Há uma realidade paralela, em que a ciência, a saúde pública e todos os avanços do conhecimento humano fazem parte de uma orquestra do mal. São forças obscuras que tentam incutir na psique social uma ideologia, para que todos sejam doutrinados. O que parece um livro de Aldous Huxley, ganha contornos de verdade, pois todas as forças estão contra a “liberdade” do povo.
Agora, o novo capítulo desse multiverso atende pela crise do detergente. A Anvisa, em ação conjunta com o Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo, também com os órgãos de controle da cidade de Amparo (sede da indústria), alertam para erros na produção, com risco à saúde, e exigiram a retirada dos lotes com problemas.
No entanto, apenas a agência nacional levou a pecha: “é do PT; estão perseguindo a empresa porque doou dinheiro à campanha de Bolsonaro; censura do governo comunista”. Esses são alguns argumentos que surgiram nesta miserável politização de um assunto que ultrapassa qualquer lado.
Desacreditar instituições técnicas para “lacrar” nas redes sociais expõe a perda de referência de parte da sociedade. Quando alguém bebe detergente, toma banho com um produto que pode estar contaminado, passa no pão como se fosse catchup (tudo para aparecer como um “paladino” da verdade, um “combatente” contra tudo que está aí nesta “ditadura do Brasil”), temos o recorte de uma sociedade adoecida por estar imersa em tanta informação, pois já não consegue distinguir o que é credível da alucinação.
Me lembrou um fato que ocorreu faz mais de 20 anos, em uma cidade do Vale do Rio Pardo. O filho chegou da escola. Comunidade do interior, famílias na maioria produtores de fumo. Haviam tido uma palestra sobre a importância de usar equipamentos de proteção ao aplicar agrotóxicos na lavoura. Falou para o pai e pediu para ele não aplicar mais sem máscaras e roupas apropriadas.
O pai refutou e disse que tudo era mentira. Para provar que estava certo, resolveu tomar banho com o produto. Diluiu parte do veneno em água, chamou o filho para ver, e foi se lavar. Passadas algumas horas, começou a se sentir mal. Precisou ir para o hospital. O resultado foi trágico, e o menino virou órfão de pai.
Naquela época, não havia internet universalizada. Imagina hoje, com tanta desinformação sendo propagada como rastilho de pólvora. O episódio do detergente é um tipo de envenenamento. Pode não matar, ainda assim, é um risco desnecessário ao qual as pessoas se expuseram.