Os desafios de quem vive a crise no país vizinho

DO VALE À ARGENTINA

Os desafios de quem vive a crise no país vizinho

Alta inflação, desvalorização da moeda, desemprego e aumento da pobreza são a realidade do país. Entre as consequências, está o alto preço dos alimentos, dos serviços e do transporte público, além da insegurança política e econômica

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Atualizado sexta-feira,
15 de Dezembro de 2023 às 07:23

Os desafios de quem vive a crise no país vizinho
A Argentina vive uma das piores crise econômicas de sua história recente Com 40% da população vivendo na pobreza e a inflação ultrapassando os 140% anuais. (Foto: DIVULGAÇÃO)
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Em meio a um cenário de crise econômica, alta inflação e aumento da pobreza, o novo governo da Argentina anunciou nesta semana que irá desvalorizar o peso argentino em mais de 50% em relação ao dólar e reduzir as despesas públicas como parte da luta contra o colapso. O país enfrenta um modelo econômico em queda e, desde domingo, 10, tem Javier Milei como presidente.

Para o Brasil, se por um lado a desvalorização da moeda favorece o turismo e a ida dos brasileiros ao país vizinho, por outro, significa pobreza e insegurança financeira para quem reside na Argentina.

A lajeadense Luiza Roos, 45, foi para a Argentina para estudar em 1998. Ela conta que há 25 anos, o cenário era outro. “Ainda era época de um por um, como eles dizem aqui, que um dólar valia um peso”.

Além disso, Luiza diz que as pessoas se respeitavam e se cumprimentavam nas ruas. Também não havia tantos moradores em situação de pobreza, ou dormindo nas estações de trem e metrô.

Mais próximo do que o país vive hoje, Luiza acredita ter sido o ano de 2001, quando houve uma crise política e econômica. Mas desta vez diz estar pior e a maior parte da população enfrenta dificuldade em pagar as contas, incluindo ela, o marido e as filhas.

“O pior de tudo é comprar alimentos, a comida. A Argentina é um produtor e as pessoas têm dificuldade em comprar a comida”. Luiza também comenta sobre o preço alto da luz, água, transporte público ou viagens.

Instabilidade

Fabricio Bonaldo, 31, também foi à Argentina para estudar, no caso dele, Medicina na Universidade de Buenos Aires, em 2018. No período, a situação econômica do país já apresentava desafios.

Bonaldo conta ter presenciado uma constante desvalorização do peso argentino em relação ao real desde que chegou. E, se há cinco anos a taxa de câmbio era de um para três, hoje é de um para 161,34 pesos argentinos. Em relação à moeda dos Estados Unidos, US$ 1 vale 799,95 pesos argentinos.

“Essa mudança significativa no câmbio reflete os desafios econômicos contínuos que a Argentina enfrenta, e que eu, como estudante estrangeiro, tenho experimentado diretamente”.

Ele diz estar vivendo no país, o que nunca tinha vivido antes: a mudança diária nos preços. “Se compro um produto hoje, no dia seguinte já não é o mesmo preço, e em uma semana é provável que já esteja o dobro do valor. Essa volatilidade não apenas torna desafiador o planejamento financeiro diário, mas também traz uma sensação de incerteza para o futuro”.

Falta de confiança

Jornalista e editora do eDairyNews, site de notícias argentino, Valeria Hamann afirma que a crise financeira é o resultado das políticas econômicas e de um modelo econômico que perdeu o fôlego. Ela acredita que, hoje, a maior dificuldade enfrentada é a falta de confiança no governo, que vai demorar a ser recuperada.

Natural da Argentina, Valeria destaca que o país vem enfrentando esses problemas há 50 anos, e a cada uma década, enfrenta uma crise como a atual. A jornalista diz que, embora a situação econômica seja muito grave, o clima das pessoas em geral é de esperança. “Estamos cientes de que dificuldades ainda maiores estão por vir, até que a ordem e a coerência sejam finalmente alcançadas. Temos certeza de que vamos melhorar”.

Entrevista

Mateus Dalmáz • historiador

“Os modelos de desenvolvimento dos últimos 30 anos vêm fracassando invariavelmente”

Quais as maiores dificuldades que o país enfrenta hoje?

Dalmáz: Internamente, a desindustrialização, a desvalorização da moeda, a inflação, a queda do PIB, o desemprego e a carência do público fizeram com que a população perdesse confiança não apenas na moeda nacional e nos partidos políticos tradicionais, como também nos modelos de desenvolvimento econômico. Desde a década de 1990, o eleitorado argentino vem oscilando nas urnas entre um projeto liberal e um desenvolvimentista. Externamente, a Argentina perdeu espaço nos fóruns multilaterais sobre desenvolvimento, integração, direitos humanos, preservação ambiental e segurança internacional pelo simples fato de não ter formulado uma clara política exterior em torno desses temas, enquanto se ocupou com as demandas internas.

O que fez a Argentina chegar nesta crise?
Dalmáz: Do ponto de vista econômico, o legado do regime militar argentino, no início dos anos 1980, foi, por um lado, um parque industrial diversificado e, por outro, déficit público, inflação e dívida externa. O governo Raul Alfonsín (1983-1989) apostou no mesmo modelo de desenvolvimento da ditadura militar, que consistia no compromisso do Estado com emprego e renda, o que seguiu fomentando o consumo, a inflação, a assistência social e a dívida externa. Os presidentes seguintes fracassaram no modo de solucionar a crise socioeconômica. Os modelos de desenvolvimento dos últimos 30 anos vêm fracassando invariavelmente.

Agora com nova presidência, o que se pode esperar?

Dalmáz: Javier Milei se apresentou nas eleições como um crítico às instituições democráticas, como um radical anti-modelo do bem-estar social, e como um radical defensor do liberalismo econômico. O governo argentino indica que aposta num aprofundamento da recessão econômica como forma de conter a alta nos preços e valorizar a moeda. A partir disso, espera atrair investimentos, gerar emprego e aumentar a arrecadação.

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