Filmes, peças e memórias em um prédio histórico

CINE ALVORADA

Filmes, peças e memórias em um prédio histórico

Construído para ser a segunda opção de cinema de rua em Lajeado, o Cine Teatro Alvorada faz parte das lembranças dos moradores da cidade. Hoje o local passa por reformas e receberá um novo destino

Por

Atualizado domingo,
12 de Março de 2023 às 09:35

Filmes, peças e memórias em um prédio histórico
Prédio, agora comprado pela Lojas Benoit, faz parte das lembranças de muitos lajeadenses. Cine Teatro Alvorada funcionou entre as décadas de 1960 e 1990. Créditos: Júlia Amaral e Divulgação
Lajeado
Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Quem passa pela Avenida Senador Alberto Pasqualini, na esquina com a Bento Gonçalves, talvez já tenha reparado que as lojas da Galeria Alvorada não estão mais lá. O prédio, agora comprado pela Lojas Benoit, faz parte das lembranças de muitos lajeadenses. Isso porque na vida antes das pequenas telas e dos streamings, a busca por entretenimento exigia sair de casa e buscar por um teatro ou cinema.

Na Lajeado de 1960, a procura era tanta, que apenas o Cinema Avenida não deu conta da demanda. Foi no fim daquela década, em setembro de 1966, que uma Sociedade Anônima, grupo formado por diferentes pessoas da cidade e liderado por Norberto Jaeger, Avelino Tallini e Lauro Mathias Muller, decidiu investir no Cine Teatro Alvorada.

Antes do cinema, o local era pouco movimentado e longe do centro da cidade. Em pouco tempo, o Cinema Avenida, que chegou a ser o único da cidade, perdeu completamente seu espaço para as 1023 poltronas de modelo cinerama Kastrup e para os projetores Gamount-Kalee do Alvorada. Quando um filme muito famoso entrava em cartaz, os moradores chegavam a formar duas quadras de fila.

Parte da história do cinema

As grandes filas são uma cena que Decio Schnack, 83, mantém na memória. Um dos membros fundadores do cinema, ele também trabalhava com a administração do lugar, o que considerava um “bico”. “Era uma necessidade ter um segundo cinema, a cidade estava carente na época”, lembra.
Schnack lembra que o filme “Doutor Jivago” foi um dos que mais fez sucesso e ficou em cartaz por mais tempo que os demais. Mas, aos poucos, com o surgimento e popularização das televisões, o movimento no cinema começou a diminuir.

Na década de 1970, Schnack conta que o controle acionário do Cine Teatro Alvorada S/A. foi vendido para uma distribuidora de filmes. “Continuou sendo um cinema e a empresa explorou mais a atividade. Por sua vez, não sei em que época, em que ano, ela também parou, porque não tinha resultado”, recorda.

Depois disso, o prédio passou pela Igreja Universal e na sequência acabou sendo adquirido por NJ Participações Ltda., que transformou o local em galeria. Foi nesse período, já nos anos 2000, que a sala de cinema virou um centro comercial com estacionamento no subsolo. O cinema encerrou as atividades em 1996.

Acervo preservado

Parte do que restou do cinema está hoje com o empresário Leo Katz. O saudosismo pelos anos de ouro do cinema de Lajeado e a vontade de recriar um espaço de histórias e cinema na cidade o motivou a guardar em um depósito 80 poltronas do antigo Cine Alvorada.

Ele conta que as cadeiras eram guardadas pela Comunidade de Santa Clara. “O salão comunitário era utilizado para baileco, reuniões, palestras. Essas cadeiras eram um estorvo. Tanto que me disseram: Tu dá duas cadeiras plásticas dessas de empilhar e te dou a poltrona”, conta. Foi o que ele fez. Há oito anos, deu o dinheiro para comprar 160 cadeiras plásticas e levou as poltronas. Desde então, a ideia é criar um pequeno teatro para levar às escolas e estimular a arte.

Teatro no cinema

Katz foi um dos mais importantes produtores de teatro da época, e também dirigia a Escola de Samba Deixa Sambar. Ele lembra que, além dos filmes, o espaço do Cine Alvorada recebia grandes nomes do teatro e já trouxe a Lajeado artistas como Walmor Chagas, Susana Vieira, Cláudio Marzo, entre outros famosos.

O ex-produtor lembra de ficar na porta do cinema e agradecer a presença de todos que saíam do local. O público médio que ia assistir as apresentações era de pouco mais de 400 pessoas. Algumas peças chegaram a 850 espectadores.

Ele ainda recorda uma peça que causou alvoroço na cidade. “As pessoas diziam que ‘eram os pelados’. Mas era um musical moderno. Deu cambista de Porto Alegre aqui, saiu na Zero Hora. Foi a melhor bilheteria que tivemos”. A peça que Katz se refere é a Oh Calcutta!

Os teatros que Katz trazia tinham muitos patrocinadores e, para garantir a parceria, ele fazia questão de aparecer nos escritórios e empresas com os artistas. O momento era de surpresa e muitas fotos. Com o tempo, o cinema perdeu movimento, e era mais vantagem ser alugado para o teatro do que para as matinês.

Formaturas no Cine Alvorada

Antes de existir uma universidade na região, o Vale do Taquari contava com duas faculdades. Na década de 1980, as formaturas da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, sob direção da professora Marisa Martins Hädrich, ocorriam no Cine Teatro Alvorada. “As formaturas eram centralizadas na figura da direção, pois ainda não existia Reitoria, e ocorriam lá por não haver auditório das Faculdades nem outro espaço com aquela capacidade”, conta.

No ano passado, a primeira formatura e ensino superior do Vale do Taquari completou 50 anos. A ex-professora lembra que também colou grau lá, em 1972. As solenidades ocorreram até meados dos anos 80. Depois disso, passaram a ocorrer no Clube Sete de Setembro. “As formaturas no Cine recebiam cerca de mil pessoas. Eram magníficas, solenes”, lembra.

Quase câmara de vereadores

Em 2017, uma equipe de corretores da Imobiliária Lajeado entregou uma proposta oficial de venda da Galeria Alvorada Center aos vereadores para instalar a sede da Câmara. O custo era de R$ 6,9 milhões, com possibilidade de parcelamento até 2025. O ex-vereador Waldir Blau era presidente da Câmara na época e conta que o projeto não foi adiante por não ter unanimidade na votação dos vereadores.

Com a aquisição do prédio pelas Lojas Benoit, agora, a estrutura do antigo cinema aguarda um novo destino. De acordo com a equipe de marketing, neste momento serão feitos apenas pequenos reparos na estrutura. A ideia é transformar o espaço em duas salas comerciais.

 

Outros teatros pela cidade

Em 17 de novembro de 1955, foi fundado o Lajeado Cine Hotel, que tinha o projeto de três pavimentos na esquina onde hoje fica a prefeitura. O projeto fracassou, culminando no surgimento do Cine Teatro Alvorada, na Avenida Pasqualini.

Antes disso, na década de 20, a então Sociedade Ginástica, em Lajeado, exibia filmes mudos acompanhados por gramofones ou mini-orquestras. De 1916 a 1920, também funcionou na cidade o Cine Theatro Brasil, que teve 96 exibições no histórico Sobrado de Fialho de Vargas, na Júlio de Castilhos. A média por sessão era de 200 pessoas.

Mas uma das primeiras salas de cinema e teatro da cidade era de propriedade da União e Bar Ideal, em frente à Praça Gaspar Martins, na Rua Marechal Deodoro. O prédio e o arquivo foram destruídos pelo incêndio de 5 de julho de 1935.

Também houve na cidade o Cine Café, o Cinema Lajeadense e o Cinema Teatro Fregoli. Hoje, Lajeado conta com um no Shopping Lajeado. A reabertura do cinema, com uma nova estrutura da Arcoplex foi em agosto de 2013.

Acompanhe
nossas
redes sociais