Há tempos o futebol do interior do Rio Grande do Sul convive com uma realidade difícil de ignorar. Clubes como Lajeadense, Guarani de Venâncio Aires e tantas outras equipes das divisões inferiores enfrentam uma concorrência que, em muitos momentos, parece desleal que é o futebol amador. Em diversas regiões, o calendário recheado de competições e a capacidade financeira de alguns clubes fazem com que bons jogadores recebam propostas superiores às oferecidas pelo mercado profissional.
Já escrevi neste espaço sobre esse cenário. É um problema real, que limita o crescimento de equipes tradicionais e dificulta a formação de elencos competitivos. Mas, de vez em quando, surgem histórias que lembram que o futebol ainda não se resume ao contracheque.
Nesta semana, durante a apresentação do elenco do Lajeadense, dois nomes chamaram minha atenção: o zagueiro Marquinhos e o centroavante Eliéser Kern. Ambos estavam praticamente acertados com equipes do futebol amador. Marquinhos tinha encaminhada a ida para o Cruzeiro, de Cruzeiro do Sul. Kern estava muito próximo do Tiradentes, de Nova Bréscia. Os dois mudaram de rota para vestir a camisa alviazul.
Marquinhos completa 21 anos neste sábado. É jovem, tem mercado e ainda carrega uma enorme margem de evolução. Revelado pelo Monsoon, é de uma família tradicional do futebol amador. Os nomes de Roxo e Roxinho são conhecidos por qualquer torcedor da região. Canhoto, com qualidade na saída de bola e personalidade para jogar, reúne características cada vez mais valorizadas no futebol atual.
Do outro lado está Eliéser Kern, de 35 anos. Sua história segue um caminho oposto. Enquanto muitos encerram a busca pelo sonho nessa idade, ele resolveu começar. Profissionalizou-se apenas em 2023, aos 32 anos, e em pouco tempo foi vice-artilheiro do Campeonato Sul-Mato-Grossense. Um centroavante de imposição física, daqueles que brigam com os zagueiros durante os 90 minutos, perfil cada vez mais raro até mesmo no mercado profissional.
Os dois tinham tudo para optar pelo caminho mais confortável. No futebol amador, provavelmente receberiam salários maiores, estariam perto de casa, teriam menos cobranças e encontrariam um ambiente já conhecido. Sob o aspecto financeiro, a decisão seria fácil.
Escolheram continuar apostando que uma boa Divisão de Acesso pode abrir portas, render um contrato melhor, levar a novos mercados e proporcionar experiências que o futebol amador, por mais forte que seja, dificilmente oferece.
Nem sempre essa aposta dará resultado. O futebol é imprevisível e nem todo sonho termina em acesso, título ou contrato em um grande clube. Ainda assim, a decisão merece reconhecimento. Em uma época em que se fala tanto sobre cifras, propostas e oportunidades financeiras, ver atletas abrindo mão de um ganho imediato para perseguir um objetivo maior é algo que merece respeito.
O futebol gaúcho precisa de jogadores assim. Atletas que entendem que a carreira também se constrói com escolhas, desafios e ambição. Marquinhos e Eliéser Kern poderiam ter seguido o caminho mais cômodo. Preferiram correr o risco. Independentemente do que acontecer na temporada, essa já é uma vitória que vai muito além das quatro linhas.