Um aluno coloca vidro no copo de água da professora, os colegas silenciam. Alguns acham engraçado. Uma mulher é assassinada pelo ex-companheiro e, logo depois, aparecem comentários nas redes sociais questionando a moral da vítima. Na Copa, bets tentam carregar uma ideia de diversão e criam um exército de viciados.
Três assuntos diferentes, mas que traduzem algo sobre essa quadra miserável da história. Em que momento passamos a assistir ao absurdo como se fosse algo corriqueiro? Que tipo de sociedade nosso comportamento ajuda a construir?
Essas duas questões ajudam a aproximar os três temas. O problema atravessa a escola, as redes sociais, a publicidade e a forma como reagimos diante do efeito que nossos atos causam no outro.
Quando perdemos a sensibilidade, a empatia, nos afastamos das consequências. Alguém sofre. Alguém perde. Alguém adoece. Alguém morre. Do outro lado, apenas o pensamento individual de que “não tenho nada a ver com isso”.
O sociólogo Zygmunt Bauman ajuda a compreender esse fenômeno. Professor nas universidades de Varsóvia e Leeds, definia como cegueira moral “a incapacidade de ver a humanidade no outro e, por consequência, a incapacidade de agir de maneira justa e solidária”.
O pensamento parece feito para os dias atuais. Vemos mais, sabemos mais, recebemos mais imagens, alertas e relatos. Ainda assim, há uma dificuldade crescente em reconhecer o outro como alguém que merece cuidado, proteção ou respeito. É como se cada um pudesse assistir à tragédia com a desculpa confortável de quem diz: isso não é comigo.
Silêncio também é violência
Na escola, o silêncio diante do copo com vidro fez parte da agressão à professora. Quem vê e se cala vira cúmplice. Talvez por medo, talvez por deboche, talvez pela covardia comum de não se meter. O resultado é o mesmo. A professora fica sozinha diante de uma brutalidade coletiva.
O mesmo mecanismo aparece quando uma mulher é assassinada e parte da plateia corre para julgar a vítima. “Não era trigo limpo”. “Morreu porque estava envolvida”. “Alguma coisa fez”. Frases assim não explicam nada. Servem apenas para retirar humanidade de quem já não pode responder.
É uma forma covarde de organizar o mundo. Se a vítima vira suspeita da própria morte, ninguém precisa pensar no assassino. Ninguém precisa olhar para o machismo, para os sinais ignorados, para o silêncio dos vizinhos, para a rede de proteção que chega tarde ou sequer chega. Basta jogar lama sobre o corpo e seguir a vida.
Quando uma transmissão esportiva transforma a aposta em narrativa, vende comportamento. A publicidade deixa de ficar no intervalo e entra na cabeça como palpite. Depois, quando alguém perde dinheiro, se endivida, adoece e arrasta a família junto, vem a frase pronta: “problema é dele”. Afastar-se da consequência e jamais rever os próprios comportamentos virou uma espécie de detergente moral.
A desumanidade se torna moral preponderante quando a sociedade encontra justificativa para tudo: para o silêncio, para a crueldade, para o lucro e para a omissão. Quando o outro deixa de ser pessoa, qualquer brutalidade passa a caber no cotidiano.