“A fé diz que você não é um competidor, mas sim um irmão”

Franciscanos no vale

“A fé diz que você não é um competidor, mas sim um irmão”

Eleito ministro provincial dos franciscanos ontem, frei Marino Rhoden aborda os desafios da religião em tempos líquidos

Por

“A fé diz que você não é um competidor, mas sim um irmão”
Tudo na Hora 2 - Lateral vertical - Final vertical

Os frades franciscanos do Rio Grande do Sul estão reunidos desde o domingo, 13, para definir futuras ações da corrente religiosa. Conhecido como capítulo provincial, a assembleia ocorre no Convento São Boaventura, em Imigrante, até a sexta-feira, 18.
Uma das ações foi a escolha dos representantes do governo provincial para os próximos seis anos. Natural de Tupandi, o frei Marino Rhoden foi eleito ao cargo de ministro provincial e substitui o arroio-meense Inácio Dellazari.
A eleição envolve sondagem um ano antes onde são definidos três candidatos ao cargo. Ontem, 14, ocorreu a votação secreta que elegeu Rhoden. “Recebi essa missão com alegria, mas sabedor da responsabilidade que é animar os freis na vida e trabalho”, resume.
Para Rhoden, uma das maiores dificuldades dos freis franciscanos é ampliar o número de vocações. A falta de novos freis faz com que a corrente tenha dificuldades em manter o número de paróquias atendidas. “Um dos temas da assembleia também é ver se haverá paróquias que teremos de entregar a diocese”, lamenta.
O ministro provincial faz uma relação da fé com os tempos modernos e percebe a perda de valores tidos como fundamentais por São Francisco de Assis a quase mil anos atrás. Desapego aos bens materiais e empatia ao próximo são alguns dos conceitos que precisam ser renovados, acredita. “A fé diz que você não é um competidor, mas sim um irmão”, relaciona.
Para Rhoden, o costume de descartar objetos acaba se refletindo nos relacionamentos pessoais e modificando a forma como as pessoas valorizam o próximo. Solução para isso, na avaliação dele, é incentivar a fé e o compromisso com a solidariedade.
Atualmente, vivem no estado 81 frades franciscanos. Eles estão presentes em 17 paróquias de 10 dioceses. Realizam trabalho na área social, com destaque para o Centro de Promoção da Criança e Adolescente, na Lomba do Pinheiro, Porto Alegre – RS.
Além destes trabalhos os freis estão presentes em Santuários, na Educação, na Pastoral com pessoas portadoras de deficiência; com Movimentos sociais, na Terra Santa, na missão em Roraima, na CNBB, nas Missões Populares Franciscanas e nos diferentes serviços internos.

Sobre o novo ministro provincial

Rhoden nasceu em 1964 na cidade de Tupandi. Ingressou no noviciado dos freis franciscanos em 1984 e fez o juramento definitivo como frei em 1991. Foi ordenado sacerdote em 1994, por Dom Altamiro Rossato, na Paróquia Cristo Redentor, em Tupandi.
É formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição (FAFIMC), de Viamão e em Teologia pela Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF), de Porto Alegre.

Entrevista

“ Tratamos a pessoa dessa maneira descartável”

A Hora – O papa Francisco escolheu o nome pelo apreço aos mais pobres. Ter um papa identificado com São Francisco de Assis dá mais visibilidade à corrente dos franciscanos?
Marino Rhoden – Sem dúvida, escolhendo o nome ele deu uma linha ao seu pontificado. Ele traz presente a figura de São Francisco de Assis. Nos atos do papa, se percebe visivelmente a proximidade com os pobres, cuidado com a natureza, que são elementos do nosso carisma franciscano.
A Hora – São Francisco de Assis pregava a importância do desapego aos bens materiais, valor que se perde nos tempos modernos. Como a religião consegue resistir a essas novas influências?
Rhoden – Para nós religiosos é um exercício constante de revisão da vida para não cair nessa tendência e proposta do mundo que é o consumismo descartável. Essa mentalidade se reflete até nas relações pessoais. Tratamos a pessoa dessa maneira descartável. O papa Francisco nos ajuda a refletir sobre esses atos e ter uma sobriedade. Se contentar com o que é necessário e evitar o desperdício, que é um grande mal na sociedade. O papa também ajudar a ter a sensibilidade com os excluídos.
A Hora – O adoecimento emocional das pessoas é visível em casos de depressão, crise de ansiedade e demais problemas psicológicos. Como a fé pode auxiliar as pessoas a sofrerem menos esses males?
Rhoden – Nós entendemos a fé como uma crença e relação com Deus. Ela te ajuda a dar essa percepção e convicção de que você não está sozinho no mundo. A fé diz que você não é competidor, é um irmão. A religião é fundamental, não só no sentido de fazer, mas de ser e se compreender a si mesmo. Ajuda também a se colocar em uma maneira mais integral no todo, na natureza.
A Hora – Um dos desafios dos franciscanos é conseguir novas vocações. Os tempos líquidos dificultam ainda mais encontrar futuros freis?
Rhoden – Influi, pois vivemos em tempos instáveis. Mas temos que acolher e reconhecer que a realidade onde os jovens transitam é diferente. A gente se pergunta como dialogar e chegar até eles. A partir de um contato e de convivência, fazer com que os jovens vejam a importância de outras relações que apontem para algum compromisso com a solidariedade. Vemos que os jovens estão abertos quando percebem que podem ser protagonistas.

FÁBIO KUHN – fabiokuhn@jornalahora.inf.br