Pipoca no cinema me dá azia

Opinião

Filipe Faleiro

Filipe Faleiro

Jornalista

Pipoca no cinema me dá azia

Até pensei em entrar na sala de cinema comendo um sorvete, mas não sei se permitem. Pipoca todo mundo gosta. Ainda que o preço de um balde na bomboniere seja suficiente para comprar um estoque considerável no supermercado. Mas me dá azia. Então, nem essa vou comprar.

Outra coisa, os filmes estão tão pouco atrativos ultimamente. Nem sei se vale a pena. Falta um roteiro original, algo como Forrest Gump. Nesta linha tenho uma ideia.

De fato, gostaria mesmo de entrar no ramo cinematográfico, talvez até fazer um filme sobre a história do meu avô. Sabe, Tito de Jesus Faleiro foi um grande homem. Nos deixou com mais de 90 anos, se despediu deste mundo em 2007.

Apesar do pouco estudo, ensinou os filhos a jamais pegar o que não lhes pertencia. Não aceitar favores de terceiros em troca da própria honra. Ser leal às próprias convicções e, com honestidade, ter tranquilidade para colocar a cabeça no travesseiro e dormir bem com a própria consciência. Respeito e transparência como fundamento básico para qualquer relação.

Foi assim que seu Tito viveu. Ensinou minha mãe e ela sempre exigiu esse comportamento. Com pouco ou quase nada, meu avô encarou a vida com coragem e também nutria muito afeto pelos netos.

Fui o primeiro a cursar o Ensino Superior. Ele sempre falava para os outros do orgulho que tinha em ver a gente estudando. Tivemos muitas conversas e me lembro de uma em particular. Durante o Estado Novo, era capataz de uma fazenda. Época de Getúlio Vargas. Amado por latifundiários. A notícia de que o presidente havia extraditado Olga Benário Prestes à Alemanha de Hitler provocou uma crise na relação com o padrão.

Seu Tito jamais aceitou aquilo. Como pode o presidente brasileiro mandar uma mulher grávida para morrer em uma câmara de gás do regime nazista? Os anos passaram e as constantes críticas a Getúlio Vargas geraram uma briga com o dono da fazenda. Foi mandado embora. Ele e a família. Minha avó, Lorena, e dois filhos mais velhos.

Foram todos largados à própria sorte. Sem lugar para ficar, o trabalhador do campo e sem terra, fez uma casa de lona às margens da BR-471, próxima ao Rio Jacuí. Veio da pesca a subsistência da família.

Nunca vou esquecer. Meu primo Daniel e eu (os mais velhos dos netos) organizamos uma pescaria para levar o vô. Ele já estava com 88 anos. Era verão de 2005. Alugamos um barco e subimos o Rio Jacuí, fomos até o balneário Santa Vitória. Passamos o dia pescando. Tiramos meia dúzia de pintados, dezenas de lambaris e duas traíras. Na volta, quando desembarcamos do caíco, seu Tito respirou fundo. Olhando para o rio, disse: “É… Essa foi a última vez que pesquei”.

Aquilo me rasgou o peito. “Capaz vô, nós ainda vamos pescar mais vezes”. Respondi na ingenuidade de um jovem com 22 anos, no pensamento quase infantil da vida infinita. Meu primo Daniel segurou o choro. No fim, seu Tito estava certo. Foi a última.

Vou dizer, esse roteiro tem muito potencial. Talvez não seja um sucesso de bilheteria. Ainda assim, vou escrever e buscar investidores.

Digo o seguinte, para fazer esse filme, não quero dinheiro de banqueiro que faz conchavos para assaltar fundos da aposentadoria de servidores públicos. Se quiser ajudar na produção, precisa ser como seu Tito ensinou.

Quando for assistir no cinema, se quiser comprar pipoca, mastigue de boca fechada. Na sala de exibição, também não fale ao celular. De preferência, mantenha desligado. Afinal, educação também é uma forma de respeito.

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