Geovane Griesang, diretor do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), polo Venâncio Aires, vive uma reviravolta inesperada na carreira como ultramaratonista. Vice-campeão da seletiva brasileira de Backyard Ultra, ele foi convocado a representar o Brasil no Mundial da modalidade, disputado na propriedade do criador da prova, Gary Cantrell (Lazarus Lake), no Tennessee (EUA), depois que o campeão nacional, Paulo Sérgio, não conseguiu o visto para viajar. A prova ocorre em 18 de outubro.
“Recebi a notícia com uma mistura de surpresa e emoção. Ser chamado para representar o Brasil, mesmo como vice-campeão, é uma honra enorme”, conta Griesang, que ressalta ter ficado triste pela impossibilidade do campeão: “Fiquei triste, porque o Paulo Sérgio foi o campeão e ele merecia estar representando o país.” Ao mesmo tempo, admite sentir o peso da responsabilidade: “É uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma oportunidade incrível de representar o país.”
O formato do Backyard intensifica a exigência: a cada hora os atletas têm de completar uma volta de 6,7 km; quem não retorna no minuto seguinte está eliminado. O percurso — com trechos técnicos em trilha durante o dia e trechos em asfalto à noite — exige resistência, adaptação ao desgaste variável e grande controle mental. “Vou com o compromisso de dar o meu melhor e honrar essa vaga.”
Preparação e desafios
Com pouco tempo entre a convocação e a prova, o corredor teve de acelerar a preparação. “Tenho intensificado os treinos, ajustando o volume e focando na consistência. Comecei a fazer treinos específicos para a modalidade Backyard, o que não tinha feito até o momento, pois não estava classificado.” Agora, explica, o trabalho foca em simular voltas em horários distintos para adaptar o relógio biológico e a estratégia de ritmo. Sua meta é clara: buscar melhorar a marca pessoal de 51 voltas.
Além do físico, a logística é um desafio enorme: ajustar viagem, fuso horário, alimentação e montar uma rede de apoio local. “A logística é um dos maiores desafios. Adaptar-se ao fuso horário, manter uma alimentação adequada e lidar com o desgaste da viagem exigem muito planejamento”, diz.

Vice-campeão da seletiva brasileira de Backyard Ultra, ele foi convocado a representar o Brasil no Mundial da modalidade, disputado em Tennessee (EUA)
Família e fontes de apoio
A notícia mobilizou família, amigos e colegas. “Todos ficaram muito felizes, orgulhosos… e preocupados”, conta Geovane, que tem duas filhas — a caçula com apenas 1 ano e 8 meses — e admite o custo emocional de ficar longe de casa. Profissionalmente, organiza a viagem por conta própria: busca patrocínios, apoio em produtos (suplementação, tênis, alimentação) e contatos nos Estados Unidos que possam auxiliar na logística. Ele já preencheu um protocolo junto à Prefeitura de Venâncio Aires para tentar acesso a recurso pela Lei da Representação Oficial.
Experiências
A trajetória de Geovane em provas extremas fundamenta sua confiança. Ele aponta a seletiva brasileira da Backyard como a mais desgastante que viveu — pela pressão e pela distância — e destaca a Cassino Ultra Race, de 460 km pela orla, como prova em que foi o primeiro homem a completar e que testou limites físicos e mentais. “Essas experiências me mostraram o quanto a mente precisa estar forte. Em provas desse nível, o corpo pede para parar, mas é a cabeça que mantém a motivação”, reflete.
Missão e expectativa
Humilde quanto às chances diante dos grandes nomes da modalidade, Geovane mantém ambição equilibrada: quer aproveitar a experiência e competir com seriedade. “Quero viver essa experiência ao máximo, mas também estou indo para competir com seriedade e buscar meu melhor resultado possível.”
Sobre a prova
A Backyard Ultra é uma ultramaratona criada pelo norte-americano Gary Cantrell, o “Lazarus Lake”, com um formato tão simples quanto brutal: os atletas precisam percorrer uma volta de 6,7 km a cada hora, largando sempre no início de cada hora cheia, até restar apenas um corredor em prova. Quem não conclui dentro do tempo é eliminado. O percurso se alterna entre trilhas durante o dia e asfalto à noite, exigindo adaptação constante. O desafio vai além da resistência física — a prova testa o limite mental pela monotonia, pelo desgaste acumulado e pelo pouco tempo de descanso entre as voltas. O cálculo de 6,7 km garante que, em 24 horas, o competidor percorra 100 milhas (161 km). No Mundial, realizado no sítio do criador em Bell Buckle, Tennessee (EUA), já houve atletas que superaram 100 voltas, correndo por mais de quatro dias seguidos.
