Há vagas! Não há trabalhadores!

opinião

Jonas Ruckert

Jonas Ruckert

Diretor do Colégio Teutônia

Assuntos e temas do cotidiano

Há vagas! Não há trabalhadores!

Por

Teutônia

Recorrentemente escutamos profissionais dos setores da indústria, comércio e serviços trazendo à tona a questão da falta de mão de obra. Há um certo clamor por “pessoas para trabalhar” em um contexto do qual somos sabedores de que temos pessoas sem “ter o que trabalhar!”. Até parece que a informação não procede em meio a uma pandemia e em contexto de Brasil. Mas o fato é que vivemos, ou melhor, a boa notícia é de que estamos, em muitos segmentos, na retomada das ações e, em alguma medida, dos investimentos.Onde está então o ponto de divergência entre o “há vagas versus não há gente para trabalhar?”

É certo afirmar que num relâmpago súbito várias são as hipóteses e as informações que nos vem à mente. De toda forma, a pergunta que faço quer ser mais reflexiva do que reativa. Ela vai ao encontro de uma frase que ouvi de uma colega, literalmente exaurida de suas forças ao final do dia de ontem, quando externou a ideia de que “há de se avaliar o que vale a pena nessa vida: se matar trabalhando ou viver às custas do governo.”

A ideia de poder viver sem trabalhar parece confortável. Mas, só parece! Não sou defensor  de que no trabalho está a centralidade da vida. De toda forma defendo alguns conceitos que há décadas me foram apresentados pelos meus pais. Quando ainda garoto, ouvia frequentemente a afirmação de que o trabalho enobrece e dignifica o ser humano.

Diante desta afirmação estão implícitas muitas ideias e, inegavelmente, uma ideologia. Boa ou ruim, esta me acompanhou em grande medida na vida escolar. Tive muitos professores ao longo da caminhada e duas características sempre me chamaram atenção: era comum vê-los cansados, exaustos pelas suas jornadas de trabalho em sala e pós a sala de aula. Mais comum era percebê-los felizes e dignificados pela consequência daquilo que, ainda que um quanto imensurável, era palpável na medida em que diagnosticavam o desenvolvimento de seus pupilos.

Há uma disruptura de todas as ordens no mundo do trabalho, identificada em grandes líderes que não terão sucessão e estendendo-se a todas as demais áreas. Na medida em que políticas assistenciais configuram-se quase que como profissão, padecemos do conformismo que está nos malabarismos de todas as formas de auxílio, criativamente configuradas pelos governantes. E o que vemos em nossas cidades? Listas com beneficiários que não incorreram em nenhuma ilegalidade usufruindo de seus direitos, ainda que com casa na praia, apartamento na serra, chácara à beira do rio e coisas mais.

Nesse país a equidade, conceito do dar mais a quem precisa e menos a quem não, passa por uma crise de entendimento. E por quê? Porque categorias como preguiçosos e acomodados não se enquadram em nenhuma circunstância de vulnerabilidade. São os conhecidos parasitas sociais que usufruem de tudo, o tempo todo, congestionando, inclusive, as filas nos postos de saúde.

Sigo cético na afirmação de que políticas educacionais nos ajudariam muito. Sabedores de que o Brasil é o país que mais tempo passou com as escolas fechadas, de que indicadores apontam que nos países em que as escolas permaneceram fechadas os casos de covid não diminuíram, nos países cujas escolas abriram não tivemos aumento de casos e de que, ao contrário do que se pensava, crianças e jovens não são vetores potenciais na transmissão, fica a pergunta: seguiremos anestesiados vendo as mazelas sociais se perpetuarem? Para pensar.