Desumanidade como moral preponderante

Opinião

Filipe Faleiro

Filipe Faleiro

Jornalista

Desumanidade como moral preponderante

Um aluno coloca vidro no copo de água da professora, os colegas silenciam. Alguns acham engraçado. Uma mulher é assassinada pelo ex-companheiro e, logo depois, aparecem comentários nas redes sociais questionando a moral da vítima. Na Copa, bets tentam carregar uma ideia de diversão e criam um exército de viciados.

Três assuntos diferentes, mas que traduzem algo sobre essa quadra miserável da história. Em que momento passamos a assistir ao absurdo como se fosse algo corriqueiro? Que tipo de sociedade nosso comportamento ajuda a construir?

Essas duas questões ajudam a aproximar os três temas. O problema atravessa a escola, as redes sociais, a publicidade e a forma como reagimos diante do efeito que nossos atos causam no outro.

Quando perdemos a sensibilidade, a empatia, nos afastamos das consequências. Alguém sofre. Alguém perde. Alguém adoece. Alguém morre. Do outro lado, apenas o pensamento individual de que “não tenho nada a ver com isso”.

O sociólogo Zygmunt Bauman ajuda a compreender esse fenômeno. Professor nas universidades de Varsóvia e Leeds, definia como cegueira moral “a incapacidade de ver a humanidade no outro e, por consequência, a incapacidade de agir de maneira justa e solidária”.

O pensamento parece feito para os dias atuais. Vemos mais, sabemos mais, recebemos mais imagens, alertas e relatos. Ainda assim, há uma dificuldade crescente em reconhecer o outro como alguém que merece cuidado, proteção ou respeito. É como se cada um pudesse assistir à tragédia com a desculpa confortável de quem diz: isso não é comigo.

Silêncio também é violência

Na escola, o silêncio diante do copo com vidro fez parte da agressão à professora. Quem vê e se cala vira cúmplice. Talvez por medo, talvez por deboche, talvez pela covardia comum de não se meter. O resultado é o mesmo. A professora fica sozinha diante de uma brutalidade coletiva.

O mesmo mecanismo aparece quando uma mulher é assassinada e parte da plateia corre para julgar a vítima. “Não era trigo limpo”. “Morreu porque estava envolvida”. “Alguma coisa fez”. Frases assim não explicam nada. Servem apenas para retirar humanidade de quem já não pode responder.

É uma forma covarde de organizar o mundo. Se a vítima vira suspeita da própria morte, ninguém precisa pensar no assassino. Ninguém precisa olhar para o machismo, para os sinais ignorados, para o silêncio dos vizinhos, para a rede de proteção que chega tarde ou sequer chega. Basta jogar lama sobre o corpo e seguir a vida.

Quando uma transmissão esportiva transforma a aposta em narrativa, vende comportamento. A publicidade deixa de ficar no intervalo e entra na cabeça como palpite. Depois, quando alguém perde dinheiro, se endivida, adoece e arrasta a família junto, vem a frase pronta: “problema é dele”. Afastar-se da consequência e jamais rever os próprios comportamentos virou uma espécie de detergente moral.

A desumanidade se torna moral preponderante quando a sociedade encontra justificativa para tudo: para o silêncio, para a crueldade, para o lucro e para a omissão. Quando o outro deixa de ser pessoa, qualquer brutalidade passa a caber no cotidiano.

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