Perda auditiva precoce acende alerta em consultórios

SAÚDE EM DIA

Perda auditiva precoce acende alerta em consultórios

Exposição a ruídos, uso excessivo de fones de ouvido e hábitos de vida antecipam problemas auditivos antes dos 50 anos

Perda auditiva precoce acende alerta em consultórios
Avanços tecnológicos na oftalmologia permitem diagnósticos mais precoces e cirurgias cada vez mais seguras, devolvendo qualidade de vida aos pacientes. (Foto: PAULO CARDOSO)
Pessoas e Bem-Estar

O cirurgião-dentista Vitor Cerqueira Costa, 54, enfrentava uma dificuldade que muitos só percebem quando se torna inevitável, a perda gradual da audição. Com o tempo, ouvir conversas com clareza tornou-se um desafio constante, e pedir para repetirem falas passou a ser rotina, aumentando sua frustração dia após dia. Em cinco anos, sua capacidade auditiva caiu cerca de 40%, reflexo da exposição contínua a ruídos no consultório, a partir da intensa rotina com equipamentos odontológicos.

A solução veio com um aparelho auditivo, e a mudança foi quase imediata. “Por incrível que pareça, logo após colocar o dispositivo, o som ambiente das caminhadas voltou a se destacar, e consegui identificar o canto de pássaros que raramente escutava antes. Hoje brinco que, com meu ouvido biônico, ninguém mais pode cochilar perto de mim”, relata. Para ele, o aparelho não trouxe apenas melhora auditiva, mas também qualidade de vida, devolvendo experiências que o tempo e a rotina haviam apagado.

A adaptação foi tranquila e contribuiu para a socialização do cirurgião. Costa cuida do aparelho com simplicidade, usando-o durante o dia, retirando apenas para dormir ou tomar banho. O dispositivo não interfere nas atividades físicas nem no trabalho, mesmo com o uso de EPIs. Hoje, ele aconselha quem enfrenta dificuldades auditivas a buscar ajuda profissional sem demora. “O custo-benefício do aparelho é excelente. Foi um dos melhores investimentos em saúde que já fiz. Hoje posso dizer que sou outra pessoa, e minha qualidade de vida deu um verdadeiro upgrade”, afirma.

Em alerta

Costa faz parte das 10,7 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência auditiva no Brasil, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Locomotiva. O zumbido constante, a dificuldade em acompanhar conversas e o hábito de aumentar demais o volume da TV ou do celular podem ser sinais de alerta para problemas de audição.

A médica otorrinolaringologista Danielle Kuhn chama a atenção para a importância de procurar atendimento médico já nos primeiros sintomas. “Dar atenção no momento de procurar cuidados e consultas médicas é fundamental. Quanto antes o diagnóstico é feito, menor a chance de perdas irreversíveis”, destaca.

Segundo a especialista, embora a perda auditiva seja mais comum após os 50 anos, cada vez mais jovens têm apresentado queixas. O principal vilão é uso frequente de fones de ouvido em volume elevado. “Se quem está ao lado consegue escutar a música que o jovem ouve no fone, significa que já está alto demais. O ideal é manter o volume o mais baixo possível e limitar o tempo de uso”, explica a especialista.

Além da exposição sonora, a médica lembra que a saúde auditiva está diretamente relacionada a hábitos de vida. Alimentação industrializada, excesso de açúcar, corantes e conservantes aumentam processos inflamatórios no organismo e podem agravar problemas auditivos. “Não é apenas o ouvido que sofre, é o corpo como um todo. A inflamação crônica contribui para perdas auditivas neurossensoriais e condutivas”, ressalta.

Consequências

No consultório, Danielle atende desde crianças até idosos. Nos pequenos, a perda auditiva condutiva, causada por secreções atrás do tímpano, otites de repetição ou disfunção da tuba auditiva, pode prejudicar o desenvolvimento da fala e da cognição. Em alguns casos, é necessário um procedimento cirúrgico simples para colocar um tubo de ventilação, ou “dreninho”, e restabelecer a audição. Já nos mais velhos, a perda auditiva relacionada à idade costuma estar associada também a fatores vasculares, como colesterol alto e diabetes.

A especialista reforça que o diagnóstico precoce é decisivo para o sucesso do tratamento. A audiometria, exame que avalia a capacidade auditiva, deve ser feita pelo menos uma vez antes dos 50 anos e repetida anualmente a partir daí. “O aparelho auditivo é um tratamento, assim como um medicamento ou cirurgia. Mas é preciso colocá-lo no momento certo. Se o paciente demora demais, pode perder a chance de adaptação e o benefício fica limitado”, alerta.

O estigma ainda é uma barreira. Muitos pacientes resistem a procurar ajuda por medo de serem rotulados como “surdos”. Essa demora, no entanto, pode levar ao isolamento social. “É comum ouvir: ‘Por que vou a uma festa se não consigo acompanhar as conversas?’. A perda auditiva não afeta só a comunicação, mas também a qualidade de vida”, conclui a médica.

Prevenção

Para a fonoaudióloga Vivian Estrela Brasil, a saúde auditiva precisa ser encarada como parte da rotina de cuidados preventivos, assim como os exames de visão e coração. “O grande erro é achar que a perda de audição é natural do envelhecimento. Hoje já atendo pacientes de 30 ou 40 anos precisando de prótese auditiva.”

Segundo a profissional, na infância, o problema pode aparecer de forma silenciosa, principalmente nas chamadas otites secretoras, inflamações que não causam dor ou febre, mas afetam a qualidade da audição.

“A criança escuta, mas não com clareza. Isso prejudica o processamento auditivo central, leva a trocas de sons na fala e pode causar dificuldades na leitura e escrita”, explica Vivian. Muitas vezes, os pais e professores confundem os sinais com desatenção ou desinteresse, atrasando o diagnóstico.

A fonoaudióloga destaca que o uso precoce do aparelho auditivo não só devolve qualidade de vida, como também protege o cérebro.

Sinais de alerta

  • Dificuldade em entender conversas em ambientes ruidosos
  • Aumento frequente do volume da TV ou do celular
  • Pedir repetição constante durante diálogos
  • Zumbido persistente nos ouvidos. Em crianças: troca de sons na fala, atraso na linguagem, dificuldade de leitura e escrita
  • Isolamento social por não conseguir acompanhar conversas.

Saúde auditiva

  • 1,5 bilhão de pessoas no mundo vivem com algum grau de perda auditiva. Até 2050, a previsão é de 2,5 bilhões
  • No Brasil, são 10,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva, segundo o Instituto Locomotiva
  • Apenas 17% dos brasileiros com perda auditiva usam aparelhos auditivos, apesar de mais de 80% terem indicação
  • A perda auditiva não tratada é apontada como principal fator de risco modificável para demência
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