Ex-foliã do Carnaval faz da garagem a biblioteca sem portas do bairro

TRIBUTO AOS GUARDIÕES

Ex-foliã do Carnaval faz da garagem a biblioteca sem portas do bairro

A biblioteca sem portas movimenta a vida infantil do bairro Santo Antônio, em Lajeado. Môci a abriu na garagem de casa. O irmão fez as prateleiras e o filho trouxe as lonas

Ex-foliã do Carnaval faz da garagem a biblioteca sem portas do bairro
A ex-foliã confere as prateleiras que o irmão construiu
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Lajeado

Beatriz Conceição Alves de Lima, 60, abriu uma biblioteca na garagem de sua casa há três anos, no bairro Santo Antônio, em Lajeado. Ela literalmente abriu, porque no espaço não há portas. A biblioteca permanece aberta 24 horas, faça chuva ou sol. E quando chove, há o risco de as goteiras estragarem os livros doados. Nem por isso, o lugar deixa de ser mágico para as crianças que moram nas redondezas. A Biblioteca da Môci, apelido da Beatriz, é o ponto de encontro da gurizada que joga bola, dos alunos da Slan e da Escola Estadual de Ensino Médio Santo Antônio, o CIEP.

A garagem era estreita. Cabia só uma moto. Môci se questionou de que forma poderia mudar a rua e, como não tinha motocicleta, pensou em ocupar o espaço com histórias. Fez o curso comunitário no Instituto Cor e a garagem virou a janela literária da Rua 19 de Abril. O irmão fez as prateleiras, o filho trouxe as lonas para proteger os livros do vento. A biblioteca sem portas passou a ter as portas abertas para todo e qualquer vivente que passasse pela rua.

Nas três prateleiras ripadas, estão à vista 200 obras, material doado pela comunidade. Tem até livros jurídicos de uma edição obsoleta. Môci acolhe. Tudo para ela é útil. Embora, claro, ela gostaria que viessem mais obras infantis que seriam para priorizar realmente o público que circula por ali. Mas na falta de livros infantis de famosas coleções e fenômenos de feiras literárias, expõe o que recebe.

Môci abriu o espaço há três anos na rua 19 de abril, onde os meninos jogam bola antes de irem à aula

As meninas que perambulam pelo local apreciam a biografia da Lady Gaga. A capa vermelha com a cantora loiríssima é disputada entre as adolescentes. Outro, sem capa, edição volumosa de O Senhor dos Anéis, passa batido pela densidade das páginas, mas é ouro literário para fãs da série. “Quando você lê, pensa um monte de coisa boa. As crianças têm muita imaginação”. Ela defende o estímulo à leitura numa justificativa simples e afetiva: “coisa boa”.

No pano preto que cai do teto, o nome do espaço atrai novos e adultos: “Ciranda, história para crianças”. Os netos de Môci frequentam a garagem e levam os livros para a escola. As crianças do bairro, vão para casa com livros de receita ou histórias curtinhas.

Ela diz que o apelo da biblioteca para crianças é infalível. “Nas escolas também há bibliotecas, mas aqui é diferente. Eles se sentem à vontade”. O fato de ficarem sozinhos, poderem conversar livremente com o colega entre as mesinhas do local, faz o encantamento do diálogo. “Aqui no ambiente cabem três pessoas, mas parece que tem dez, de tanto que eles conversam”, frisa Môci.

Crianças puxam as mães para dentro

A biblioteca é mais frequentada no fim de semana e nas saídas do colégio, as crianças puxam as mães para dentro do recinto, para que elas possam conhecer também.

Em muitas ocasiões, os pais relutam em entrar, acreditam que o espaço é restrito ao público infantil. Môci faz questão de esclarecer: “entrem”. A biblioteca da Môci também é uma ciranda para pais, tios e quem quiser entrar no círculo. Ela se emociona. “Dia desses, vi o pai entrar para fotografar a filha com o livro na mão. Foi a primeira vez da menina no bairro e ela se encantou”.

Assim, sem fazer alarde, só com a força dos livros, Môci faz as histórias circularem. “Quando eu me for, quero que meu nome fique na memória do bairro.”

Môci troca o samba pelos livros

Môci nasceu em Porto Alegre, aos nove meses foi morar no Bairro Santo Antônio e nunca mais saiu dali. Viúva ainda jovem, criou cinco filhos em uma época em que as redes de apoio eram insuficientes. Para dar conta do recado, trabalhou em abatedouro, foi cozinheira. Os movimentos repetitivos lhe renderam dores crônicas. Por causa disso, afastou-se das ocupações, mas não das atividades comunitárias. Ainda nos áureos tempos do Carnaval de Lajeado, Môci foi presidente de uma agremiação e grande defensora da folia popular. O Carnaval de Rua foi desativado e a “sambista” se voltou para ações voluntárias com crianças, promovendo festas e eventos comunitários em Natais e Páscoas.

A criançada vive ao redor da casa . Junta-se na rua para a peleia com bola de couro surrada, antes das aulas. Môci se define como lutadora: “se precisar guerrear, eu guerreio”. Se precisar ficar quieta, fica. A sensatez aprendida na comunidade.

O que falta na prateleira da Môci

Môci recebe muitas doações, mas ela precisa realmente de livros infantis, revistas em quadrinhos, diários de princesas e histórias que façam os alunos realmente absorverem a leitura. Para estimular, a dona da biblioteca motiva: “podem me chamar, eu dou um jeito de buscar”. O sonho dela é colocar portas na biblioteca, não para fechá-las mas para aumentar a proteção dos livros. E um telhado viria bem. Quando chove, a água cai pela lona.”Bom ter pessoas que ajudam outras pessoas no bairro, porque isso vira uma história que fica para sempre.”

Sugestões de doações

  • Livros infantis
  • Revista em Quadrinhos
  • Mangás
  • Diários de princesas
  • Livros infanto-juvenis
  • Séries de Sucesso: Coleções como Diário de um Banana, Percy Jackson, Harry Potter ou Querido Diário Otário.

Assista a história de Beatriz

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