O Vale do Taquari, em especial as redes municipais, construiu ao longo das décadas uma imagem consistente na educação básica. Redes organizadas, professores comprometidos e, em muitas escolas, uma relação próxima com a família.
Em tese, tudo forma um ambiente que favorece o aprendizado. Ainda assim, os dados mais recentes mostram que esse conjunto não tem sido suficiente para garantir alfabetização na idade adequada.
É o que mostra o Indicador Criança Alfabetizada (ICA), feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), ligado ao Ministério da Educação. Das 35 cidades da região avaliadas, 24 ficaram abaixo da meta para 2025. O assunto foi tema de reportagem do A Hora no fim de semana do dia 11 e 12 de abril.
A distância entre os extremos ajuda a dimensionar o problema. Enquanto Ilópolis e Vespasiano Corrêa alcançam 100% de alfabetização, Tabaí registra 28%. A diferença expõe fragilidades que se manifestam de formas distintas dentro de uma mesma região.
Além dos números
Para elevarmos o entendimento, esse resultado passa por um acúmulo de fatores. Isso vem desde 2020, quando a pandemia interrompeu o processo de aprendizagem em uma fase decisiva, justamente quando a presença do professor e a interação em sala fazem diferença.
Na sequência, as enchentes de 2023 e 24 desorganizaram rotinas escolares, afastaram alunos e exigiram reestruturação das redes. Esses eventos não explicam sozinhos o quadro atual, mas ajudam a entender a perda de ritmo no processo de alfabetização. Para vermos os municípios melhor colocados, a maioria não teve prejuízos diretos pelas inundações.
Ao mesmo tempo, há um ponto estrutural que atravessa o debate. Alfabetizar exige domínio técnico, método e continuidade. A dificuldade de formar e manter professores preparados para essa etapa cria um descompasso entre a necessidade da sala de aula e a capacidade de resposta do sistema.
Outro elemento se impõe no cotidiano das famílias e das escolas. O ambiente de estímulos rápidos e permanentes disputa a atenção das crianças com o processo de aprendizagem, que exige tempo, repetição e concentração. A lógica das telas interfere na construção da leitura e da escrita ao reduzir o tempo dedicado ao esforço intelectual contínuo.
Lições de quem superou a meta
Os municípios que alcançam melhores resultados mostram que o caminho passa por consistência. A alfabetização começa antes do Ensino Fundamental, com estímulo à linguagem, leitura e desenvolvimento cognitivo ainda na educação infantil. O acompanhamento próximo, a avaliação frequente e a intervenção imediata diante das dificuldades formam um padrão de atuação que se sustenta ao longo dos anos.
Quando essa base não se consolida, o impacto acompanha o aluno em toda a trajetória escolar. A dificuldade de leitura compromete a compreensão de conteúdos, limita a capacidade de expressão e afasta o estudante do hábito de aprender.
Os números mostram o tamanho do desafio, mas a resposta está na construção do processo. Formação continuada de professores, definição clara de métodos, participação das famílias e estímulo efetivo à leitura fazem parte desse caminho.
Criar o hábito da leitura exige mais do que abrir a porta da biblioteca e soltar as crianças. É preciso mediação, intenção pedagógica e vínculo. Inclusive chamar os pais para esse processo. Fazer com que os adultos também leiam e se tornem referência para os filhos.
O livro, o contato direto com o texto impresso, com jornais, revistas, cartoons e animes, constroem repertório, ajudam a desenvolver capacidades cognitivas, sinapses neurais, vocabulário, fortalecem a capacidade de interpretação e sustentam o aprendizado ao longo do tempo. A alfabetização define o ponto de partida. Quando funciona, sustenta todo o percurso educacional. Quando falha, compromete o restante do caminho.
