Além das páginas: o resgate dos livros físicos e a força da literatura

Cultura em Lajeado

Além das páginas: o resgate dos livros físicos e a força da literatura

Apesar da facilidade dos dispositivos digitais, dados recentes mostram a retomada na venda de livros físicos e animam o mercado editorial. Crianças e jovens aparecem como os principais interessados

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Além das páginas: o resgate dos livros físicos e a força da literatura
Em Lajeado, Biblioteca Pública recebe cerca de 70 novos leitores por mês. Ao todo, são quase 15 mil pessoas cadastradas na instituição, com diferentes faixas etárias (Foto: Bibiana Faleiro)
Lajeado
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O envolvimento com a literatura pode surgir em qualquer idade e passa por todas as profissões e classes sociais. Isso é o que fica evidente na 17ª Feira do Livro de Lajeado, que tem programação até domingo, 20, na Praça da Matriz. O que o evento mostra também é que não faltam formas de se envolver com essa temática. Além disso, se trona uma forma de resistir ao mundo digital.

Hoje, a disponibilidade de obras literárias na internet vem mudando a realidade dos leitores no país. Em 2022, pela primeira vez, as livrarias virtuais venderam mais livros do que os estabelecimentos físicos, segundo a pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, coordenado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros.

Apesar dessa mudança, ainda há espaço para aqueles leitores que não abrem mão do livro físico. Este é o caso da arquiteta e urbanista Bárbara Pretto, 26. Na vida escolar, a leitura era apenas uma obrigação. O cenário mudou quando ela entrou na faculdade e, na bolsa de iniciação científica, precisava ler muitos artigos. Ali, iniciou uma paixão que se mantém até hoje.

Por um período, Bárbara teve um Kindle, leitor de livros digitais da Amazon, mas não se adaptou. “O que eu gosto é de comprar livros, aquela emoção de esperar o livro chegar em casa. E aquele toque de página por página, lendo e apreciando o livro. Eu acho que as versões eletrônicas não permitem isso”, observa.

Bons negócios

Proprietária da Livraria Vitrola, de Lajeado, Simone Camara percebe a Feira do Livro como uma boa oportunidade de negócios (Foto: Bibiana Faleiro)

De forma física ou virtual, o crescimento do número de leitores do país é percebida pelas livrarias. Uma pesquisa na área também mostra que as vendas cresceram 4,2% no primeiro semestre de 2023, em relação ao mesmo período do ano passado.

Como incentivadores, estão eventos como a Feira do Livro de Lajeado. Proprietária da Livraria Vitrola, Simone Camara percebe o evento como uma boa oportunidade de negócios. Com mais de 14 mil obras disponíveis na loja localizada no Shopping Lajeado, Simone pretende vender mais de mil títulos até domingo. Entre os que têm mais saída, ela cita as obras infantis e infanto-juvenis.

“É o público que a feira atrai. Mas a ideia é atrair outros públicos também. A gente trouxe variedade de títulos para conseguir atender o maior número de pessoas”, destaca. Simone também ressalta a possibilidade que a feira oferece de divulgar o trabalho da livraria. “Uma oportunidade de mostrar para o público que estamos em Lajeado também”.

Além das livrarias da região, expositores de cidades como Porto Alegre também participam da feira. É o caso da “RL Comércio de Livros”, que vem a Lajeado para o evento há sete anos. Proprietários da marca, Rudimar Silva e Bete Abreu esperam vender mais de R$ 6 mil em livros na cidade. Sem uma loja física, o forte dos vendedores está nas feiras e exposições.

Gêneros em destaque

Responsável pela Livraria Kadernu’s, de Arroio do Meio, Patricia Andreia Hollmann, também percebe boa movimentação na feira. “Creio que esse ano vamos superar as vendas dos outros anos. Em geral, a busca por livros físicos tem aumentado”, destaca.

Entre os gêneros mais procurados, estão romances, títulos infanto-juvenis e infantis. “É importante vir nas feiras, porque em algumas cidades não há livrarias locais. É importante essa oportunidade de oferecer algo a mais para o pessoal da cidades”.

70 novos leitores

Coordenadora da Biblioteca Pública de Lajeado, Kellen Giongo destaca um grande número de usuários que visitam a instituição, desde adolescentes e pais que retiram livros para os filhos, até o público idoso. Ela ressalta que a biblioteca sempre tem pessoas novas circulando e fazendo uso dos acervos.

Entre os mais requisitados, estão as literaturas infantis e infantojuvenis, em especial, livros de fantasia direcionados a este público. Também há grande retirada de livros norte-americanos de romances espíritas, pelo público adulto, além de obras de autoajuda.

“Recebemos, em média, 70 novos usuários por mês, e o número total de leitores cadastrados já chega próximo aos 15 mil”, ressalta Kellen. Ela percebe um aumento nesse número já que, em 2022, eram cerca de 40 novos associados da biblioteca por mês.

Desafios

Por outro lado, apesar do aumento no consumo de livros físicos, ainda são percebidas dificuldades na formação de leitores pela região. Doutora em Letras, a professora Rosiene Haetinger percebe a necessidade do engajamento de diferentes setores para amenizar os obstáculos, como a família, professores, sociedade civil e poder público.

“Em relação à família, é importante que haja um incentivo à leitura em casa. Dar livros de presente, frequentar bibliotecas públicas, feiras do livro, e tudo isso pode ocorrer desde a primeira infância”, avalia.

Rosiene ainda destaca a importância dos profissionais da educação estarem em constante aprendizado. Já como demanda ao poder público, ela cita a necessidade de criar e manter políticas públicas para a promoção da leitura, tanto em relação ao aumento e renovação do acervo nas escolas, quanto na formação de professores e no fortalecimento das bibliotecas escolares.

“Isso é algo urgente nas escolas: é preciso ter bibliotecas abertas, com atendimento especializado. Não podemos aceitar que haja bibliotecas fechadas. Afinal, este é o espaço onde os sonhos e a esperança são possíveis”, reforça.

Meire Brod – escritora e proprietária da Libélula Editorial


“Qualquer forma de leitura é válida”

Conforme dados do Painel do Varejo de Livros no Brasil do ano passado, foram vendidos 58,61 milhões de livros no país, o que corresponde a 1,7 milhão a mais do que em 2021. O que explica essa volta à procura dos livros físicos?
Acompanho o mercado editorial e percebi, bem no olho do furacão da pandemia, que essa procura estava aumentando. Penso que durante a covid-19, muitas pessoas passaram a ler mais e valorizar os livros como forma de preencher um espaço de tempo que acaba sobrando, além de poder relaxar ou diminuir a ansiedade. A busca do conhecimento pode não ser o motivo primário, mas acabou entrando como um ganho.

De que forma o mercado editorial pode se tornar novamente atraente, em especial, para leitores jovens, que já nasceram envolvidos com a tecnologia?
Voltamos à questão do hábito. Ela tem que ser estimulada desde cedo, em casa, nas escolas, nos círculos sociais que a criança frequenta. Os jovens de hoje já nasceram num mundo digital. Para eles, não existe dificuldade de ler um livro todo no celular. Então, por que não aproveitar a tecnologia e torná-la uma aliada? Tenho 59 anos e, como escritora e editora, óbvio que gosto de ler um livro físico. Mas não consigo evitar o fascínio de ler a qualquer momento que tiver oportunidade um livro que baixei no meu Kindle. Isso tornou-se um hábito. Hoje as pessoas leem ou são estimuladas a comprar e-books no Tik-Tok. Canso de ler “best-seller no Tik-Tok”, ou “milhões de leitores no Tik-Tok”. Claramente esses jovens estão se iniciando no mundo da leitura por meio de tecnologias. Agora, o que é preciso, é gerar conteúdo de valor. É um passo ainda a ser conquistado. Só não podemos ser preconceituosos em relação a isso. Sou da opinião que qualquer forma de leitura é válida.

Quais os principais desafios na formação de novos leitores?
Nosso país conta com milhões de apaixonados por literatura, muitos estudantes, a maioria sem o acesso desejado aos livros. Faltam bibliotecas adequadas nas escolas, com acervos renovados e conservados. Falta uma política de incentivo ao mercado editorial. Temos de criar um ecossistema de leitura.

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