O que faltou para evitar a tragédia

COLUNA | ADAIR WEISS

O que faltou para evitar a tragédia

A natureza é incontrolável, mas a inteligência artificial precisa ser utilizada para antecipar informações vitais que possibilitam evacuações em tempo hábil

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Atualizado sábado,
09 de Setembro de 2023 às 10:47

O que faltou para evitar a tragédia

A natureza é incontrolável, mas a inteligência artificial precisa ser utilizada para antecipar informações vitais que possibilitam evacuações em tempo hábil.

Não adianta tentar achar culpados. Entretanto, tão pouco enrolar ou justificar. As lições da pior enchente que devastou o Vale do Taquari devem servir, de uma vez por todas, para fazer o simples e o básico: criar mecanismos de informação confiáveis e que funcionam.

Não fossem a falta de integração dos dados, a desatenção e incapacidade de interpretação dos alertas emitidos pelos órgãos climáticos – fazia dias -, muita coisa poderia ser diferente. As falhas, imprudências, ingenuidades e desatenção devem pesar sobre todos nós. Definitivamente, somos todos um pouco responsáveis pela inexistência de um plano eficiente contra enchentes. Mas isso não retrocede, temos de olhar para frente.

É por isso que usarei de palavras simples, talvez duras e pontuais. Ao governo estadual e seus órgãos de defesa responsáveis por orientar em fenômenos naturais – ainda mais como as enchentes cíclicas – compete um papel primordial: criar um mecanismo de orientação e exigência, o qual deve ser submetido e, se for o caso, imposto aos municípios. Estes, por sua vez, devem adotar um fluxo pedagógico sobre enchentes junto aos moradores e empresas existentes nas regiões ribeirinhas. Essa pedagogia se estende às escolas, onde as crianças são orientadas e sensibilizadas sobre os riscos de quem mora ou trabalha às margens de córregos dágua. Todos devem conhecer os riscos e o plano de prevenção.

E convenhamos. Sobram exemplos e sugestões de especialistas sobre prevenção. Esta é a única capaz de evitar o desespero vivido por milhares durante as noites e dias de terror, muitos em cima de telhados, ilhados, sem luz, sem água, com fome e nenhuma comunicação. Dezenas morreram, milhares foram resgatados com dificuldades, alguns com abalos psicológicos para sempre.

É inadmissível que não tenhamos aprendido.

Há poucos anos, quando um secretário municipal quis instalar um monumento sobre enchentes na beira do Rio Taquari, ele quase foi ridicularizado. A crítica generalizada fez o prefeito desistir da ideia pedagógica para não perder votos.

Fatos lamentáveis como este se somam aos incontáveis exemplos da nossa imprudência e negligência em relação ao tema. As réguas físicas instaladas em pontos da cidade – algumas em locais inacessíveis – foram a nossa única e precária orientação derradeira, uma vez que o sistema da CPRM parou de funcionar. Contudo, já era tarde. Muçum e Roca Sales já tinham sido devastadas.

Enquanto isso, pelos pagos do baixo Taquari, nem os alertas soaram direito ou preocuparam todos os ribeirinhos, muitos preferiram “acreditar” que a água não subiria tanto.

Faltou informação, cultura pedagógica, faltou um plano de prevenção. Aliás, faltou quase tudo. Sobrou desespero e empenho herculano de centenas de voluntários que arriscaram suas vidas para tentar salvar o impossível. Por isso, insisto: estávamos atrasados, desorganizados, impotentes. O problema deve ser detectado antes.

Prevenção eficiente mudaria tudo

Imaginemos um cenário de prevenção com as seguintes informações e providências: choveu 200 a 300 milímetros nas cabeceiras; os alertas são emitidos pelos órgãos climáticos; os moradores ribeirinhos das cidades mais altas são avisados por um sistema eficiente de comunicação e evacuados, inclusive, por sirenes em casos extremos; à medida que a água desce as corredeiras e passa pelas represas, seu volume e velocidade são dimensionados; com base nestas primeiras informações, a inteligência artificial já consegue nos dar um prognóstico preciso sobre o que vai acontecer quando o “tsunami” alcançar as cidades na baixada; imediatamente, as cidades são avisadas e têm tempo para evacuar as áreas de risco nas áreas sequenciais; afinal, o curso das enchentes é gradativo e dá tempo para se preparar.

Ainda assim, digamos que surpresas ocorram e seja necessária uma operação emergencial. Então, entra em ação o “plano de guerra” com botes, salva-vidas, profissionais preparados, sistema alternativo de comunicação, de energia elétrica, inclusive, contato e apoio imediatos com o exército para soluções em casos extremos, com helicópteros avisados e prontos para entrar em campo. Isso tudo é barato perto do prejuízo bilionário de uma enchente como desta semana.

Portanto, o básico e simples bem feitos: um plano de prevenção. Eis a lição e solução que as autoridades devem buscar. O resto é discurso e promessa.

O Vale do Taquari não deve aceitar outra solução, senão aquela que devolva a paz, a tranquilidade e a esperança para continuarmos investindo em nossas cidades.
Espero que tenhamos aprendido a lição!

A reestruturação

Em tempo. Segunda feira ocorrem duas reuniões estratégicas: em Porto Alegre, na Secretaria Estadual do Desenvolvimento, prefeitos e presidentes de CICs municipais de cidades afetadas com bancos para acertar linhas de financiamentos para recuperar casas e empresas. Banrisul será o suporte para o cidadão em geral e o BRDE (Sul), Badesul (RS) e BNDES (federal) são alternativas para as empresas; em Lajeado, na Univates, ocorre outra reunião importante, esta para tratar de um diagnóstico sobre a infraestrutura regional. Muitas casas, pontes, estradas e prédios públicos estão comprometidos por causa das cheias. A ideia é criar um movimento com apoio da sociedade civil organizada e levantar tudo que ruiu. O problema estrutural é sério. Os prejuízos são bilionários e sequer conhecemos a dimensão deles. A reunião é o pontapé para levantar os dados em todo Vale.

Vamos precisar de muito dinheiro. Bilhões, com certeza. E vai demorar. Este é o nosso custo pela ausência de um plano de prevenção.

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