Consumo de chimarrão recua e expõe desafios do setor

Economia

Consumo de chimarrão recua e expõe desafios do setor

Impactos econômicos da pandemia comprometeram em 15% as vendas de erva-mate no RS em 2021. Indústrias buscam novos produtos para agregar valor e manter rentabilidade

Consumo de chimarrão recua e expõe desafios do setor

Considerado o principal polo ervateiro do estado, a região alta do Vale do Taquari discute alternativas para compensar redução de consumo do chimarrão. As indústrias estimam queda de 15% nas vendas em 2021. A perda de renda, mudança de hábitos e calor acima da média estão entre os motivos da variação de comportamento do consumidor.

Ao depender na maior parte do mercado interno, o cenário desafia o setor e expõe a necessidade em desenvolver novos produtos a partir da erva-mate. A construção de um centro tecnológico em Ilópolis, maior produtor da região, é aposta em profissionalizar o segmento.

Além do recuo no consumo de chimarrão, indústrias e produtores são afetados pela estiagem. As perdas nas plantações chegam a 30%. Com a falta de chuva, o período mais importante da brotação ficou comprometido.

Na avaliação do presidente da associação de produtores, Clovis Roberto Roman, a cadeia da erva-mate é muito bem estruturada, mas há potencial de novos produtos para agregar valor e diversificar mercados.

Em busca de inspiração, grupo de cinco produtores vai conferir processos na cultura do café, em Minas Gerais, e de chá, em São Paulo. A viagem está marcada para março. “Precisamos nos atualizar e implementar tecnologia”, destaca Roman.

Ele é um dos incentivadores e inovadores do setor ervateiro. Em 2016, iniciou uma indústria de bebidas que tem na erva-mate o principal ingrediente. Roman defende parcerias entre empresas e centros de tecnologia para criar produtos alternativos e valorizar a planta. Na sua avaliação, há também potencial de gerar créditos de carbono e receber por serviços ambientais.

Além do produto para comercialização, o agricultor receberia um valor por auxiliar na preservação do ambiente. Essa ainda é uma demanda do setor junto aos órgão governamentais. Outro desafio está atrelado ao custo de produção e instabilidade econômica por conta da pandemia e tensão internacional.

60% da produção estadual

A região alta do Vale produz pelo menos 60% da massa verde e erva-mate do RS. O setor movimentou mais de R$ 120 milhões em 2020. São 70 indústrias com produção voltada ao mercado interno e exportação. A principal relação comercial internacional é estabelecida com Argentina e Uruguai.

Conforme o presidente do Sindicato da Indústria do Mate no Estado do Rio Grande do Sul (Sindimate/RS), Álvaro Pompermayer, o produto hoje oferecido no mercado é de excelência. Com a redução de consumo, a qualidade foi mantida. “O chimarrão dos próximos meses está garantido.” Na sua percepção, a crise está na perda de renda do consumidor.

O representante das indústrias destaca ainda, a alta nas vendas durante o pior momento da pandemia. Entre 2020 e início do ano passado, o isolamento e a restrição de compartilhamento fizeram o consumidor individualizar o consumo. Pompermayer cita também, a necessidade de cativar os clientes. “Antes da pandemia era muito comum em empresas e locais públicos o uso coletivo da cuia. Hoje ficou difícil esse gesto e por isso também muitos deixam de consumir nesses locais.”

Em relação ao preço, Pompermayer destaca pouca variação nos últimos anos. O valor final varia de R$ 10 a R$ 14 por quilo. Por outro lado, houve aumento significativo em etapas de produção. A embalagem da erva-mate dobrou de preço e passou de R$ 0,50 para R$ 1. Ao buscar manter o preço no mercado, as indústrias acumularam defasagem de até 40%.

Para os próximos meses, a expectativa é manter o patamar de consumo. Sobre as exportações, não há perspectiva de incremento nas vendas. De acordo com Pompermayer, o país vizinho tem estoque suficiente para um ano. Mesmo com perdas de ervais por incêndios, o mercado argentino não sinaliza para aumento de importação do produto brasileiro.


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