Utilizado para receber famílias atingidas pelas enchentes no município, o Centro Comunitário Cristo Rei volta a funcionar como abrigo na manhã desta quarta-feira, 22. Enquanto caminhões, ônibus e equipes da Defesa Civil percorrem diferentes bairros para retirar moradores das áreas de risco e transportar móveis, eletrodomésticos e animais, o espaço reúne, até por volta das 11h, seis famílias, cerca de 20 pessoas, entre adultos, crianças e idosos.
A abertura do abrigo acompanha a intensificação da operação preventiva organizada pela prefeitura diante da rápida elevação do Rio Taquari. Equipes concluem a retirada das famílias que vivem abaixo da cota 23, enquanto moradores das cotas 24 e 25 recebem orientações para organizar a saída das residências. O município também trabalha com a possibilidade de o rio atingir 26 metros e prepara a estrutura para ampliar a operação, caso o cenário se confirme.
No Cristo Rei, equipes da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, da Defesa Civil e de outras secretarias recebem os moradores, realizam o cadastramento e encaminham cada família aos espaços preparados para permanência. O abrigo dispõe de colchões, cobertores, alimentação e atendimento social, além de concentrar o suporte às pessoas que deixam as casas sem previsão de retorno.
A movimentação no local aumenta ao longo da manhã, acompanhando o avanço das equipes pelos bairros atingidos. Enquanto caminhões chegam carregados com móveis e pertences, novas famílias desembarcam no ginásio trazendo poucas malas, documentos e a expectativa de retornar para casa assim que o nível do rio permitir.
Entre os primeiros acolhidos está a família de Carla Michele Barcelos Palskuske, de 41 anos. Natural de Guaíba, ela morou durante vários anos em Santa Cruz do Sul antes de se mudar para Estrela. Atualmente vive no bairro Oriental, onde buscou uma oportunidade de trabalho e também a proximidade com a filha e as netas.
Ela conta que, ao alugar a residência, foi informada apenas de que o imóvel poderia ser atingido por enchentes, mas sem receber explicações sobre as cotas de inundação. Na manhã desta quarta-feira, com a água avançando rapidamente, precisou deixar a casa às pressas. “O proprietário falou que pegava enchente, mas não explicou as cotas. Quando vimos a água subindo, tivemos que sair. Eu fiquei apavorada porque estava sozinha com a minha netinha. Meu marido já tinha saído para trabalhar e minha filha também.”
Diabética e com dificuldades de mobilidade, Carla afirma que a situação trouxe de volta lembranças de outra enchente enfrentada pela família quando morava em Sobradinho. Na ocasião, perderam praticamente todos os móveis e precisaram recomeçar do zero. Desta vez, a prioridade foi retirar os pertences antes que a água alcançasse a residência. “Nós já perdemos tudo uma vez. Dessa vez, graças a Deus, conseguimos salvar o pouco que temos.”
A casa também é dividida com Daiane Matto dos Santos, de 29 anos, moradora de Estrela desde o nascimento. As duas vivem juntas há cerca de um ano e meio, desde que Daiane enfrentou dificuldades pessoais e foi acolhida pela família de Carla. Hoje compartilham a rotina da casa e, agora, também a incerteza provocada pela cheia.
Ao perceber a rapidez com que a água avançava, Daiane providenciou um caminhão para retirar móveis, eletrodomésticos e demais pertences da residência. Enquanto vizinhos também deixavam as casas, equipes da prefeitura auxiliaram na remoção dos bens, dos animais domésticos e conduziram a família até o abrigo. “Mal pisquei o olho e já tinha um caminhão na frente da casa. Eles ajudaram a tirar os móveis, os bichinhos e tudo o que conseguimos salvar. Fomos muito bem atendidos”, afirma Carla.

Carla Michele Barcelos Palskuske e Daiane Matto dos Santos aguardam no abrigo após deixarem a residência no bairro Oriental durante a retirada preventiva. (CRÉDITO: DANIÉLY SCHWAMBACH)
Além dos móveis, roupas, documentos e eletrodomésticos, a família conseguiu retirar os animais de estimação antes que a água alcançasse a residência. Agora, sem previsão para retornar ao imóvel, acompanha a evolução do nível do Rio Taquari na expectativa de que a enchente não cause novos prejuízos. “A gente só espera que passe logo. O melhor lugar é o cantinho da gente.”
Ao longo do dia, novas famílias continuam chegando ao Centro Comunitário Cristo Rei, enquanto a Defesa Civil mantém o monitoramento das áreas de risco e amplia a operação preventiva conforme a evolução da cheia.

Crédito: Daniély Schwambach
