Adaptação ao mercado obriga redução em empresas de tecnologia

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Adaptação ao mercado obriga redução em empresas de tecnologia

Gigantes mundiais anunciam cortes no quadro de funcionários. Situação traz impactos para o país e também para a oferta de profissionais de TI na região. Organizações adiam projetos arrojados frente à instabilidade econômica americana e europeia

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Adaptação ao mercado obriga redução em empresas de tecnologia
No Vale, demanda por profissionais de TI segue alta. Com retração mundial, empresas locais acreditam que exista melhores condições para processos seletivos. Crédito: Filipe Faleiro
Vale do Taquari
Gustavo Adolfo 2 - Lateral vertical - Final vertical

O movimento internacional sobre a empregabilidade em Tecnologia da Informação (TI) aponta para uma constante redução nos quadros. Mais de 11 mil pessoas demitidas da Amazon, incertezas sobre funcionamento do Twitter, perda de espaço da Meta (controladora do Facebook), Coinbase e Snap anunciando “busca de novas oportunidades”.

Em geral, são mais de 137 mil desligamentos em empresas do segmento de janeiro a novembro, conforme acompanhamento da plataforma Layoffs.fyi. O fim do ano mostra uma adequação em curso no mercado das empresas de tecnologia frente ao cenário da economia global, com reflexos sobre o mercado nacional e também regional.

Os motivos de cada empresas são distintos, ainda assim, parte de alguns fatores comuns. Primeiro a retração nos financiamentos dos projetos por parte de conglomerados econômicos, também a recessão nos Estados Unidos e os impactos da guerra nas relações comerciais entre nações europeias.

“A bolha furou. Aquela realidade de contratações exorbitantes, do iniciante com salário de sênior, de uma hora para outra acabou”, afirma o CEO da BI Machine, Douglas Scheibler. Como se trata de um mercado global, as adaptações iniciadas nos países do eixo norte replicam sobre todas as outras. “Há uma deflação como um todo. As empresas estão menos dispostas a assumir projetos arriscados, de lançar softwares, produtos. Por um lado vem de uma linha da liquidez financeira das empresas, de priorizar o caixa e assumir menos riscos.”

O Head Hub de Inovação da Vibee Unimed, Rafael Zanatta, atua no desenvolvimento de startups. Pela organização, já passaram 48 empresas voltadas à busca de soluções tecnológicas. “As receitas começaram a diminuir e com dificuldade de novas captações, houve uma redução nas equipes daqueles projetos mais arrojados.”

Para ele, o mercado atual obriga um “apertar de cintos”. “Os investidores restringiram o aporte. Olharam para dentro das operações e viram um retorno menor do que o esperado. Então as empresas de tecnologia precisam se adaptar para sobreviver.”

Apesar da desaceleração nos negócios da área e do ápice de desligamentos no mundo em novembro (mais de 47 mil), ainda existe uma grande demanda por profissionais de TI no país e no RS. Conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o Brasil abriu 110 mil postos no setor de TI em 19 meses.

O último saldo negativo registrado pelo setor foi em novembro de 2020, com 21,5 mil demissões e 19,4 mil contratações. Desde então, a área somente teve altas na quantidade de funcionários admitidos pelo segmento. Somente no ano de 2022, foram geradas 30,6 mil novas vagas na área.

Impacto nas vagas da região

Levantamento feito pelo grupo de TI integrante do Pro_Move Lajeado aponta para uma demanda próxima de 500 profissionais na região. “O nosso problema continua sendo qualificação. Temos poucas pessoas com conhecimento para assumir esses postos”, avalia a coordenadora de Inovação e Projetos Especiais do governo de Lajeado, Mariela Portz.

“Essa reorganização no cenário global tem mais relação para profissionais já desenvolvidos, com maior conhecimento técnico. Na nossa região, ainda precisamos de pessoas à base das empresas”, avalia.

Na BI Machine, por exemplo, Douglas Scheibler prevê a necessidade entre 6 até 10 vagas, a maioria para o setor comercial, diz. “Para os próximos meses, acredito que teremos condições de melhorar os processos de seleção.”

Assim como Mariela, o CEO da empresa frisa que a necessidade das empresa locais é para profissionais em formação. Aquele especialista em TI que atua para grandes corporações mundiais por meio de trabalho remoto, terá mais dificuldade em se colocar no mercado, acredita Scheibler.

Primeira turma da CRIE TI

Dados do relatório da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) corroboram a carência de profissionais qualificados. Na área de TI, o país precisa formar pelo menos 420 mil pessoas nos próximos dois anos. Hoje a média anual é de 46 mil novos profissionais. Pela projeção da entidade, seriam necessários ultrapassar 70 mil trabalhadores aptos por ano para suprimir essa demanda.

Diante desse cenário, a Univates criou o CRIE TI, curso intensivo destinado para desenvolvimento, programação e análise de dados. A primeira turma vai formar 24 pessoas. Metade já no mercado de trabalho. Na próxima semana, os estudantes começam o estágio em empresas parceiras, diz o coordenador do CRIE TI, Fabrício Pretto.

“Os conglomerados mundiais que estão no sufoco estão mais ligados ao setor de comunicação e redes sociais, como o Twitter, o Facebook e a Meta. Agora, todas as empresas hoje dependem da informática. Uma transportadora, uma rede de lojas, ou um escritório. Para mim, não chega a ser uma crise, mas uma adaptação”, avalia o presidente da Fuvates, Ney Lazzari.


ENTREVISTA – Eduardo Meira Peres • CEO da DBServer

“Empresas gaúchas adiam projetos para ver como o mercado vai se comportar”

Gestor de uma empresa de TI com 600 funcionários, Eduardo Meira Peres, adverte que o momento não é de crise, mas de adaptação. Para ele, ainda há espaço para avanço no mercado em termos de Brasil, estado e região. Porém, há menos dinheiro disponível para novos projetos.

A Hora – Como as demissões em empresas multinacionais atingem o mercado do RS?

Eduardo Meira Peres – Na consultoria que prestamos para as empresas, sempre afirmamos que a transformação digital traz como necessidade de se reinventar. É preciso ser dinâmico e agir. O mesmo ocorre àquelas do setor de TI. É uma questão até ética, de nos adaptarmos, para mostrar na prática aquilo que falamos.

Há muitas incertezas sobre a economia e o mercado da tecnologia para os próximos meses. As empresas globais estão preocupadas com isso. O próprio Mark Zuckerberg (fundador do Facebook), se antecipou na entrada do Metaverso e precisou recuar, pois não era o momento de um projeto tão arrojado. Empresas gaúchas adiam projetos para ver como o mercado vai se comportar.

– Quais os motivos para essa adaptação para as startups gaúchas?

Peres – O momento é de repensar as empresas de TI. Não há mais o fluxo de investimento do período de pandemia. A bolha das startups não existe mais. Há mais análise de riscos por parte dos investidores e isso faz com que as contratações diminuam.
Mas não podemos falar em crise no setor, pois ele continua em crescimento. Ainda há muito espaço para projetos inovadores. Agora, o ritmo tende a ser menor para o próximo ano.

– Com relação ao mercado de trabalho, como está a demanda por profissionais?

Peres – Na DBServer, tínhamos 80 vagas em aberto. Frente às projeções de novos projetos, reduzimos para 30. Isso representa 5% do nosso quadro atual. Como temos atuação em 14 países, nossa maior dificuldade é conseguir especialistas. A medida de crescimento é menor justo pela falta de profissionais. É um grande paradoxo. Em meio a um cenário de adequação, em que grandes empresas reduzem, nós precisamos crescer e não conseguimos devido à mão de obra.

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