Como foi a segunda dos “reféns”?

Opinião

Fernando Weiss

Fernando Weiss

Diretor de Mercado e Estratégia do Grupo A Hora

Coluna aborda política e cotidiano sob um olhar crítico e abrangente

Como foi a segunda dos “reféns”?

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Como você reagiu à queda das redes sociais na última segunda-feira? Ficou perdido? Desnorteado? Seu dia foi mais tranquilo? Seu trabalho rendeu mais ou menos? Já sabemos do rombo bilionário que a instabilidade do Facebook, Instagram e Whatsapp provocou mundo afora na área dos negócios. Mas o assunto principal aqui não é de ordem econômica.

O ano era 1995. Eu tinha 13 anos. Fiquei impressionado com a novela Explode Coração, da Rede Globo. Alguém se lembra? Na época, computador era raridade. Conversa com pessoas do outro lado do planeta nem se fala, ainda mais, para quem morava em Chapadão, no interior de Santa Clara do Sul. Por lá, recém tinha chegado energia elétrica.

A novela mostrou como funcionava o chamado BBS, considerado os primórdios da internet, que permitia a troca de mensagens entre pessoas de todo mundo. Pelo computador, a cigana Dara (Tereza Seiblitz) conhece Júlio Falcão (Edson Celulari) e ambos alimentam uma relação que vira casamento no fim da trama. Mas isso é o de menos. A possibilidade de conversa virtual me causava espanto e me questionava: será que viveremos isso por aqui em algum dia? Pois é, não só vivemos como dependemos. Não só dependemos como viramos reféns.

Refém, em tradução livre no Aulete: indivíduo capturado por uma pessoa, grupo ou organização e que é ameaçado de morte ou maus-tratos se não forem atendidas as exigências ou reivindicações dessa pessoa, grupo ou organização.

Ou seja, fomos capturados pelas redes sociais e pelo seu encanto travestido de ameaça. E o pior, mal percebemos o quanto viramos reféns. Basta um Bug nas redes – linguagem moderna para descrever um problema – para perceber o alvoroço geral. Fiquei estupefato: “me senti perdido”, me dizia um conhecido. “Parecia que o mundo tinha parado”, ouvia de outro. “Não sabia o que fazer”, continuava mais um. E assim foi…

As diferentes manifestações após a maior instabilidade já registrada nas redes sociais mostram o quanto viramos prisioneiros e o quanto isso se torna perigoso. O alerta sobre os perigos do uso excessivo da tecnologia existe desde o surgimento dos smartphones. Dentre os mais conhecidos estão as fobias (como o medo de sair de casa sem celular) e os vícios, como o de estar conectado (e contactável) 24 horas por dia. Porém, nada se compara aos malefícios causados pelas redes sociais. Em toda parte proliferam estudos sobre os efeitos negativos do uso do Facebook, Instagram, Twitter e outros.

Pesquisas apontam que duas a cada três pessoas sentem-se mais insatisfeitas depois de acessar o Facebook. Nos usuários de longo prazo foi diagnosticado aumento de tensão, isolamento, ansiedade e depressão. Outra pesquisa registra o aumento do estresse — devido à exposição ao estresse dos outros — já que muitos usam as plataformas para desabafar e agredir. Bastam apenas 20 minutos de acesso para surgir o mau humor, motivados pela consciência do  tempo perdido.

Para quem pensa que está a salvo porque não é um usuário ativo, está na categoria do “só dou uma olhada” — as consequências também são perversas. Sentimentos de exaustão, irritação e sobrecarga também alcançam aqueles que estão apenas “olhando”.

E você, já notou os efeitos nocivos das redes sociais? Pois é. Todos os estudos sobre a não utilização das redes mostram que 30% não resistiram à tentação do acesso. E detalhe: os participantes são voluntários que aceitaram participar no estudo porque tinham intenção de deixar de usar o Facebook ou a começar a utilizá-lo por menos tempo. No item vícios, alguns cientistas argumentam que tuitar pode ser mais difícil de resistir do que cigarros e álcool. Viramos ou não viramos reféns?

E olha só. Um estudo recente mostra que basta apenas uma semana para se notar níveis mais elevados de bem-estar. Foi constatado que os recém abstêmios estavam mais felizes, menos tristes e menos solitários. Além dos sentimentos positivos, notaram um aumento nos encontros cara a cara e menos dificuldade de concentração. Mas como a gente não se dá conta disso?

O ano era 1995. Eu tinha 13 anos. Fiquei impressionado com a novela Explode Coração, da Rede Globo. Alguém se lembra? A novela mostrou como funcionava o chamado BBS, nos primórdios da internet, que permitia a troca de mensagens entre pessoas de todo mundo. Pelo computador, a cigana Dara (Tereza Seiblitz) conhece Júlio Falcão (Edson Celulari) e ambos alimentam uma relação.

A vida real maquiada

O mundo virtual está muito distante da vida real. Já é comprovado que cerca de 60% do conteúdo é maquiado (e até mesmo inventado). As fotos são retocadas, os cenários desenhados e os sorrisos forçados. Ainda assim, pelo menos metade dos usuários inveja as experiências alheias e enxerga a sua vida com amargura.

Estamos na fase final da pandemia, muito próximos de voltarmos à vida pré-2020. Estamos sedentos por eventos, festas presenciais, encontros. Afinal, a pandemia nos mostrou o quanto somos seres sociáveis e precisamos do cara a cara. Então, se a pandemia nos mostrou tudo isso, quem sabe a queda de 8h nas redes sociais na segunda-feira passada também nos mostre o quanto precisamos abrir as algemas das redes sociais e nos libertarmos da manipulação perversa que elas nos impõem o tempo todo.