Conheça a seita misteriosa que habitou o interior do vale

MASSACRE DE PINHEIRINHO

Conheça a seita misteriosa que habitou o interior do vale

No início do século XX, um grupo de pessoas se instalou em uma área da localidade de Pinheirinho, em Roca Sales, na região alta do Vale do Taquari. Eram seguidores de um religioso conhecido como Monge Chico. A presença dos maltrapilhos de hábitos e fé diferentes, aliada a boatos de roubos, assustou a comunidade local. A trajetória dos chamados Monges do Pinheirinho foi encerrada com um ataque da Brigada Militar ao acampamento, que resultou em mais de 20 mortos e oito presos. O episódio integra a história dos movimentos messiânicos brasileiros, como os Muckers, do Morro Ferrabrás, em Sapiranga; o Contestado, em Santa Catarina e Paraná; Canudos, de Antônio Conselheiro; e os Monges Barbudos do Lagoão, na região de Soledade.

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Atualizado segunda-feira,
18 de Janeiro de 2021 às 12:28

Conheça a seita misteriosa que habitou o interior do vale
Vale do Taquari

Quando a Brigada Mi­litar se aproximou, Luís Lisboa pegou o piá pelo braço e cor­reu pro mato. Mais algumas pes­soas também conseguiram es­capar. Os homens chegaram de forma tão discreta e silenciosa quanto possível para um grupa­mento de cerca de 100 soldados. E abriram fogo contra os barra­cos de pau a pique.

Os caboclos não ofereceram resistência, se jogaram no chão para tentar evitar as balas. Foi um banho de sangue.

Do lado das forças oficiais, não há registro de mortos ou feridos graves. Do lado dos monges, fo­ram mais de vinte mortos e oito presos. Em uma foto, de autoria atribuída à BM, os homens apa­recem amarrados pelas mãos com cordas.

A aparência é de pessoas po­bres, com roupas esfarrapadas. No livro “O viajante Rio Granden­se”, de Cezar Reinhardt, editado em 1913, eram descritos como “caipiras, mulatos, caboclos”.

Olímpio mostra o retrato do pai, Manoel, um dos sobreviventes do massacre

Luís e o filho Manoel, com 11 anos à época, de acordo com seu registro de nascimento, te­riam permanecido por mais de um mês embrenhados no mato. “Meu falecido pai e meu avô fu­giram. Comeram o pelego do cavalo no mato, para poder so­breviver e não ter que matar o animal. Parece mentira, mas foi essa a história que eu ouvi”, con­ta Olímpio Lisboa.

Aos 69 anos, o morador de En­cantado é o único descendente dos supostos monges de que se tem conhecimento na região de Encantado. Durante a infância e a juventude, escutava do pai os relatos de quem viveu em Pinhei­rinhos e sobreviveu ao massacre.

O pai e o avô haviam saído de Barros Cassal. Atraídos pelo re­ligioso, acredita Olímpio. Após a fuga, voltaram à terra natal. Anos depois, Manoel retornou ao Vale do Taquari, viveu no bairro Navegantes, em Encan­tado. Era um homem pobre, que dependia de doações para o sustento. Olímpio foi menino de rua. Apoiado por três famílias locais, tornou-se pintor, depois servidor público, hoje é autôno­mo e trabalha co serviços gerais.

Presença assustava imigrantes

Filho de Gino Ferri, Cláudio planeja o lançamento da terceira edição do livro

No início do século XX, um grupo de pessoas se reuniu jun­to à margem do Rio Taquari na localidade de Pinheirinho, área hoje compreendida pelo muni­cípio de Roca Sales, próximo a Encantado. Ali formaram um povoado que acredita-se que era formado por cerca de 50 pes­soas, incluindo famílias inteiras.

O grupo seguia o Monge Chico, liderança religiosa de característi­ca messiânica, o que rendeu a al­cunha de Monges do Pinheirinho.

O movimento possui caracte­rísticas semelhantes às de outros movimentos, como os Mucker (1868 a 1874), no Morro do Fer­rabrás, onde hoje fica o município de Sapiranga, Canudos (1896 a 97) e Contestado (1912 a 16).

A presença dos caboclos sem terra, de hábitos e fé diferentes daqueles aos quais os imigrantes italianos estavam habituados, gerou desconfiança e medo na comunidade local. Com o tem­po, surgiram boatos sobre furtos e abigeatos atribuídos aos mem­bros do acampamento.

A partir do boato de que o gru­po planejava um assalto à casa de José Colombo, formou-se um grupo para uma investida.

Primeira incursão

Na noite de 3 de maio de 1902, doze homens partiram a cavalo. Entre eles, os subdelegados de Roca Sales, Napoleão Maiolli, e de Encantado, Guerino Lucca, imigrantes italianos e um caixei­ro viajante, Eduardo Sattler.

Munidos de pistolas, espin­gardas e alguns fuzis de repeti­ção, chegaram no amanhecer do dia 4 ao acampamento. O jornal A Federação informava serem mais de 30 pessoas no local. No Correio do Povo, o número se aproximava dos duzentos.

As condições desse encontro são desconhecidas. De acordo com A Federação, o embate resultou em dois mortos pelo lado dos imigrantes, Sattler e João Lucca, e oito do lado dos caboclos. No cemitério São Pe­dro, o túmulo de Sattler leva uma cruz branca e os dizeres “morreu por defender os ami­gos”. Tanto Sattler, como os ir­mãos Lucca são hoje nomes de rua em Encantado.

Do lado dos caboclos, foram oito mortos, segundo A Federa­ção. Seus nomes e histórias são desconhecidos. Após o episódio, o acampamento migrou para um local mais escondido, no meio mato.

Cem homens e mais de mil tiros

Diante do ocorrido, as for­ças locais pediram reforço ao governo estadual, à época sob comando de Antônio Augusto Borges de Medeiros. O gover­no estadual enviou uma tro­pa de cerca de 100 homens da Brigada Militar. O grupamento partiu de vapor, embarcando em Porto Alegre e chegando até Bom Retiro do Sul, de onde se­guiram a cavalo.

Após cercar o local durante dias, em 22 de maio, a Brigada Militar ataca o acampamento. Foram 1560 disparos, de acordo com relatórios da BM. O mesmo relatório afirma que não houve resistência.

Foram 23 mortos, todos do lado dos monges, incluindo mu­lheres, de acordo com o livro As Santas Putas: um estudo de de­voção popular no Rio Grande do Sul, de Antônio Augusto Fagun­des, lançado em 1987 pela Mar­tins Livreiro . Os presos teriam sido obrigados a cavar a cova dos companheiros assassinados.

Em junho, o intendente de La­jeado, Oscar Karnal, abriu crédi­to especial de um conto de réis, para as despesas do recebimento da força púbica. “No mês pas­sado, uma horda de bandidos, capitaneados por um monge, assolou uma linha e ameaçava a colônia inteira, reclamando in­tervenção enérgica do município e do Estado”, justificava o inten­dente em seu ato nº 47.

Influência da igreja católica

O componente religioso certa­mente contribuiu na construção do ambiente que resultou no ata­que ao acampamento. A presen­ça de um curandeiro a quem era atribuído grande poder de cura incomodou a igreja católica.

Uma carta escrita pelo padre Domenico Vicentini a seu su­perior, em 12 de maio de 1902, mostra esse incômodo.

“Agora tem um outro GUAIO (sic), que se faz chamar P. Mon­ge (uma nova edição do famoso Antônio Conselheiro). Depois de haver, por muito tempo, an­dado pelos matos, desta paró­quia e entre os de origem brasi­leira para fazer sequazes”.

Vicentini relata ainda a in­cursão dos imigrantes ao local, quando “intimaram àqueles bandidos a se apresentarem, mas aqueles responderam com

tiros e com facões, trucidaram ferozmente dois dos nossos e outros três ficaram feridos.”

O mito do monge milagroso

Do lado dos imigrantes, os mortos no confronto receberam homenagens e viraram nome de rua

Cruzar o rio Taquari sem balsa, caminhando sobre as águas. Fer­ver a água do mate sem acender fogo. Curar doenças com ervas e água da fonte. Relatos como es­ses contribuíram para a constru­ção de uma imagem mítica.

Alguns relatos relacionam o Monge Chico com o episódio do Contestado ou aos Muckers, o que carece de comprovação do­cumental.

Foram vários os personagens que seguiram a tradição do Monge João Maria. João Fran­cisco Maria de Jesus, o Monge Chico era um desses.

O fim do monge é outro episó­dio repleto de dúvidas. Muitas pessoas acreditam que tenha sido enterrado vivo e de cabe­ça para baixo. Considerado seu braço direito, João Enéas teria fugido para Arvorezinha e mor­rido anos depois.

No local, não há qualquer res­quício da presença dos monges. Moradores antigos contavam que eles se instalaram sob uma figueira, que não existe mais. Não fossem escassas obras e a memórias de alguns poucos mo­radores, o episódio teria caído no completo esquecimento.

Da ancestralidade à academia

Maria Lisane Machado cres­ceu com o interesse e a curiosi­dade pela história dos Monges do Pinheirinho. Filha de pai “bugre” e mãe descendente de italianos, na infância, escutava as histórias do grupo contadas pela bisavó, Celestina Sabei Gio­vanela, que era lavadeira e lava­va roupas para integrantes dos monges.

A forma como a bisavó se re­feria aos monges destoava com­pletamente da abordagem pre­dominante na comunidade local. Aquelas pessoas amigáveis, que viviam de forma solidária e com­partilhada, apareciam nos rela­tos mais comuns como bandidos que ofereciam risco à sociedade.

Quando concluiu a graduação em História, na Univates, deci­diu abordar o tema para o Traba­lho de Conclusão de Curso.

Em sua pesquisa, teve a opor­tunidade de conversar com Gino Ferri, que viria a falecer em 2016, aos 93 anos. “Gino me dis­se que se fosse hoje, teria escrito de outra forma”, diz ela.

Atualmente, Lisane é profes­sora de história e filosofia da EEEM Vespasiano Correa. A história do grupo messiânico que viveu e morreu às margens do rio Taquari mais de um sécu­lo atrás passou a fazer parte do conteúdo de suas aulas.

“Acho muito importante que isso conste nos livros de história porque é daqui, é a nossa região. Independente de se os caboclos foram bandidos ou heróis, ou se os irmãos Lucca foram bandidos ou heróis, foi um fato importan­te nessa região e merece ser lem­brado”, conclui.

Período de conflitos

O historiador Fabian Filatow afirma que se tratava de um pe­ríodo conflituoso, em função da recente vinda de imigrantes eu­ropeus à região. “A chegada de estrangeiros nunca vai ser har­moniosa. Quem está não quer perder e quem chega não quer ficar sem”, resume.

Filatow afirma que, pela falta de documentos, é difícil deter­minar quem eram aquelas pes­soas chamadas pelos imigrantes de monges. Não se sabe ao certo qual era a fé professada por eles. Filatow refere-se a eles pelo ter­mo “nacionais”, que os diferen­cia dos imigrantes.

O historiador avalia que o Estado é causador desses con­flitos, no momento em que reconhece o imigrante como proprietário legal de terras, que muitas vezes já eram habitadas por nativos.

“Alguém compra a terra, re­gistra e diz que há invasores. Isso legitima uma ação de vio­lência. Mas muitas vezes são famílias que estão ali há gera­ções.”

Para Filatow, esses nativos eram considerados sinônimo de atraso, no contexto do positivis­mo.

“Houve um trabalho de me­mória e de esquecimento. Uma historiografia laudatória dos imigrantes alemães e italianos que fizeram dos seus braços o RS. Se deixou à margem a história esse nativo”, afirma.

Pinheirinho na canção tradicionalista

No Canto da Lagoa, músicos defenderam a canção
com trajes que remetem à época do episódio

A história do massacre dos Pinheirinhos foi traduzida em canção pelos compositores Fá­bio Tiecher, Thiago Vian e Jorge Moreira, esse último falecido em 2020. A canção foi defendida no tradicional festival Canto da La­goa, em novembro passado.

“Percebemos a falta de músi­cas com temáticas regionais. Fa­la-se muito do gaúcho da pampa, das missões, mas pouco se fala do gaúcho do Vale e da história do Vale. A ideia é um nativismo regional”, recorda Tiecher.

A canção foi finalista da etapa nacional do festival. Na etapa regional, ganhou melhor arran­jo e melhor tema relativo ao Rio Taquari. O vídeo está disponível no Youtube e a música deve ser lançado na coletânea do festival.

Livro deve ganhar nova edição

Lançado em 1975, Monges do Pinheirinho é um dos primeiros e principais relatos sobre o epi­sódio. De autoria de Gino Ferri, a obra teve duas edições

O livro é criticado por alguns historiadores, que apontam influência da visão da história pelo lado imigrante. No entan­to, até hoje, não se localizou relatos ou documentos que pos­sam contá-la do ponto de vista dos caboclos.

“Não concordo com tudo que Gino escreveu. Mas se não fosse o trabalho dele, os Monges do Pinheirinho jamais seriam co­nhecidos. Claro que ele tomou partido, mas foi o cara que man­teve essa memória”, avalia o his­toriador Fabian Filatow.

Filho de Gino, o arquiteto Cláu­dio Ferri planeja lançar uma ter­ceira edição, com a inclusão de documentos que acabaram não entrando nas palmeiras edições.

Para Ferri, o episódio foi vi­sualizado pelos olhos de cida­dãos de Encantado com uma visão católica. “A igreja não via isso com bons olhos. E o livro fala de um movimento feito por católicos contra determinado grupo que interferia nos projetos da igreja.”

A obra está disponível para download no site ginoferri.com.br.