Os resultados do Rancho Miguel na Expointer refletem um movimento que ultrapassa as feiras e chega ao mercado. Com criação da raça Poll Dorset desde 2018, a propriedade de Fazenda Vilanova acumula títulos nacionais e ampliou a comercialização de genética ovina. Neste ano, o carneiro Rancho Miguel 461 foi escolhido como o melhor exemplar da raça na exposição.
A trajetória da cabanha acompanha a valorização de uma atividade que representa cerca de R$ 80 milhões em Valor Bruto da Produção (VBP) no Rio Grande do Sul. O estado reúne aproximadamente 3 milhões de ovinos, e a procura por carne, lã e genética supera a capacidade atual de oferta. “O mercado consumidor tem condições de absorver muito mais do que nós produzimos”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Edemundo Ferreira Gressler.
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Demanda supera oferta
Conforme o presidente, a valorização da carne e da lã tem alterado o comportamento dos criadores. Mais matrizes permanecem nas propriedades para reprodução, o que reduz a oferta de fêmeas para abate e amplia a capacidade futura dos rebanhos. O movimento também estimula investimentos em genética e atrai novos produtores.
A procura por reprodutores selecionados e tecnologias de reprodução cresce à medida que produtores buscam animais com maior velocidade de crescimento, precocidade e qualidade de carcaça.
“O principal desafio é transformar a demanda existente em aumento da produção. Isso passa pela ampliação dos rebanhos, melhoria dos índices de natalidade e aumento da produtividade. A falta de matéria-prima, já limita o avanço do setor”, avalia.

Propriedade tem 600 animais e conta com seis profissionais. Foco comercial do rancho é a comercialização da genética animal
Genética como negócio
É nesse mercado que o Rancho Miguel, de Fazenda Vilanova, atua. A propriedade mantém cerca de 600 animais, entre receptoras e exemplares puro de origem, e concentra parte dos investimentos na seleção genética.
A criação da Poll Dorset começou em 2018 e, desde 2020, o Rancho Miguel acumula resultados expressivos na Expointer, com campeões e colocações entre os melhores machos e fêmeas da raça. A sequência de premiações se estende às exposições nacionais: em 2022, 2023 e 2024, a cabanha também conquistou títulos de destaque em Alegrete, Uruguaiana e Bagé. O histórico consolidou a propriedade de Fazenda Vilanova entre as referências nacionais da Poll Dorset.
Na Expointer deste ano, o título de melhor exemplar da raça teve reflexo comercial: todos os animais levados pela propriedade para venda foram negociados.
A exposição, porém, é apenas uma parte da operação. O Rancho Miguel utiliza transferência de embriões e inseminação por laparoscopia e importa sêmen e embriões da Austrália e da Nova Zelândia. São dois ciclos de inseminação e transferência de embriões por ano, além do repasse com carneiros nacionais.
“A genética comercializada por nós chega a produtores de Mato Grosso, São Paulo, Minas Gerais e estados do Nordeste. Isso mostra a força do trabalho desenvolvido aqui e como a genética do Rancho Miguel ganhou espaço fora do estado”, afirma Rafael das Trevas, gestor da propriedade.
A comercialização para diferentes regiões projeta o trabalho desenvolvido em Fazenda Vilanova para o mercado nacional e coloca o Vale do Taquari no mapa da genética de alta qualidade da raça Poll Dorset.
Mais valor por animal
A Poll Dorset é voltada à produção de carne e se destaca pela precocidade, ganho de peso e conformação de carcaça. Cordeiros podem superar 30 quilos ao desmame, enquanto o rendimento de carcaça varia de 54% a 60%, conforme o peso, a idade e o sistema de criação.
Essas características aumentam o interesse por reprodutores capazes de transmitir desempenho aos rebanhos comerciais. Para Trevas, a genética é uma das ferramentas para elevar a qualidade e a produtividade dos criatórios que compram animais da cabanha.
Produção exige estrutura
A manutenção do rebanho envolve alimentação, vacinação, manejo e rotação de piquetes. A equipe do Rancho Miguel conta com seis profissionais, responsáveis pelos cuidados com os animais durante toda a semana.
Segundo Gressler, a evolução genética ocorre em diferentes raças e está relacionada à finalidade de cada criação. Na produção de carne, os produtores buscam maior velocidade de crescimento e precocidade. Para lã, a seleção considera a qualidade da fibra e as exigências do mercado. O dirigente cita ainda o leite ovino como um segmento com potencial de expansão, principalmente na produção de derivados.
A escolha da raça, segundo ele, precisa considerar o objetivo da propriedade e a adaptação dos animais às condições de cada região. Para Gressler, o setor precisa aumentar a produtividade para acompanhar a demanda. Isso significa elevar os índices reprodutivos, ampliar o número de animais e manter o avanço genético.
Impacto na economia
A ovinocultura gaúcha movimentou R$ 80,6 milhões em Valor Bruto da Produção (VBP) em levantamento da Seapi, que também registrou 3,2 milhões de ovinos e 47,1 mil estabelecimentos ligados à atividade.
Os números mostram uma cadeia que vai além da criação. O estado chegou a registrar 182,8 mil ovinos destinados ao abate e produção de 8,8 mil toneladas de lã. A atividade envolve fornecedores de insumos, produtores, frigoríficos, beneficiamento, transporte, comércio e serviços, ampliando o impacto econômico para diferentes segmentos.
Para a economista Fernanda Sindelar, as premiações representam um reconhecimento da qualidade e da inovação desenvolvidas na propriedade. “Esse reconhecimento pode contribuir para abrir mercados, estabelecer parcerias e estimular novos investimentos, com reflexos sobre outros elos da economia”, diz. Ela também avalia que o resultado pode estimular outros produtores a se qualificar, investir nas propriedades.

