As falhas e os aprendizados após a tragédia

CHEIA DO TAQUARI

As falhas e os aprendizados após a tragédia

Monitoramento eletrônico ficou fora de operação e criou vácuo de informações. As previsões das Defesas Civis quanto ao nível da água subestimaram intensidade da enchente. Especialistas alertam para necessidade de criar uma sala de situação regional, instalar mais réguas e melhor o sistema automático de monitoramento do nível dos rios

As falhas e os aprendizados após a tragédia
Foto: Aldo Lopes
Vale do Taquari

A inundação desta semana se tornou a maior tragédia natural da história do Rio Grande do Sul. Inclusive, existem registros concretos de que o nível do Rio Taquari tenha sido superior ao registrado na cheia de 1941.

É o que afirmam os pesquisadores Sofia Royer Moraes (Engenheira ambiental, Doutoranda em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental), e Rafael Rodrigo Eckhardt (Mestre em Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto), ambos professores da Univates. “Temos elementos que indicam que o nível da inundação do Rio Taquari superou, pelo menos, 50 centímetros a inundação de 1941”, realça Eckhardt.

Pelo oficial, o nível da água alcançou 29,53 m em Lajeado (CPRM) e 29,62 m em Estrela. Pelo impacto da destruição, ficaram claras as limitações dos alertas junto à população ribeirinha, o apagão de dados nos períodos críticos, além das deficiências quanto à comunicação e a previsibilidade da chegada da enchente nas áreas habitadas.

“Um ponto importante que influenciou bastante foi a diferença entre a chuva prevista e a que realmente aconteceu”, diz Eckhardt. A percepção das pessoas sobre a chuva nas cidades de Muçum, Encantado, Roca Sales, Encantado, Lajeado e Estrela pareceu menor do que nas cabeceiras do rio.

“Isso criou uma percepção social equivocada e de menor risco. As pessoas não tinham ideia do total de precipitações nas cabeceiras e do tanto de água que iria descer”, destaca o professor. De acordo com ele, a clareza na comunicação sobre os alertas de chuva e nível dos rios em tempo real é crucial, pois as pessoas muitas vezes não conseguem distinguir estimativas e o risco de eventos extremos reais. Isso tudo resulta em uma resposta inadequada diante do episódio, frisa.

Tanto Eckhardt quanto Sofia enfatizam como aprendizado fundamental a necessidade de melhorar os sistemas de monitoramento e de alerta. Até mesmo com instalação de sirenes em pontos habitados e das áreas de inundação. “Mais réguas em pontos acessíveis das cidades. Tanto para leitura manual quanto nos sistemas eletrônicos, com mais de um formato de coleta, para caso a internet falhar, a telefonia sair do ar, haja ligação por satélite.”

Para Sofia, “precisamos ampliar e melhorar as informações sobre o comportamento do Rio Taquari e principais afluentes”. Também sugere investimentos em batimetria (levantamento do perfil da parte molhada do rio, com os sedimentos), da topografia e da ocupação do entorno do rio.

Do ponto de vista da organização regional, Eckhardt acrescenta a importância de um esforço conjunto para criação de uma sala de monitoramento regional. Em que haja presença de autoridades políticas, das forças de segurança, defesas civis e também de líderes comunitários e empresariais.

Em Estrela, bairro das indústrias. Condições das casas terão de ser avaliadas antes do retorno dos habitantes (Foto: Felipe Neitzke)

Cultura coletiva e efeito pedagógico

Os pesquisadores percorreram as áreas atingidas para entender até onde chegou a lâmina da inundação, para conseguir mapear e compreender as proporções desse episódio. Esse trabalho começou já na segunda-feira, momento em que a água começou a subir.
“Nos chegaram relatos de pessoas que foram avisadas que chegaria a no máximo 27 metros e foram dormir. Quando viram, estavam com água dentro de casa e com dificuldades de sair”, relembra Eckhardt.

Por outro lado, também relata ter visto famílias em áreas mais afastadas que já estavam com os pertences em frente de casa aguardando a chegada do socorro. “Precisamos ser mais efetivos na comunicação com as famílias. Dotar as pessoas de informações e também de como proceder em episódios extremos.”

Sofia concorda e acrescenta: “Temos de criar uma cultura de prevenção e de que as inundações são frequentes, que algumas são excepcionais e muito perigosas. Dessa forma, as pessoas precisam estar preparadas para sair e procurar lugares seguros.”

“Essa enchente não pode cair no esquecimento”

A engenheira ambiental Sofia Moraes enfatiza a preservação da memória das inundações como uma forma de ajudar na formação de uma cultura social sobre os riscos dos desastres. Para ela, é fundamental criar marcos em lugares públicos, em escolas, parques, prédios, para que isso tenha um efeito pedagógico.

Em meio a esta enchente, a métrica usada após as medições eletrônicas falharem foi a régua instalada no prédio da Associação Comercial e Industrial de Lajeado (Acil), instalado logo após a inundação de 2020. “Essa enchente não pode cair no esquecimento. Fizemos um grande movimento em 2020, após o rio alcançar 27 metros”. Mais réguas ajudariam no acompanhamento da subida do rio nas cidades, frisa.

Outra ideia apresentada naquela época foi construir um monumento das enchentes no Parque Professor Theobaldo Dick. A proposta foi feita pela Secretaria de Planejamento de Lajeado e bastante criticada nas redes sociais.

Para entender a extensão dessa enchente, Sofia destaca a ocorrência de eventos excepcionais ao longo da história, como as inundações de 1873 e 1941. “Temos dados para acreditar que essa foi maior” reforça.

Em relação ao impacto social, não há nenhuma dúvida. Na avaliação dela, passa por fenômenos naturais, como o ciclone extratropical que causou toda a chuva, a fenômeno do El Niño, o aquecimento global e as mudanças provocadas pela urbanização das cidades nas áreas de inundação do Rio Taquari.

“Essa seria uma medida muito importante. Todos os visitantes teriam o visual de até onde vão as cheias”. De acordo com ela, a tragédia serve como um lembrete da necessidade de ações coordenadas e contínuas para mitigar os riscos de futuras inundações.

Ponte histórica de Muçum, Brochado da Rocha, foi destruída no trecho rodoviário pela fúria do Rio Taquari (Foto: Felipe Neitzke)

Interferência das barragens

Prefeitos dos municípios da região dos Rios das Antas questionam a operação em três barragens na localidade. O grupo quer informações sobre o funcionamento do Complexo Energético Rio das Antas e se existe a possibilidade das unidades terem interferido sobre a inundação, tanto na velocidade quanto na intensidade do fenômeno.

A administração de Bento Gonçalves notificou um pedido de explicações à Companhia Energética Rio das Antas (Ceran) e também comunicou o procedimento ao Ministério Público Federal (MPF).

Por meio de nota, a Ceran nega que tenha ocorrido alguma interferência nas operações. No texto, a companhia informa que o Rio das Antas alcançou a vazão mais alta desde a construção das barragens.

Pela posição oficial, a Ceran afirma que os complexos não têm capacidade de armazenar água, e isso impossibilita o controle da vazão natural do rio “que teria ocorrido independentemente da existência das barragens.”

Balde d’água em um pires

Na avaliação de Sofia, as três barragens terem sido abertas ou não, têm relação mínima com a magnitude e o impacto da cheia. “É como derramar um balde d’água em um pires”, compara.

De acordo com ela, um estudo de 2015 concluiu que a contribuição das barragens na região para o controle das inundações é insignificante. “A verdade é que as barragens questionadas têm pouca interferência sobre o fenômeno das enchentes e não conseguem contribuir no controle. Elas não ajudam e também não atrapalham”, afirma.

Obras, dragagem e áreas de preservação

A bacia hidrográfica do Rio Taquari-Antas é uma das mais complexas do RS e do Brasil, afirma a pesquisadora. De acordo com ela, existem áreas mais altas, geografias acidentadas e várzeas. Essas características interferem na velocidade do deságue e no acúmulo de água.

Com todos os rios que compõem a bacia hidrográfica até a ligação com o Rio Jacuí, a área pela qual passam os cursos d’água representam 9% do RS. As chuvas na cabeceira de sábado até segunda-feira passaram dos 200 milímetros, quando na nossa região choveu a metade.
“Qualquer obra para conter a água não seria uma solução. Seria transferir o problema para outras cidades. Colocar diques em Lajeado faria outras áreas de Estrela e de Cruzeiro do Sul inundar ainda mais”, afirma.

Para ela, ter mais estudos e conhecimentos sobre o comportamento da água, elevar as cotas de construção em municípios com áreas de inundação, além de preservar a mata ciliar, teriam mais efeitos do que grandes obras.

A dragagem do rio, com elevação da profundidade também seria ineficiente, avalia Sofia. “É uma solução impraticável. Precisamos de uma abordagem multifatorial, com foco em monitoramento, alerta, educação e medidas estruturantes nas cidades”, reforça a pesquisadora.

“A engenharia tem soluções para mitigar impactos das cheias”

O professor do Curso Engenharia Civil da PUC e presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (Núcleo RS), Cleber Floriano, tem uma visão diferente. Para ele, investimentos com construção de barragens em cascata, muros de contenção e até mesmo diques podem ser alternativas.

“A presença das cidades, da atividade humana, modifica o ambiente. O que vimos nesta enchente também é resultados dessas interações. Podemos criar meios de reter água para controle de cheias”. Para tanto, adverte: “qualquer obra neste sentido deve ser precedida de um grande estudo técnico sobre os efeitos que podem causar.”

Um dos impeditivos para tais investimentos está na legislação. Hoje a regra nacional prevê barragens apenas para geração de energia. Qualquer edificação para acumular água, para controlar níveis, não é vista como de interesse público.

Essa barreira legal cria insegurança jurídica para projetos neste sentido e inviabiliza os licenciamentos ambientais. Há um projeto no Senado para estabelecer critérios dessas intervenções, diz Floriano. “Temos diversos exemplos pelo mundo de sistemas que reduziram danos em fenômenos de enchentes. Nossa lei atual precisa ser atualizada para avançarmos nisso.”

Reconstrução do Vale

Na segunda-feira, Univates, autoridades públicas da região, líderes comunitários e empresariais, agendam uma reunião para avaliar as condições de infraestrutura das cidades após a enchente.

O encontro está pré-agendado para ocorrer das 16h às 18h na universidade. Conforme a coordenadora do curso de Engenharia Civil, Rebeca Jéssica Schmitz, é essencial avaliar as condições das edificações afetadas. “Não temos ideia de como estão as residências, as estradas, as pontes. Isso só após a limpeza para termos uma noção.”

Afirma que a universidade colocará técnicos e especialistas para contribuir na análise e diagnóstico das infraestruturas regionais. “O governador falou em reconstruir o Vale. Mas, por onde vamos começar? Precisamos desses estudos para ter uma noção de como estamos e o que precisa ser feito.”

Neste sentido, a própria avaliação em termos de prejuízos econômicos será um dos aspectos verificados. “Ao que tudo indica, o governo federal e estadual farão aporte de recursos. Para termos claro o quanto foi o prejuízo, temos de partir de uma posição técnica.”

O que é preciso fazer

Algumas medidas apresentadas pelos especialistas para reduzir o impacto social das enchentes:

Monitoramento e previsibilidade

  • Aprimorar sistemas para avaliar o montante de chuvas e os níveis dos rios. Inclusive com réguas fixas de leitura manual nos rios que deságuam no Taquari.
  • Investir em tecnologias de sensores e réguas para coleta de dados em tempo real.
  • Aumentar a frequência de atualização das informações para melhorar a resposta em situações de risco.
  • Considerar a implementação de sistemas de alerta sonoros para comunidades em áreas suscetíveis.

Estudo hidrológico detalhado

  • Pesquisa abrangente para compreender o comportamento do Rio Taquari e dos afluentes.
  • Batimetria do leito do Rio Taquari de Santa Tereza até Taquari. Com ela, é possível avaliar a topografia do fundo do rio, profundidade, volume de água e outras características.
  • Investigar as mudanças ao longo do tempo no curso do rio, incluindo seu alargamento e aumento de profundidade.

Comunicação e consciência coletiva

  • Criar uma cultura de conscientização sobre o risco de inundações em áreas habitadas.
  • Educar a população sobre como reagir a alertas e evacuações.
  • Trabalhar com escolas e comunidades para aumentar o entendimento das cheias e como conviver com elas.

Planejamento e ordenamento urbano

  • Estabelecer cotas distintas em cada uma das áreas alagáveis.
  • Prever locais de risco ao longo do Rio Taquari.
  • Considerar medidas de restrição ou regulamentação para evitar construções em pontos suscetíveis.
  • Mais réguas e monumentos em locais públicos para ajudar no entendimento da sociedade sobre o histórico das enchentes.

Recuperação das matas ciliares

  • Promover a restauração e preservação das matas ciliares para funcionar como barreira natural nos períodos de cheias.
  • Entender o papel das matas ciliares na absorção de água e a importância para mitigar prejuízos em áreas urbanas.

Avaliação técnica de infraestrutura

  • Realizar inspeções técnicas em residências e edificações após a limpeza para garantir a segurança estrutural.
  • Avaliar o estado de pontes, estradas e outras infraestruturas.
  • Considerar a necessidade de reconstrução ou reparo de edificações, estradas e pontes.

Coordenação e apoio governamental

  • Estabelecer uma coordenação eficaz entre os municípios afetados.
  • Buscar apoio financeiro e logístico em níveis federal e estadual.
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