, com vento propício para a decolagem na rampa sul, Cristiano Horn não era o único da geração 60+. Haviam praticantes de longa data, com conhecimento para voos solos.

O esportista mais antigo, Lauri Wendt, 71, estava lá. Natural de Estrela, o ex-caminhoneiro começou a praticar o esporte em 2010. “Tenho tempo livre e venho sempre que é possível.”

Para suportar o esforço físico do parapente, mantém uma rotina de exercícios na academia. “As pernas tem que estar fortes para os pousos. Fui o segundo aluno da escola aqui na região. O primeiro desistiu e hoje sou o ancião do voo livre no Vale”, brinca.

Antes do parapente, não fazia nenhum esporte. “Meu trabalho como motorista me tomava todo o tempo. Viajava muito. Ficava de 30 a 60 dias longe de casa”, relembra. “Sempre sonhei em voar, desde criança. Hoje perdi as contas de quantas decolagens fiz. Passa de mil. Gosto de subir o máximo que for possível.”

A vida mudou depois de começar no esporte, afirma. “Foi uma virada de página. Se não tivesse o voo livre, não sei o que seria. Possivelmente teria uma vida ociosa. Essa aventura me completou. Enquanto eu tiver força nas pernas para decolar e pousar, vou estar nos céus. Minha cabeça ainda é bem mais jovem do que o meu corpo.”

Coração valente

Ricardo da Pont, 63, começou a voar após fazer uma cirurgia no coração

Após a cirurgia cardíaca, com três safenas e uma ponte, a perspectiva de Ricardo da Pont, 63, era uma vida de limitações. “Eu estava muito para baixo. Meu filho me fez uma espécie de desafio e eu aceitei. Iniciei com voos duplos, fiz o curso e hoje sempre que posso estou aqui.”

Natural de Arroio do Meio e morador de Lajeado, a visão de mundo é outra. “Mudou a minha vida. Aquela parte triste, ruim, ficou para trás. A ansiedade, as dúvidas. Tudo passou. Vivo o momento e com a certeza de que tudo está como deveria.”

Durante os anos de vendedor autônomo, nunca imaginou praticar algum esporte radical. “Antes da operação, tudo era trabalho. Passei pelo momento mais difícil da minha vida e despertei. O voo livre veio como minha tábua de salvação. Recuperei a moral, a alegria e hoje vivo melhor do que quando era mais jovem.”

Economia prateada e demanda pública

Um mercado em ascensão, com produtos e serviços destinados para o público de 60+. No país, pesquisa feita pela consultoria norte-americana FleischmanHilard, aponta que esse público representou uma movimentação de pelo menos R$ 1,6 trilhão no Brasil. “A economia prateada abrange um leque de itens às necessidades das pessoas idosas. Com o aumento da expectativa de vida, surgem novas oportunidade de negócios”, diz a economista e professora, Fernanda Sindelar.

Apesar das oportunidades para marcas, há também um outro lado, de pessoas com poucas condições financeiras. “Há um contingente grande de quem depende do sistema de previdência pública, dos serviços de saúde e de assistência, aumentando a demanda de recursos públicos.”

Neste sentido, as políticas econômicas podem ser ajustadas para incentivar ainda mais a participação ativa e produtiva. “A aposentadoria pode ser vista por muitos como um momento difícil pela necessidade de ter que deixar os empregos para pessoas mais jovens, ao mesmo tempo que precisam encontrar outras ocupações.”

O setor produtivo, diz Fernanda, tende a sentir os impactos da virada na pirâmide etária. “Nas empresas, quando ocorre a troca de geração, muitas vezes observa-se quedas de produtividade, pois a experiência dos mais jovens é menor. Por isso, esse processo deveria ser mais bem gerido.”

Para ela, o setor produtivo e o poder público precisam desenvolver estratégias capazes de aproveitar a experiência e o conhecimento do público 60+.

Indicadores econômicos

A geração prateada está atenta às tecnologias de comunicação. Com mais possibilidade de contato com pessoas pelo país e pelo mundo, organizam experiências, compras e viagens.

Até 2060 serão 73 milhões de idosos no Brasil.

Números

No mundo, a geração prateada gera a 3ª maior atividade econômica. Movimenta mais de 7,1 trilhões de dólares. No Brasil, alcança R$ 1,6 trilhão/ano. Respondem por quase 20% do consumo no país.

Oportunidade às marcas

  • 52%
    das pessoas 60+ afirmam ter dificuldade em encontrar produtos que atendem suas necessidades
  • 72%
    Percebe despreparo das lojas, das dinâmicas do varejo e do treinamento de vendedores no atendimento
  • 65%
    não acreditam que as marcas e as empresas se adequarem para atender pessoas mais velhas

Ranking da longevidade nas regiões

Conforme pesquisa do Departamento de Economia e Estatística, ligado à Secretaria Estadual de Planejamento, o Vale do Taquari é a quarta região do RS com maior expectativa de vida. Confira:

  1. 1º Norte: 79,66
  2. 2º Nordeste: 79,34
  3. 3º Vale do Jaguari: 79,11
  4. 4º Vale do Taquari: 78,66
  5. 5º Fronteira Noroeste: 78,55

Confira AQUI o vídeo da reportagem

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