Em política nunca se viu tudo

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Ardêmio Heineck

Ardêmio Heineck

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Em política nunca se viu tudo

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Um hino é uma música marcial ou solene, acompanhada de um texto de louvor a uma divindade, a um País, Estado, Município, Instituição ou fato histórico. O Hino Rio-Grandense é rico em detalhes. Iniciado em 1838, em meio à odisseia da Revolta dos Farrapos que aqui aconteceu de 1835 a 1845, finalmente chegou à versão que expressasse os sentimentos gaúchos daqueles tempos difíceis. A partir da música de Joaquim José Mendanha – maestro aprisionado pelos Farrapos –, Francisco Pinto da Fontoura compôs os versos que chegaram a nós e Antônio Corte Real harmonizou versos e música.

Sua letra e música são épicos. Mexem com nossos sentimentos, pelo ritmo e letra que bem representam nosso “ser gaúcho”, peculiar, diferente, adotado pelos que aqui se estabelecem. Gosto de entoar o Hino Rio-Grandense e, não poucas vezes, o interrompo, engasgado pela emoção que provoca. Sua quinta estrofe tem conteúdo futurista, contextualizado: “Mas não basta, p’ra ser livre, // Ser forte, aguerrido e bravo; // Povo que não tem virtude, // Acaba por ser escravo. ”

De admirar este conteúdo, expresso em meio a uma Revolução onde a determinação parecia só movida por força física e riqueza material. Mas não. Ele destaca a virtude (disposição para a prática do bem, com valores morais, boas causas, razão e inovação). A escravidão a que se refere é em sentido amplo, mas jamais num sentido de dominação racista ariana.

Grifei os dois últimos versos (“ Povo que não tem virtude, // Acaba por ser escravo”) por terem sido o motivo para que a vereadora Karen Santos, recém eleita pelo PSOL em Porto Alegre, justificasse não ter levantado, quando entoado o Hino Rio-Grandense na cerimônia de posse. Entende como racista o Hino, devido a estes versos.

Fico triste e chateado com um fato destes – e com o espaço que ocupou, desnecessariamente, na mídia, uma vez que há questões mais importantes a serem divulgadas – porque sempre fui um otimista quanto à evolução da classe política, acompanhando a evolução do mundo em que atua. Também porque vejo a necessidade de uma esquerda atuante, mas uma esquerda renovada, de fato contributiva para uma sociedade melhor, com suas ideias que valorizam o social. Mas não foi isto que a novel vereadora Karen demonstrou.

O vereador, tal qual deputado e senador, é eleito por grupos sociais que querem estar representados nos legislativos, por pessoas que usem o cargo para uma atuação contributiva ampla, visando um todo melhor. Não vejo racismo no nosso Hino estadual. Vejo racismo e discriminação vergonhosos e legalizados nos sistemas de quotas (de raça e de gênero), nas universidades, nas eleições, etc. Não é assim que se valoriza as minorias. Sua inclusão, seu bem-estar, seu reconhecimento se darão dando-lhes igualdade de oportunidades, em que possam mostrar o real valor que têm (e o têm!!), conquistando com justiça e merecimento seu espaço. E, por certo, o estão conseguindo. O povo brasileiro e o gaúcho não são racistas e nem discriminadores. Pelo contrário. Vê-se por aí um convívio harmonioso e uma mescla cada vez maior e salutar das raças.

Quanto à atuação da vereadora Karen, há questões maiores com que preocupar-se na sua Porto Alegre e promover a inclusão social que defende. Houve uma desindustrialização violenta da Capital nos últimos 25 anos e a perda de foco quanto aos seus potenciais. Há uma orla do Guaíba e um Cais do Porto inaproveitados por questiúnculas, obstando milhares de empregos e a circulação de milhões de reais. Há 14 milhões de desempregados a empregar, parcela significativa na antiga Porto dos Casais. Resolver estes problemas é minimizar a discriminação. Não de raças, mas de oportunidades e de felicidade.