A cheia que voltou a atingir o Vale do Taquari expôs um dos principais desafios enfrentados pelos órgãos de monitoramento: prever o comportamento de um evento climático extremo. Segundo o coordenador estadual da Defesa Civil, tenente-coronel Boeira, tanto o volume de chuva registrado nas cabeceiras do Rio Taquari quanto a resposta dos modelos hidrológicos superaram as projeções iniciais, o que fez com que a inundação avançasse além do esperado.
De acordo com o coronel, a Defesa Civil Estadual acompanhava a evolução do sistema meteorológico havia cerca de dez dias. A previsão indicava que a frente de instabilidade provocaria impactos distintos em diferentes regiões do Estado, começando pela Fronteira Oeste e pela Campanha, com registros de tempestades, granizo, vendavais, rajadas de vento e alagamentos.
Conforme a chuva avançava pelo Rio Grande do Sul, o foco do monitoramento passou a ser o volume acumulado. “Diariamente fazíamos esse acompanhamento por meio da equipe técnica, seja pela equipe de meteorologistas ou hidrólogos, e fizemos cinco atualizações do nosso aviso hidrometeorológico, que é o documento que dá o start das ações de proteção e defesa civil”, explicou.
Na última atualização do alerta, a área de atenção foi ampliada para incluir as regiões de Passo Fundo e Marau, justamente onde estão as nascentes e cabeceiras dos rios Carreiro e das Antas, formadores do Rio Taquari.
“O nosso maior problema de hoje deve-se muito a isso. Trabalhamos com limiares de até 150 milímetros de chuva, mas o observado foi de cerca de 200 milímetros. Choveu mais do que o esperado”, afirmou.
Segundo Boeira, além do volume acima das projeções, houve uma resposta hidrológica diferente da estimada pelos sistemas de previsão. “Nossos modelos hidrológicos referentes às respostas subestimaram as respostas que estão acontecendo agora”, reconheceu.
Até a noite de terça-feira, o boletim emitido pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) ainda não apontava para uma inundação no Vale do Taquari. A situação mudou durante a madrugada, quando uma nova atualização passou a indicar a elevação do rio até a cota de inundação.
“A partir disso começamos a interagir com os prefeitos, que já acompanhavam a situação, para que fossem adotadas ações preparatórias”, relatou.
Na manhã de quarta-feira, entre 6h e 7h, a Defesa Civil emitiu o alerta pelo sistema Defesa Civil Alerta para municípios como Santa Tereza, Encantado, Lajeado e Estrela. A estimativa inicial era de que o Rio Taquari atingisse a cota de 23 metros, mas, segundo Boeira, o monitoramento permanece em andamento e novas projeções já indicavam a possibilidade de o nível chegar a 24,5 metros.
O coordenador também destacou o impacto emocional provocado pela recorrência das enchentes na região. “São sucessivas feridas que o Vale vem sofrendo desde 2023. Sabemos de toda a angústia que isso traz para a região. Toda vez que a gente tem notícia de chuva, só quem vive aqui vai entender o sentimento de esperar para ver o que vai acontecer nas próximas horas”, concluiu.
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