“Entendi como um presente trabalhar com os golfinhos”

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“Entendi como um presente trabalhar com os golfinhos”

Natural de Taquari, o oceanógrafo José Martins da Silva Júnior, 63, construiu trajetória profissional em Fernando de Noronha, um dos cenários mais emblemáticos da conservação marinha no Brasil. Coordenador do Projeto Golfinho Rotador (@golfinhorotador), criado em 1990, ele soma mais de três décadas dedicadas à pesquisa, educação ambiental e envolvimento comunitário. Mesmo distante, mantém vínculos frequentes com a região de origem

“Entendi como um presente trabalhar com os golfinhos”
Foto: acervo pessoal
Vale do Taquari

Quando surgiu em você o desejo de se especializar neste ramo?

Eu era criança quando pensei em seguir nessa área, depois de assistir a um episódio da série do Jacques Cousteau, um famoso oceanógrafo francês. Aquilo despertou em mim esse desejo. Fiz duas graduações, em Oceanografia Biológica e Geológica, pela Furg, em Rio Grande. Na época eram cursos diferentes, então acabei com dois diplomas. Depois fiz mestrado e doutorado na Universidade Federal de Pernambuco.

E quando você se mudou para Fernando de Noronha?

Com cinco anos, decidi que queria estudar oceanografia. Com 15 anos eu já queria morar aqui. Aos 25, no último ano da faculdade, recebi um convite e vim para Fernando de Noronha. Eu já surfava e mergulhava desde os 14 anos, então esse desejo de viver no mar sempre esteve presente em mim.

Como surgiu o Projeto Golfinho Rotador?

Eu inscrevi projeto para pesquisar golfinhos, mas seria para um amigo meu. Em 13 de março de 1990, durante uma reunião com profissionais do Ibama, surgiu a possibilidade de captar recursos para a conservação. Naquele mesmo dia, fui mergulhar na Baía dos Golfinhos e fiquei cercado por vários deles. Era meu aniversário. Entendi aquilo como um presente e decidi não recusar.

Foi fácil viabilizar o projeto?

Não. Eu consegui inscrever o projeto e fui montando a equipe, mas demoramos para conseguir apoio. Hoje, temos patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Somos o segundo projeto mais antigo patrocinado pela empresa e o único na área em que eles não atuam diretamente.

Como o projeto funciona atualmente?

Hoje são 18 pessoas envolvidas, sendo 15 profissionais contratados por CLT. Temos muito orgulho porque a maioria é da própria comunidade. Desses 15, 12 são naturais de Fernando de Noronha. Muitos começaram ainda jovens, com os pais estudando conosco, e foram se qualificando com a gente. Temos uma agenda muito forte com a comunidade, patrocinando eventos culturais e esportivos.

Quais são os principais eixos de atuação?

O projeto é estruturado em quatro programas: pesquisa, educomunicação ambiental, envolvimento comunitário e sustentabilidade. Trabalhamos desde estudos científicos até ações com visitantes, sempre com foco na conservação do oceano.

O que espera do futuro do projeto?

A gente pensa na perenidade. Manter um projeto de conservação por 35 anos não é simples. O futuro depende de equipe e recursos, mas acreditamos na continuidade, principalmente com a comunidade assumindo cada vez mais esse protagonismo.

Mesmo longe, mantém vínculo com a região?

Sim. Vou três vezes por ano a Taquari, onde ainda moram minha mãe e meu irmão. E, no mínimo, uma vez a Lajeado, onde também tenho parentes. Essa conexão nunca se perdeu. Em Taquari, estudei até o segundo grau e mantenho muitos amigos dessa época. E acredito que a vivência nos açudes e na fazenda foi fundamental. Ali nasceu essa minha relação com a natureza.

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