O que aconteceu quando a água começou a invadir Lajeado em 30 de abril de 2024?
Estávamos na lancheria da minha família, então acabou a luz e tivemos que fechar. Disse para o meu irmão Eduardo: “Podemos ir ajudar”. Então pegamos a lancha que usamos em pescarias. Os primeiros que ajudamos foram vizinhos, no bairro Jardim Botânico. Tiramos móveis de dentro das casas. Depois, decidimos ir para o centro de Lajeado ver como estava a situação.
Qual foi o cenário que você encontrou no Centro de Lajeado?
Quando cheguei na frente do hospital para colocar a lancha na água, as pessoas começaram a gritar. Eu não sabia onde ir primeiro. Só sei que comecei a tirar as pessoas devagarinho, sempre pensando na segurança. Ali veio a motivação para me tornar bombeiro.
Você tem ideia de quantas pessoas você resgatou naquela noite?
Acho que umas 90 pessoas. Perdi o cálculo, porque fiquei das 10h até as 20h tirando as pessoas. Fiz várias viagens, com calma para garantir a segurança.
Teve algum resgate que tenha sido mais desafiador?
Teve o caso de uma mulher, ela tinha pânico de água. Eu conversei com ela, expliquei que ela poderia ficar tranquila, que colocaria um colete salva-vidas e uma corda de segurança. Disse: “se a senhora escorregar ou cair, nós vamos lhe puxar.” Ela se sentiu segura, veio até o barco e conseguimos resgatá-la
E quanto às condições dos locais? Teve algum ponto em específico mais difícil?
Sim. Encontrei um ex-colega de quartel que agora está na Brigada Militar. Ele me pediu ajuda para retirar equipamentos do prédio da BM. Era a rua com maior correnteza.
Como foi o último resgate daquele dia?
O morador de uma casa perto da prefeitura me pediu: “Pelo amor de Deus, tira os meus cachorros. Eu já perdi dois.” Tive que desligar o motor do barco para chegar perto e poder resgatar os cachorros. Depois disso, fui pra Cruzeiro do Sul e nos juntamos aos bombeiros de Santa Catarina.
Como foi a mudança de profissão?
A minha vontade sempre foi ajudar o próximo e aquela situação me abriu os olhos. Então, logo depois da enchente, fiz cursos de combate a incêndio, de socorrista. Em seguida, comecei a trabalhar como socorrista dos Bombeiros Voluntários em Passo do Sobrado.
Como acalmar as vítimas em uma ocorrência?
É preciso ter tranquilidade, conversar. Ter calma e acalmar as vítimas é uma coisa natural minha. Tenho este dom. Descobri tarde, deveria ter descoberto antes.
O que mais você percebe nas ocorrências de trânsito?
Falta de atenção e imprudência. Atendi um acidente com cinco vítimas, uma foi a óbito. Tivemos que desencarcerar uma das pessoas. Outras duas estavam sem cinco de segurança. No outro carro tinha uma criancinha, que os pais tiveram consciência e colocaram na cadeirinha. Eles tiveram ferimentos leves.
O que você mais observa no seu dia a dia?
A segurança. A segurança vem em primeiro lugar. Isso significa ter todos os equipamentos e veículos prontos. Esses segundos que ganhamos podem salvar uma vida.
Você tem orgulho da sua profissão?
Tenho. Não escolheria outra. Só me arrependo não ter começado antes.