Verbos e vírgulas

opinião

Ney Arruda Filho

Ney Arruda Filho

Advogado

Coluna com foco na essência humana, tratando de temas desafiadores, aliada à visão jurídica

Verbos e vírgulas

Por

Lajeado

O pensador francês Michel Foucalt afirmou que o século XX se caracterizou pela organização da sociedade disciplinar. Nela havia escritórios, fábricas, quartéis, presídios, asilos e hospitais. Basta um olhar no entorno para concluirmos que no pós-2020 muita coisa mudou. A sociedade do século XXI não é mais uma sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. E a mudança mais radical que se observa é justamente na presença dos verbos, enquanto formas de ação. Se a sociedade disciplinar era definida pela negatividade, pelos limites, pelo não-ter-o-direito ou pelo fazer-o-que-se-é-mandado, a sociedade do desempenho se desvincula cada vez mais da negatividade. Ela se define pelo verbo poder, pois nela se tem a impressão que tudo podemos, tudo para termos mais, para fazermos mais, para produzirmos mais.

Aí entra em cena o novo sujeito, o sujeito do desempenho. É que, nos novos tempos, a positividade do poder se mostra bem mais eficiente que a negatividade do dever. O sujeito do desempenho se diz mais rápido, mais produtivo. E isso tudo porque ele se sente livre das amarras do domínio externo, da disciplina que o escravizava, das ordens do chefe, que o obrigaria a trabalhar ou que poderia explorá-lo. Ele se sente senhor de si mesmo. Assim, não se vê submisso a ninguém que não a si mesmo e aos seus verbos. Acordar, plugar, conectar, postar, curtir, ficar, trabalhar, empreender, lutar, vencer e tantos outros. Mas ainda que a sua submissão se limite ao seu próprio eu e aos seus próprios verbos, a pretensa ausência de domínios não o leva à liberdade. Ao contrário, faz com que a sensação de liberdade e a coação compartilhem do mesmo espaço. Ele se entrega à liberdade de maximizar seu desempenho, gerando um ciclo de autoexploração. O explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos. E o verbo parar soa como uma heresia, quase um crime, uma transgressão. O sujeito do desempenho não pode parar.

Aí é que entram as vírgulas. Não se engane, elas não são apenas um pequeno risquinho depois de um verbo. São bem mais do que isso. Elas representam uma pausa. A necessária parada para outras ações, para outros verbos. Olhar, pensar, perceber, contemplar, sentir, refletir, criar, compartilhar. Verbos que representem mais o ser do que o simples poder. Os desempenhos da humanidade e a sua capacidade de criação, em qualquer esfera, se devem muito à capacidade reflexiva, a uma atenção mais profunda, à contemplação. Eu quero, eu desejo o poder de decidir, de ser positivo, de ser o senhor do meu próprio desempenho. E sem as amarras da negatividade, poder escolher o momento de inserir as vírgulas, de fazer as pausas. Quero um 2021 repleto de verbos e de vírgulas, dentre eles cuidar e vacinar.

Texto adaptado do original, publicado em 03/09/2016.