Neste Dia das Mães, o Brasil vive um novo retrato da maternidade. Dados divulgados pelo IBGE mostram que as brasileiras estão tendo filhos cada vez mais tarde, elevando a idade média da maternidade no país.
O levantamento, divulgado em 2025, elaborado com base no Censo 2022, aponta que a idade média da fecundidade das brasileiras subiu de 26,3 anos em 2000 para 28,1 anos em 2022. Nas regiões Sul e Sudeste, a média chegou a 28,7 anos. Entre mulheres com ensino superior completo, a idade média da maternidade alcançou 30,7 anos.
A taxa de fecundidade brasileira caiu para 1,55 filho por mulher, o menor índice da história do país.Outro dado aponta crescimento no percentual de mulheres entre 50 e 59 anos sem filhos, que passou de 10% em 2000 para 16,1% em 2022.
Segundo o IBGE, o adiamento da maternidade está ligado ao aumento da escolaridade, maior participação feminina no mercado de trabalho, planejamento familiar e busca por estabilidade financeira.
Planejamento antes da maternidade
A trajetória da administradora Andriele Ferrari acompanha a mudança no perfil das famílias brasileiras. Antes de decidir ser mãe, ela estabeleceu prioridades ligadas à formação profissional, estabilidade financeira e realização pessoal.
Formada em Administração pela Univates e com MBA pela PUCRS, Andriele atua há 11 anos na Sicredi e atualmente ocupa a função de secretária executiva.
Ela conheceu o marido Guilherme em 2011. O casal noivou em 2023 e oficializou a união em novembro de 2024. Cinco meses depois, veio a confirmação da gravidez. A filha Aurora nasceu em dezembro de 2025, quando Andriele tinha 32 anos.
Segundo ela, a maternidade sempre esteve nos planos, mas sem urgência. Antes da decisão, o casal buscou concluir objetivos considerados importantes para iniciar uma família.
“Já tínhamos apartamento quitado, viajamos bastante e aproveitamos muitas experiências. Quando começamos a tentar engravidar, sentíamos que era o momento certo”, relata.
Andriele afirma que a maternidade após os 30 anos trouxe mais segurança emocional e estabilidade. “Tenho mais maturidade, mais paciência e consigo viver essa fase de forma mais tranquila”, destaca.
Ela também relata os desafios da nova rotina. A amamentação exigiu adaptação nos primeiros meses. Agora, próxima do retorno ao trabalho após a licença-maternidade, prepara uma nova organização familiar para conciliar carreira e maternidade.
“O trabalho sempre teve papel importante na minha vida. Voltar será desafiador, mas também importante para manter minha identidade além da maternidade”, afirma.
Mudanças sociais e profissionais
Para o professor de filosofia do Instituto Federal Sul-rio-grandense, Pablo Pimentel, a maternidade tardia está ligada às transformações sociais e ao avanço da participação feminina no mercado de trabalho.
Segundo ele, muitas mulheres que antes se sentiam pressionadas a formar família passaram a priorizar formação acadêmica e inserção profissional.
“A emancipação feminina abriu espaço para que muitas mulheres invistam tempo e energia na carreira profissional sem a obrigação social de constituir família cedo”, analisa.
Além da busca por estabilidade financeira, o adiamento da maternidade também está relacionado ao acesso ampliado das mulheres ao ensino superior e às oportunidades profissionais.
Segundo Pimentel, os ambientes urbanos e universitários oferecem novas possibilidades de carreira e independência econômica, cenário que influencia diretamente o planejamento familiar. “Muitas mulheres passaram a enxergar a construção profissional como uma etapa importante antes da maternidade”, afirma.
O professor observa ainda que a pressão social para ter filhos diminuiu em comparação às gerações anteriores, embora ainda exista em alguns contextos culturais e familiares. Em famílias de classe média e média-alta, por exemplo, cresce o número de casais que optam por ter apenas um filho ou adiar a decisão de formar uma família.
Para Andriele, alcançar objetivos pessoais antes da maternidade trouxe mais tranquilidade para viver a nova fase. Ela destaca que viajar, construir carreira e conquistar estabilidade ajudaram a tornar a decisão mais segura e consciente.
Pimentel afirma que a pressão social para ter filhos diminuiu, embora ainda exista em alguns contextos culturais e econômicos. Ele observa que famílias de classe média e média-alta têm reduzido o número de filhos ou optado por não ter filhos.
O professor também relaciona a maternidade tardia ao ambiente urbano e ao acesso ao ensino superior. Segundo ele, cidades com maior oferta universitária e profissional ampliam as possibilidades de carreira e independência financeira para as mulheres.
“Quanto maior o nível econômico e social, mais forte costuma ser a presença da maternidade tardia”, afirma.
Em números
Idade média para ter filhos:
26,3 anos (2000)
28,1 anos (2022)
Sul e Sudeste: média de 28,7 anos
Mulheres com ensino superior: maternidade aos 30,7 anos, em média
Taxa de fecundidade:
1,55 filho por mulher
menor índice da história
Mulheres sem filhos entre
50 e 59 anos
10% (2000)
16,1% (2022)
Entrevista
Lauren Minuzzi Cremer • Psicóloga clínica para mulheres e perinatal
“Uma maternidade mais planejada”
O que muda emocionalmente quando a mulher decide ser mãe depois dos 30 anos?
A maternidade não envolve apenas questões biológicas, mas também psíquicas e sociais. Apesar de o avanço da idade não favorecer a fertilidade, muitas mulheres chegam aos 30 anos com uma identidade mais estruturada, trajetória profissional consolidada e maior capacidade de reflexão e elaboração emocional. Essa maturidade pode oferecer mais recursos para lidar com as demandas da gestação e da maternidade.
A culpa ainda é um sentimento presente, seja por priorizar a carreira ou por abrir mão dela?
A culpa costuma surgir do desencontro entre aquilo que idealizamos e aquilo que conseguimos realizar. Mulheres que priorizam a carreira podem se sentir culpadas por não terem desejado ser mães antes. Já aquelas que interrompem ou flexibilizam a carreira podem sentir que deixaram parte de si para trás. A psicoterapia pode ajudar a construir uma maternidade possível para cada mulher.
Como as mulheres lidam com o medo de ‘ter esperado demais’?
“Esse medo geralmente está relacionado à fertilidade. Muitas mulheres recorrem ao controle para lidar com essa insegurança: buscam excesso de informações, antecipam cenários e entram em vigilância constante do corpo. Isso pode trazer uma sensação momentânea de segurança, mas também intensifica a ansiedade.
Quais são os principais impactos na saúde mental dessas mulheres?
A ansiedade elevada e a autocobrança aparecem com frequência. Mulheres que adiaram a maternidade muitas vezes construíram trajetórias de alta performance e acabam levando essa lógica para a maternidade, aumentando o risco de frustração e exaustão. Por outro lado, também observamos impactos positivos, como maior consciência emocional e uma maternidade mais refletida e desejada.”

