Jogue com (ir)responsabilidade

Opinião

Filipe Faleiro

Filipe Faleiro

Jornalista

Jogue com (ir)responsabilidade

Acompanho a Copa do Mundo desde 1990. Naquele tempo, o ritual era esperar quatro anos, decorar escalações, discutir quem deveria ser titular e acreditar, com certa ingenuidade, que a felicidade nacional estaria em mais um caneco.

O esporte virou um negócio ainda maior. Criou espetáculos, personagens, contratos, direitos de transmissão e uma máquina global de marketing. A visão romântica ficou para trás. Mesmo assim, é Copa. É Brasil.

Só que agora, antes de a bola rolar, já aparecem as odds. Quem marca primeiro? Quantos escanteios? Qual jogador toma cartão? Quem entra, quem sai, quem será o destaque? Cada lance virou possibilidade de aposta. Na maior vitrine esportiva oferecida ao público brasileiro, transmissão gratuita pelo YouTube, a propaganda das bets ocupa o gramado, o intervalo, os comentários e o telefone na mão do torcedor.

A Copa virou palco para uma indústria que vende a sensação de domínio sobre o acaso. Toda propaganda termina com o alerta: “jogue com responsabilidade”. É o equivalente ao “beba com moderação”. A frase cumpre a formalidade, lava as mãos e devolve toda a consequência para quem está do outro lado da tela.

Sim, a liberdade individual existe. Só que a máquina é mais forte. Os algoritmos são capazes de conhecer o perfil do apostador, oferecer bônus, estimular novas entradas e explorar o mecanismo cerebral de recompensa.

A ludopatia atua de forma semelhante a outras dependências. A pessoa perde, tenta recuperar, perde de novo e aumenta o valor. O jogo deixa de ser entretenimento e invade o orçamento, o trabalho e a família.

Quem paga a conta

Os números mostram o tamanho do estrago. Pesquisa da Serasa apontou que 57% dos apostadores não tinham dívidas quando entraram nas plataformas. Entre os entrevistados, 52% admitem ter perdido mais do que ganharam. Outros 10% fizeram empréstimos para jogar e 13% deixaram contas sem pagamento para apostar.

Quase metade dos endividados da Região Sul recorreu às bets na esperança de quitar débitos. É como tentar apagar um incêndio com gasolina. Enquanto isso, os garotos(as)-propaganda recebem fortunas.

As plataformas movimentam bilhões e ampliam presença. O ganho econômico se concentra, a maioria vai para o exterior, enquanto boa parte do custo se espalha pela sociedade.

A família perde renda. O comércio deixa de receber. A inadimplência aumenta. O sistema de saúde passa a tratar a dependência. A Previdência assume afastamentos por ludopatia. O poder público precisa lidar com uma adicção impulsionada por uma indústria que anuncia em todos os horários e ainda termina a peça publicitária pedindo responsabilidade.

Há também um efeito sobre o próprio futebol. Quanto mais as apostas se misturam ao espetáculo, maior o dever de proteger a credibilidade das competições. Qualquer suspeita sobre escalações, cartões, resultados ou comportamento de jogadores abre uma caixa de Pandora. O esporte vive da confiança de quem assiste.

Desde 1990, muita coisa mudou. A Copa cresceu, o marketing engoliu parte da festa e as bets encontraram na paixão do brasileiro o ambiente perfeito para prosperar.

Vou continuar torcendo. Mas faço uma aposta segura: no fim, quem tenta viver de jogo costuma perder tudo. A banca, antes mesmo de a bola rolar, já entrou em campo ganhando.

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