Educação transforma os homens. Homens mudam o mundo com o voluntariado. A professora Lisiane Anita Scartezini, 54, aprendeu na prática essa ideia, ainda antes de se formar no magistério.
Na infância, criança sensível, fazia companhia aos doentes e distribuía pacotinhos de carne suína à vizinhança. Percebeu que doar o tempo faz bem para a alma. Nunca mais parou. O jeito italiano e extrovertido, pontuado por falas rápidas e divertidas, facilita o relacionamento com a comunidade. Assim, ela cria redes de apoio para a hora da emergência.
A vizinha auxilia na compra do remédio, o freteiro carrega os móveis e todo mundo faz um pouco. Desta forma, a lista de contatos cresce até atingir uma tonelada de doações. Para Lisi, a ajuda deve chegar a quem mais precisa. “Com uma rede de apoio, vi que poderia fazer diferença na vida das pessoas”.
Lisi tem medo de tomar para si a ideia de que o voluntariado é uma ação solitária, por isso, corrobora: “Eu não sou nada sem o meu grupo”. A turma da bondade da professora é composta por Ivaneide Scartezini, Marinês Sartori, a mãe Zita Lorenzini, Luis Ricardo da Silva Lucas e o motorista Elias de Oliveira, que realiza o transporte de cargas. Reúnem-se na garagem da casa dela. Muitos foram ajudados. As fotos comprovam.
Antes das atividades, o grupo reza. Luis é responsável por puxar a oração. Perdeu a casa na enchente, tem problemas de saúde e segue firme, disponível para o voluntariado em turma. Ivaneide, Marinês e Zita largam o tricô na hora da reza. Depois, recomeçam. Confeccionam sapatos, meias, blusões. Há um arsenal de roupas tricotadas esperando para serem doadas, em caixas fechadas. São as mãos de ouro do voluntariado.
Lisi: a professora do riso alto e dos gestos práticos
A professora Lisiane comanda as ações em grupo. Riso alto, gestos práticos e caderno embaixo do braço para anotar as demandas.
O voluntariado se fortaleceu em 1994, após se tornar professora. Ao colocar o pé numa escola carente de Encantado, percebeu que para muitas crianças faltava remédio, óculos e fraldas.
Um dos seus primeiros alunos, agitado, perturbava a aula. O diagnóstico mostrou que a criança não enxergava. A falta de óculos o tornava inquieto e Lisi buscou o acessório. Ali ela viu uma verdade cristalina: julgar é perigoso.
As causas voluntárias começaram a crescer: fraldas para crianças, medicamentos para casas geriátricas, material para crianças de APAEs. A lista é interminável.
Por 12 anos, a professora ensinou no Presídio Estadual de Encantado. As aulas, para homens do regime fechado, marcaram suas manhãs. Atrás da cela, ensinou a força do papel e da caneta. “Sei que não consertei o mundo, mas fiz diferença para alguns”.
Ali, emudeceu de vez a voz de julgamento. “Encontrei pessoas respeitosas e empáticas”. Evita o termo “presidiário”, prefere “reeducandos”. Guarda os presentes dos apenados em uma caixa de lembranças: cartas, corujas de tricô, lembranças que a emocionam. “Com eles, aprendi a não julgar. O sistema está aberto para qualquer um”.
O presídio é formado por homens de muitas vontades: o desejo de um bolo de chocolate, de um afago, do retorno à família. O desejo de aprender a escrever. A um deles, Lisi ensinou a forma correta de pegar o lápis e redigir o texto. Foi libertador a ele, chegar à rodoviária e entender a placa para onde o ônibus o levaria. Mudou o destino.
O voluntariado dentro do presídio se deu na forma de doações de meias e agasalhos para o frio, do desprendimento para humanizar e não julgar. “Eu faria tudo de novo, do mesmo jeito”.
Lisi também liderou uma campanha de donativos de uma tonelada para o Asilo Padre Cacique, em Porto Alegre. Alimentos, fraldas, cobertores e uma multidão de pessoas interessadas em apoiar a causa. Ela levou de Van para a instituição. As imagens comprovam. “O poder do voluntariado é levar alento a quem precisa, fazer diferença na vida de um estranho”, reflete.
Encantado, cidade solidária para quem mostra os recibos
Encantado é uma cidade solidária, acredita ela. Pessoas de outros estados a auxiliaram nas causas que abraça. Divulga todas nas redes sociais. Posta a necessidade de colchões, a demanda por camas ou medicamentos. Presta contas virtualmente.
Cola os recibos no caderno. “As pessoas são generosas quando aprendem a ter confiança e percebem que a doação é feita para quem realmente necessita.”
Acredita que deva ter ajudado três a cinco mil pessoas. O número é flexível, são muitos os beneficiados. O voluntariado orbita em torno dos problemas de saúde de crianças e idosos. Os animais também merecem sua atenção: doação de cobertas e travesseiros para canis estão no seu radar. “Eu sou uma extrema defensora de pessoas e animais”.
O grande ato de voluntariado
Para Lisi, o grande ato de voluntariado foi conseguir a reforma completa da casa de Miguel, menino com leucemia. A professora coordenou uma ação com a Hemocord Biotecnologia para armazenar o sangue do cordão umbilical de Larissa, irmã de Miguel, e tentar ajudar no tratamento da leucemia. A equipe coletou o cordão, mas não houve compatibilidade. Até hoje, a professora Lisi lembra o esforço e o gesto que mobilizou a empresa de armazenamento de células-tronco.
Ser reconhecida como voluntária modelo valoriza sua caminhada, ela diz. Por isso, o projeto Tributo aos Guardiões lhe traz orgulho e emoção. “Somos uma equipe, essa homenagem chega a todos que estão comigo.”
Ela vê no projeto Tributo aos Guardiões o reconhecimento de uma trajetória construída com dedicação, que lhe desperta orgulho e emoção. “Somos uma equipe, essa homenagem se estende a todos que estão comigo”.
O padrinho, símbolo de honestidade
Cirilo Schmidt, 80, é o tio exemplo de honestidade em quem Lisiane se espelhou para fazer um trabalho voluntário ético e transparente. Cirilo Schmidt, tio e padrinho da Lisi. Para ela, representa honestidade, retidão e caráter. O tio foi a figura paterna que a ensinou: preserve o teu nome, ele vale muito, seja sempre decente. Ela abraça o tio e a tia, Ivanice Lorenzini Schmidt.
A trajetória da profe Lisi
- Começou a ajudar os vizinhos na infância
- Ao se tornar professora, imprimiu mais energia ao voluntariado
- Em 40 anos de doação ao próximo, lidera uma rede de cinco pessoas próximas que estão com ela no dia a dia, para amparar idosos, crianças e animais em Encantado
- Ela acredita que sua rede ampliada atinja 300 pessoas, entre pais de alunos, amigos e conhecidos
- De mantas para pacientes a fraldas para crianças, para tudo Lisi dá um jeito de solucionar




