O endividamento deixa de ser um problema restrito ao orçamento doméstico. Quando um terço da população chega ao comércio com restrição de crédito, cheque ou protesto, o impacto avança sobre empresas, vendas, estoques, investimentos e ambiente de trabalho.
Em Lajeado, a inadimplência se manteve em 33,5% em maio, conforme indicador da CDL Lajeado. No RS, o indicador fechou em 37,2% e, em nível nacional, o percentual está em torno de 35%.
Para o comércio, isso significa consumidor com menos capacidade de compra, mais dificuldade de acesso ao crédito e aumento do risco nas vendas parceladas. Conforme a presidente da CDL Lajeado, Giselda Hahn, o momento exige que os lojistas tenham mais cuidado na concessão de crédito, revisem estoques, abram condições de renegociação e sejam mais rigorosos no controle do caixa.
O cenário também muda a relação entre empresas e trabalhadores. Com juros altos, renda pressionada, crédito caro, consumo por impulso e novas formas de gasto digital, o endividamento aparece no dia a dia das organizações, afirma o diretor do Dale Carnegie Vale do Taquari, Gabriel Garcia.
Na avaliação dele, a preocupação financeira interfere na concentração, na produtividade, no humor, nas faltas e na busca por adiantamentos, empréstimos ou renegociações dentro das próprias equipes nas empresas.
“O momento exige gestão mais próxima e pragmatismo. O mercado está mais seletivo, empresas estão mais cautelosas e quem tem caixa preserva a liquidez para atravessar o período com menor exposição ao risco.”
Trabalho prejudicado
Pessoas endividadas podem apresentar sinais que interferem na relação com o trabalho, como faltas, perda de concentração, estresse e outros reflexos emocionais. Na análise de Garcia, as empresas passam a lidar com efeitos que nasceram fora do ambiente corporativo.
O trabalhador leva para dentro da rotina profissional essas dificuldades e comportamentos, alguns ligados ao uso excessivo de celular ou ao envolvimento com apostas online. “A culpa não é da empresa. A empresa está pagando o pato de políticas públicas que não estão bem disseminadas e resolvidas”, avalia.
Mesmo assim, Garcia entende que as empresas precisam enfrentar o tema. Para ele, a saída passa por educação financeira, conscientização, orientação sobre gastos e investimentos e, em alguns ambientes, regramento mais claro sobre o uso do celular durante o expediente.
Educação financeira
A Sicredi Integração RS/MG também identifica a necessidade de ampliar ações de orientação financeira. A cooperativa iniciou neste mês o Programa Bem-estar Financeiro, voltado a estimular hábitos como uso responsável do dinheiro, planejamento consistente, formação de reserva financeira e consumo consciente.
A vice-presidente da SicrediIntegração RS/MG, Katiane Luft, afirma que o conhecimento ajuda as pessoas a tomar decisões. “Como cooperativa, temos o propósito de construir uma sociedade mais próspera, e isso acontece quando as pessoas têm acesso ao conhecimento para tomar decisões financeiras mais conscientes”, afirma.
O programa atua em três frentes. A primeira é informativa, com conteúdos educativos para o público em geral. A segunda é instrutiva, com palestras destinadas a funcionários de empresas associadas. A terceira envolve atendimentos personalizados em algumas agências do RS, em formato piloto.
Katiane destaca que muitas famílias conhecem os conceitos básicos, mas encontram dificuldade para colocá-los em prática. Planejar orçamento, controlar gastos, criar reserva e consumir com consciência exigem disciplina e continuidade.
Como as dívidas chegam nas empresas
- Produtividade
Preocupação financeira interfere na concentração e no rendimento.
- Faltas
Endividamento pode ampliar ausências e instabilidade na rotina de trabalho.
- Adiantamentos
Empresas passam a lidar com pedidos de antecipação, empréstimos ou renegociações.
- Celular
Uso excessivo e apostas online aumentam preocupação durante o expediente.
- Clima interno
Dívidas podem afetar humor, engajamento e relação entre equipes.
Orientações
- Orçamento
Mapear renda, gastos fixos, dívidas e despesas variáveis.
- Cartão de crédito
Definir limite compatível com a renda.
- Compras
Evitar decisões por impulso e comparar preços antes de comprar.
- Reserva
Guardar parte da renda para imprevistos, sempre que possível.
- Crédito
Evitar contar com dinheiro que ainda não entrou.
- Risco
Desconfiar de promessas de ganho fácil, soluções milagrosas e apostas como forma de recuperar perdas.
