Estratégica para a logística regional e fundamental para o escoamento da produção e o desenvolvimento do turismo, a ERS-332 começa a passar por um processo de recuperação considerado histórico. Após anos de intervenções pontuais e sucessivos danos agravados por períodos chuvosos e pelo aumento do tráfego pesado, tiveram início as obras de restauração da rodovia que liga Encantado a Soledade.
Anunciada em abril de 2025 pelo secretário estadual de Logística e Transportes, Juvir Costella, a intervenção foi definida como “o maior investimento da história da ERS-332”. O projeto prevê não apenas a recuperação do pavimento, mas também um conjunto de ações estruturais voltadas à prevenção de deslizamentos e ao reforço da segurança viária.
O primeiro lote em execução contempla o trecho entre Anta Gorda e Soledade, com extensão de aproximadamente 59 quilômetros e investimento de R$ 107,2 milhões, oriundos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs). O projeto já foi aprovado e as obras estão em andamento.

Empresa Traçado trabalha em várias frentes entre Anta Gorda e Soledade
De acordo com o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), os serviços iniciais envolveram a limpeza de sarjetas e meios fios entre os quilômetros 32,2 e 38. Na semana passada, começaram os trabalhos de fresagem (processo de remoção do pavimento existente) com recomposição asfáltica a partir do km 32, em direção a Arvorezinha.
O diretor-geral do Daer, Luciano Faustino, explica que essa etapa é fundamental para garantir a durabilidade da nova pavimentação. “A fresagem permite retirar as camadas deterioradas e preparar a base para um novo pavimento, adequado às atuais condições de tráfego”, destaca.
Trecho Encantado – Anta Gorda entra na próxima fase
O segundo lote da ERS-332 compreende os 32 quilômetros entre Encantado e Anta Gorda, com investimento previsto de R$ 93,1 milhões. Conforme o Daer, o projeto está em fase final de elaboração e a previsão é de que as obras tenham início nos próximos meses.
Assim como no trecho já em execução, o contrato será realizado no regime de Contratação Integrada (RCI), no qual a empresa vencedora é responsável tanto pelo projeto quanto pela execução da obra. Colaboradores do Grupo MPX, que atuam na limpeza do trecho, comentaram que estão na expectativa para já em fevereiro dar início ao trabalho. “É incontestável a importância da ERS-332, tanto para a parte alta e baixa, como para o Estado todo, não apenas pela riqueza do Vale, pela produção e todos os setores que hoje produzem, mas também porque acaba ligando a Serra e região metropolitana. Então, será uma rodovia antes das enchentes de 2024 e uma totalmente diferenciada após pronta”, salienta o secretário Costella.

Quando o serviço está sendo realizado, tanto de recuperação quanto limpeza, o trânsito fica em pare e siga
Rodovia exige solução duradoura
Ao longo dos últimos anos, a ERS-332 recebeu apenas manutenções emergenciais, insuficientes para resolver problemas estruturais de uma pista marcada por curvas acentuadas, irregularidades e desgaste constante. A situação se agravou após eventos climáticos extremos, quando o aumento do fluxo de veículos, provocado pela restrição de outras rotas, acelerou o processo de deterioração.
Diante do volume de recursos investidos, a expectativa é de uma solução definitiva. O projeto completo inclui recuperação do pavimento, obras de contenção, recomposição de aterros, reforço e revitalização de pontes e cabeceiras, além da adequação da rodovia para suportar veículos com cargas de até 45 toneladas. Para o secretário Costella, a população deve ficar em cima e cobrar o melhor serviço possível.
“Sabemos que o pavimento hoje existente na 332 sofreu muitas intempéries durante esses anos todos. Por isso, tem que se melhorar não apenas a camada asfáltica, mas também a base da rodovia, onde tem infiltração, onde tivemos danos maiores. É preciso que todos fiscalizem, denunciem, se acharem que a obra não está sendo bem executada”, comenta.

Grupo MPX realiza a limpeza até Linha Cordilheira em Anta Gorda
Prazos, pedágio e demandas locais
O presidente da Associação dos Municípios do Alto Taquari (Amat) e prefeito de Doutor Ricardo, Alvaro Giacobbo, relembra que a rodovia segue fora do sistema
de concessões. “A previsão, mesmo com os atrasos, é que as obras sejam concluídas até o fim de 2026. A ERS-332 não integra o plano de concessão das rodovias e, por pelo menos cinco anos, ela fica fora dos pedágios”, aponta. Giacobbo reforça que a expectativa é por uma nova rodovia. “Lá atrás, o governo aportou R$ 22 milhões para essa estrada e, em pouco menos de dois anos, ela voltou a ficar esburacada. Então (com esses R$ 200 milhões), o trabalho precisa ser bem feito. E o que a gente conseguiu acompanhar da Traçado é muito bom”, ressalta.

Obra iniciou com os trabalhos de fresagem (processo de remoção do pavimento existente) com recomposição asfáltica a partir do km 32
O prefeito cita que nas principais demandas regionais está a necessidade de intervenções para melhorar a fluidez do tráfego pesado, especialmente em pontos críticos. “Na subida do Morro da Guabiroba, os caminhões carregados não passam de 20 ou 30 quilômetros por hora. Precisaríamos de uma terceira faixa ou, pelo menos, pontos de refúgio para desafogar o trânsito”, conta.
Outro local que preocupa é o acesso de Jacarezinho, na ligação com Nova Bréscia, (“é um trevo muito perigoso”). Por fim, Giacobbo aponta que os gestores não tiveram acesso ao projeto executivo e que, embora o investimento seja elevado, não sabem tudo que será contemplado no serviço. “Pelo valor investido, dá para fazer muita obra. Mas o que a gente vê é a reforma da pista que já existe, sem ampliação. Isso é necessário, mas pode ser insuficiente para o movimento que a ERS-332 tem hoje,” concluí.
Cobrança das entidades
Em junho de 2025, entidades representativas do setor produtivo da parte alta encaminharam um ofício ao Daer solicitando informações atualizadas e detalhadas sobre o processo de reestruturação da ERS-332. O documento foi assinado pela ACISAR (Arvorezinha), ACI/CDL de Ilópolis, ACIP de Putinga e CIC Anta Gorda, que juntas representam os interesses empresariais e industriais de seus municípios. O presidente da Acisar, Jardel Dall Agnol, em dezembro, quando o trabalho de recuperação não havia iniciado, chegou a declarar a obra como perdida. A frustração era motivada pelo prazo de conclusão e a possibilidade de paralisação com o período eleitoral. “Queremos que o trabalho siga constante, o governo afirma que o recurso está garantido, mas a empresa tem dois anos para fazer a obra e a gente pega metade desse tempo no período eleitoral, do pleito estadual. Depois de tudo que aconteceu nos outros anos, a gente fica com bastante receio, porque tudo pode acontecer”, pondera Dall Agnol.
Em resposta aos questionamentos das entidades, a assessoria do Daer declarou que o órgão “é uma autarquia, portanto não haverá interferência no calendário e cronograma de obras durante o período eleitoral”.


