“Precisamos começar a vender a liderança de forma diferente”

O MEU NEGÓCIO

“Precisamos começar a vender a liderança de forma diferente”

Presidente da ACI-E/CDL, Raquel Cadore defende o trabalho do líder voltada ao serviço, à escuta e à construção coletiva

“Precisamos começar a vender a liderança de forma diferente”
Raquel Cadore participou do programa “O Meu Negócio” dessa segunda-feira, 15. (Foto: Deivid Tirp)

Durante décadas, o conceito de liderança esteve associado a estruturas rígidas, hierarquizadas e predominantemente masculinas. Hoje, porém, esse cenário passa por transformações significativas. Em vez da figura centralizadora e impositiva, ganham espaço modelos mais colaborativos, diversos e baseados na escuta.

Para a presidente da ACI-E/CDL, Raquel Cadore, a mudança reflete as transformações da sociedade e das relações humanas. Advogada de formação, Raquel destaca que parte de suas habilidades como líder foi construída ao longo da carreira, especialmente por meio das técnicas de mediação e justiça restaurativa. Segundo ela, liderar está diretamente relacionado ao serviço e à capacidade de ouvir.

“Liderar é servir. E a gente não vai servir se tiver que impor algo. Precisamos ter uma escuta atenta e exercer uma liderança compartilhada e circular”, explica. Nesse modelo, acrescenta, é fundamental criar ambientes seguros, onde as pessoas possam errar, aprender e contribuir. “Hoje, o líder não precisa ser aquele que melhor fala, não é o que bate na mesa. Existem vários tipos de liderança”.

A diversificação dos perfis de liderança também é vista como uma resposta a um dos principais desafios das entidades: a sucessão. Para Raquel, ampliar a compreensão sobre o que significa liderar pode incentivar novas pessoas a ocuparem espaços de representatividade.

Sua própria trajetória na presidência da ACI-E é exemplo disso. Ela assumiu a liderança durante o período das enchentes de maio. “Eu não estava preparada, mas não tinha o que fazer. Fui com medo mesmo. E aprendi muito”, relembra.

A experiência reforçou sua percepção sobre o papel da liderança. “Precisamos começar a vender a liderança de forma diferente. Liderar não é estar à frente. Estamos a serviço dos associados e da comunidade, e aprendemos imensamente com isso”, destaca.

Outro exemplo do modelo colaborativo defendido por Raquel é a atuação conjunta entre ACI-E e CDL. A aproximação entre as entidades se intensificou após a realização da Ceia Comunitária de Ação de Graças, iniciativa que reuniu associados, lideranças e empresários da região.

“Foi nessa união que começamos a ouvir mais e aproximar as entidades”, afirma. Segundo ela, a integração fortalece a representatividade e contribui para disseminar a cultura do associativismo. “O desafio hoje é trazer todos para essa cultura. Os associados só têm a ganhar.”

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Entrevista | Raquel Cadore Empreendedora, advogada e presidente da Aci-E

“É uma forma diferente de trabalhar e prevenir conflitos”

Rogério Wink – Tua formação da escola básica foi aqui em encantado?

Raquel Cadore – Sim, fiz todo o fundamental e ensino médio em Encantado. Fui para Porto Alegre estudar direito, na PUC. Entrei em 1990 e me formei em 94. Meu primeiro emprego foi na imobiliária Gonzatti com 14 anos. E sempre trabalhei e me virei. Uma por necessidade, e outra porque eu sempre gostei de trabalhar e quis aprender. Fui muito curiosa e nunca tive medo de levantar cedo. Estava lembrando, quando eu passei no vestibular, antes de ligar para os meus pais, liguei para minha tia, onde ela tinha um escritório em Porto Alegre e falei: “passei, segunda-feira estou indo trabalhar contigo”. Ela foi pega de surpresa.

Esse ambiente de ter a família empreendedoras foi importante para a tua formação profissional? Ou não foi decisivo?

Não foi decisivo. Desde criança eu sabia que seria advogada. Não sei te dizer o motivo, mas acredito que foi para fazer justiça. Agora com o passar do tempo, eu entendo que essa escolha foi para construir soluções. Eu advoguei tradicionalmente de 1994 até 2015. Sempre fui uma boa advogada, ganhei grandes e pequenas causas, mas sentia que estava fazendo muito pouco. Sou muito da ação. E a burocracia do direito nos limita muito. Eu sentia que podia fazer mais para os clientes e para a própria sociedade. Então, em 2015 comecei a fazer um curso, dentro da diretoria da OAB, sobre mediação. Hoje sou mediadora judicial e privada.

Como funciona essa mediação do judiciário?

O meu escritório é dentro do espaço florescer, ele não tem uma mesa tradicional, nem muitos livros de direito. Ele tem espaços de conversa. Se a pessoa chega até mim de forma privada querendo solucionar um conflito, a gente chama para a mediação, que ela pode vir com advogado ou não e eu sou somente mediadora. No judiciário, hoje eu faço apenas dois turnos. Nele eu faço somente mediação de família. Por exemplo, se tu quer separar e entrar com guarda ou alimentos, tu pode entrar com um pré-processo. Eu explico como funciona, que são pelo menos quatro encontros. Hoje há apenas duas mediadoras de família em Encantado.

O que é justiça restaurativa?

É uma justiça enquanto valor, ela não é uma justiça enquanto instituição, porque ela é feita tanto no fórum, quanto nas escolas, empresas… é uma forma diferente de trabalhar e prevenir conflitos. Onde tem pessoas a gente precisa buscar a humanidade e os valores, combinar como a gente vai poder olhar para o conflito para que ele seja melhor resolvido sem que eu tenha um ganhador ou perdedor. A metodologia que a gente mais usa aqui no RS são os Círculos de Construção de Paz. Hoje sou instrutora, formada pela Juris. Onde tiver pessoas, a Justiça Restaurativa tem espaço. Tanto mediação quanto Justiça Restaurativa é um processo convidativo. Tu até é intimado a participar, mas a primeira pergunta que faço é se a pessoa quer participar.

Confira a entrevista completa

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